"O Grande Escândalo" | © Columbia Pictures

Clássicos em Casa | O Grande Escândalo (1940)

“O Grande Escândalo”, também conhecido como “His Girl Friday”, é uma das comédias mais divertidas da História do Cinema, sendo que conta com Rosalind Russell e Cary Grant a darem duas das suas melhores prestações. É um triunfo sem igual!

Há poucos filmes que se possam classificar como perfeitos. Quando se tratam de comédias, ainda é mais complicado chegar a tais conclusões, sendo que haverá poucas coisas mais subjetivas que o humor. Considerando tudo isso, arriscamo-nos à mesma a dizer que “O Grande Escândalo” de Howard Hawks é um filme perfeito. A obra chegou aos cinemas no apogeu da screwball comedy, tipificando os seus melhores elementos e levando-os a um nível de virtuosismo raramente atingido e nunca superado. Parte da genialidade devém do modo como Hawks adaptou o argumento às suas particularidades enquanto autor de cinema.

“O Grande Escândalo” baseia-se numa peça que já antes havia sido levada para o grande ecrã, em 1931. Trata-se da história de dois colegas jornalistas, um repórter e um editor, que juntos passam a vida a discutir, mas cujas colaborações são imbatíveis em termos de qualidade e arrojo. O enredo principal, centra-se nos esforços da parelha para reportar os factos estrondosos num caso de homicídio cujo principal suspeito se evadiu. Na peça original e no filme de 31, ambos os papéis são interpretados por homens unidos pela amizade e pela vocação. Foi aí que Hawks implementou a primeira das suas grandes mudanças, fazendo do repórter uma mulher e do editor o seu ex-marido.

o grande escandalo his girl friday critica
© Columbia Pictures

Segundo a lenda, o realizador terá formulado esta conceção dos papéis quando, numa festa entre amigos, ele decidiu ler a peça. Uma convidada leu as falas de um dos protagonistas e Hawks ficou maravilhado com o modo como essa mudança de género enchia a narrativa de novas tensões dramáticas, cómicas e sexuais. Se isso é verdade ou não pouco interessa, sendo que o resultado é o mesmo. “Grande Escândalo” eleva-se acima das outras versões do texto, pois não abdica dos temas jornalísticos da trama, mas entrelaça-os com uma dinâmica de drama pessoal inseparável da vida profissional. No início do filme, a jornalista pensa em abandonar o trabalho para se casar com um sujeito aborrecido, mas estável, renegando o ex-marido que tanto a deseja enquanto esposa como colega. Aliás, todos menos o seu noivo parecem reconhecer a genialidade dela.

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Hildy Johnson vive para o trabalho e somente as pressões sociais para com o seu género a fazem pensar em abdicar do ofício e a construir uma vida doméstica mais tradicional. Nesse jeito, a sua separação do ex-marido é também uma separação das suas honestas ambições enquanto uma profissional consagrada. O problema é que ela ainda o ama a ele, apesar de estarem sempre a discutir, e ao seu trabalho. Numa época em que as mulheres eram muitas vezes acorrentadas à ideia de domesticidade, aqui estava uma heroína para a qual um final feliz significava uma aceitação das suas ambições enquanto uma profissional num mundo de homens. Hildy não tem de sacrificar-se pelo ideal feminino, simplesmente tem de aceitar que a sua felicidade está noutro lugar que não o de dona de casa.

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© Columbia Pictures

Tudo isso pode sugerir um drama de emoções fortes, mas esta é uma comédia. Por muito que estas tensões pessoais enriqueçam o argumento, elas jamais deturpam o gozo de ver dois viciados em trabalho mergulharem de cabeça no caos de um prisioneiro que escapou às autoridades. O humor ainda aumenta quando estes dois protagonistas passam a vida a atirar insultos inteligentes um ao outro, fazendo da palavra aguçada uma espécie de foreplay. E eles não são os únicos com línguas afiadas, sendo que no mundo da imprensa, toda a gente parece divertir-se com humor negro e piadas cortantes. Hawks, que adorava o ritmo natural de multidões em polvorosa decidiu filmar tudo isto com diálogos sobrepostos.

Essa escolha era arrojada para uma época em que a tecnologia de som ainda era relativamente primitiva. No entanto, Howard Hawks nada temeu e dirigiu todos os seus atores a falarem uns por cima dos outros a velocidades estonteantes. Ouvir “O Grande Escândalo” é como escutar um concerto de cacofonia verbal, total caos cómico que, no entanto, parece ordenado. Nem todos os atores conseguiriam fazer dessa abordagem algo viável, mas Hawks tinha em mãos um grande elenco liderado por Rosalind Russell e Cary Grant. Ela, em particular, é hilariante, atravessando cenas com o seu fato listado e diálogos disparados da mesma forma que uma lâmina afiada corta através de manteiga quente. Nada a para e vê-la é um espetáculo de infinitos prazeres e gargalhadas contínuas.

Este filme está disponível para aluguer ou compra no Apple iTunes. Não percas esta oportunidade de ver um clássico da comédia.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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