71º Festival de Cannes (5): Amores Loucos

Duas belas histórias de amores loucos e impossíveis em “Les Eternels”, do chinês Jia Zhangke e “Cold War”, do cineasta polaco Pawel Pawlinkowski foram exibidas em Cannes. Jean-Luc Godard continua com o seu amor à arte cinematográfica, a questionar o mundo e as imagens em “Le Livre d’Image”.

Cronista insatisfeito e ácido das rápidas mutações da China do Terceiro Milénio, Jia Zhangke em “Les Éternels” — como as cinzas de um vulcão extinto para dois momentos de reflexão dos personagens — toma como pretexto uma complicada história de amor entre um pequeno ‘padrinho’ de província e uma mulher que se sacrifica por ele, antes de tirar partido da expansão económica e montar um pequeno império de jogo. O cruzamento dos destinos deste par romântico impossível pelas voltas da vida, desenrola-se entre 2001 e 2017, ou seja entre o início do milénio e actualidade, num país marcado por uma vertiginosa mudança económica e moral, onde o dinheiro vale mais do que tudo.

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Uma história de amor entre um pequeno gangster de província e uma dançarina.

“Les Éternels” é um melodrama colorido, que bem poderia ser um clássico americano de Douglas Sirk, sobre as infindáveis forças do destino: o mundo dá muitas voltas e nem sempre o universo está contra nós e muitas vezes a até está a nosso favor; ou depois da tempestade vem a mudança. É curioso como Jia Zhangke vai beber aspectos e elementos dos clássicos americanos para os adaptar aos conflitos e paradoxos da China da actualidade Interpretando o papel dessa mulher maravilhosa e sobretudo luminos, pelo ar de tranquilidade que transmite, está a atriz Zhao Tao (“Se As Montanhas Se Afastam”, do próprio Jia Zhangke, em 2015), a mulher e musa do realizador; e Lian Fan, prémio de Melhor Actor da Berlinde 2014 em “Carvão Negro”, de Yi’nan Diao. Para dar uma luminosidade colorida — ao contrário de uma China que se imagina cinzenta e industrial — está o grande de mérito do director de fotografia francês Éric Gautier, que trabalhou entre outros filmes em “Clean” de Olivier Assayas.

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Joanna Kulig (“Ida”) numa interpretação notável que às vezes até faz lembrar Marilyn Monroe.

A música do amor e a tragédia marcam “Cold War”, do cineasta polaco Pawel Pawlinkowski. Depois do seu período britânico em que assinou por exemplo “My Summer Of Love” (2005), o cineasta regressa com “Cold War” para mostrar as contradições da sua Polónia natal, meio-século depois de “Ida” (2003), no período exactamente a seguir ao pós-guerra e para questionar igualmente o anti-semitismo e o fascismo endémico desta sociedade católica que deu a conhecer ao mundo o contraditório Papa João Paulo II. “Cold War” é uma crónica sentimental a preto e branco, no tradicional formato quadrado de 4:3, — como em “Ida” — que tem como fundo exatamente como no título o período da Guerra Fria.

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Uma profunda história de amor entre um músico (Tomasz Kot) e uma jovem cantora (Joanna Kulig).

Trata-se de mais uma profunda história de amor impossível e exílio entre um músico (Tomasz Kot) e uma jovem cantora (Joanna Kulig), dividida entre a Polónia estalinista e a Paris Boémia dos anos 50; e passada ao ritmo de belas canções, de temas jazzísticos e das tournées europeias do Ballet, Coro e Orquestra Nacional da Polónia e do Mazurek Ensemble, símbolos artísticos do regime comunista polaco. Pawel Pawlinkowski reencontra a sua actriz fétiche Joanna Kulig (“Ida”) em mais uma interpretação notável e angustiante no seu desespero que às vezes até faz lembrar Marilyn Monroe. Apesar da aparente angústia da protagonista e do próprio título, “Cold War” é um filme muito mais sensual e mais luminoso, do que possa parecer à partida.

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Jean-Luc Godard, que continua a explorar os mistérios da arte cinematográfica.

Filas enormes para conseguir ver “Le Livre d’Image”, o novo opúsculo do mestre Jean-Luc Godard, que continua a explorar os mistérios da sua arte e a encenar as suas pilhagens de imagens e textos clássicos (“O Espirito das Leis”, de Montesquieu, entre outras obras, Rimbaud também é citado — da literatura e filosofia. Continuando na linha das suas “Histoire(s) du cinéma” e a correr novamente o risco de perder as massas de espectadores “Le Livre d’Image” é novamente construído através de uma narrativa de imagens decompostas e descolarizadas, utilização das novas tecnologias, e a voz do realizador ‘numa reflexão sobre o mundo árabe em 2017.

O cineasta retorna assim à competição em Cannes com um exercício de memória de desconstrução e reconstrução do mundo e da arte. Tal como no em “Film Socialism”, este novo filme é um completo bombardeio de imagens às vezes um pouco criptografadas, mas decerto modo fascinantes e sempre claro de uma espantosa actualidade.

José Vieira Mendes (em Cannes)

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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