La La Land – Melodia de Amor, em análise

Contras as incertezas do mundo actual ‘La La Land – Melodia de Amor’, de Damien Chazelle (‘Whiplash’), é o melhor dos antídotos cinematográficos, contra as nossas angústias do dia-a-dia. É um filme lindo, feliz, elegante e inteligente que recria género musical e o cinemascope, com Ryan Gosling e Emma Stone a explodirem numa química interpretativa notável.

Cinco anos depois de Guy and Madeline on a Park Beach, outra história de amor bem ao tom ‘jazzístico’, e depois da revelação de Whiplash (2014), que equivaleu a cinco nomeações, três Óscares e uns inesperados cinquenta milhões de dólares de receita para um filme independente estreado em Sundance e no Panorama da Berlinale, Damien Chazelle, explode neste sonho maravilhoso chamado La La Land—Melodia de Amor, que já valem sete Globos de Ouro da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood e mais aí virá.

La La Land—Melodia de Amor

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Evasão, música, sentimentos e entretenimento puro marcam este surpreendente La La Land—Melodia de Amor, de Damien Chazelle. No brilhante ‘cinemascope’ estão Sebastian (Ryan Gosling), interpretando um nostálgico músico de jazz, e Mia (Emma Stone), numa bela e talentosa aspirante a actriz. Ambos os jovens sonham com o sucesso, mas o talento e a carreira parecem não combinar com o amor e o casamento. Ryan Gosling e Emma Stone — ambos bastante hábeis em superar a sua suposta incapacidade para cantarem e dançarem, substituindo-a por uma extraordinária química interpretativa — dão vida aos dois jovens artistas à procura do seu lugar no mundo do show business. Os dois procuram alcançar o equilíbrio e esse difícil momento que justifica uma vida inteira: assumirem a sua paixão, sem caírem num conto de fadas ou num pesadelo de terror, imersos na fama, no dinheiro fácil e aplaudidos por um público idiota. Pelo meio está uma terna e deslumbrante história de amor (im)possível.

La La Land—Melodia de Amor é pois uma extraordinária fantasia romântica, que inspira a dançar e a correr atrás dos sonhos, mas é sobretudo um novo impulso ao género musical com uma energética reivindicação da paixão, melancolia e desejo. Em primeiro lugar, devolve ao musical a graça talvez perdida do seu sentido como género cinematográfico que se afirmou em tempos na História do Cinema — não só em Hollywood, estou a lembrar-me por exemplo do francês Guardas-Chuvas do Amor (ou de Cherbourg) — , e um regresso a um cinema de entretenimento inteligente e agradável, sem os inevitáveis e aborrecidos inconvenientes da verdade e triste realidade contemporânea.

La La Land—Melodia de Amor soa mesmo quase a um acto de rebelião contra o presente e contra o formatado cinema de Hollywood, que insiste nos remakes, adaptações de comics e na violência generalizada. Por isso é um filme necessário que nos faz sonhar e evadir um pouco das imagens violentas das catástrofes e do terrorismo insistentemente repetidas nos media e que atormentam no nosso dia-a-dia, cada vez mais carregado de incertezas.

La La Land — Melodia de Amor

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La La Land—Melodia de Amor abre no ecrã com uma torrente de luz, cor e música, e num brilhante cinemascope. A sucessão de sequências fechadas num único plano parecem estar lá precisamente para deter o nosso olhar numa espiral incessante de sensações. A energia é a marca do filme e há pouco tempo para respirar. O realizador joga com os lugares comuns, fantasia com a ideia de que só a repetição entusiástica da mesma história de sempre faz sentido. E de esta maneira, todo o filme se resolve numa  avassaladora celebração de sensações e sentimentos como a nostalgia, a febre de amor, o desamor e finalmente o esquecimento e a indiferença. A meio do filme Chazelle parece não conseguir mesmo responder ao próprio ritmo alucinante por ele mesmo criado. Durante cerca de uma hora, a música desaparece e parece correr-mos o risco de assistir a um melodrama triste e realista. Mas isso dura pouco para novamente romper de novo a barreira do real e voltamos a dançar e a cantar entre imagens deslumbrantes. Apagam-se as luzes e o desejo e a vertigem volta a colar-se com a música vinda de algum lado incerto. É o mesmo que dizer que La La Land—Melodia de Amor é melhor e cresce quando se perde na fantasia.

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No musical o principio da realidade fica suspenso, ante os olhos do espectador e fica só o sonho como pretexto e argumento. Pelo menos, assim era em mesmo em muitas das fantasias — goste-se ou não do género —  barrocas, e trágicas na sua superficialidade, como Do Fundo do Coração (1981), de Francis Ford Coppola, New York, New York (1977), de Martin Scorcese, ou Nasce uma Estrela (1954), de George Cukor. Mesmo sendo uma fantasia, curiosamente em La La Land—Melodia de Amor quase acreditamos no que vemos.

La La Land — Melodia de Amor

La La Land — Melodia de Amor poderia chamar-se ‘LA, I Love You!’, tal é a forma como se torna um igualmente um roteiro turístico de alguns dos lugares mais belos da cidade — (o alto das colinas de Mulholland Drive, do Griffith Observatory, cenário de A Fúria de Viver, o funicular de Bunker Hill; e como na estrofe do principal tema musical da excelente banda sonora: ‘City of stars, are shining just for me?’, que põe, Gosling e Stone a dançar e a cantar as músicas de Justin Hurwitz, amigo e colega da universidade do realizador, um compositor pouco reconhecido em Hollywood.

La La Land — Melodia de Amor

Para escutar: City of Stars,are you shinning just for me?

É por isso que La La Land — Melodia de Amor é ainda uma bonita e bem trabalhada metáfora sobre a própria Hollywood, e muito mais do que uma simples homenagem à cidade de Los Angeles.  A cidade que vemos na generalidade dos filmes é de ruas sujas, cheias de carros e do barulho das sirenes da polícia; mas depois há outra cidade (ou cidades dentro da cidade) oculta, aquela que se esconde atrás das ilusões dos seus habitantes necessariamente deslumbrados pela vida da ‘cidade dos sonhos’. ‘City of stars, are you shinning just for me?’, marca esse ritmo e essa filosofia de vida que é real e não está apenas nos filmes, para quem conhece LA e esse bairro de Hollywood.

La La Land—Melodia de Amor não faz mais do que seguir os velhos padrões de filmes  e musicais muito famosos como Serenata à Chuva ou Nasce uma Estrela, que é levar a música e os sonhos para a rua. A ideia não é mais do que confrontar a ilusão do inexplicável com a certeza dura do único reconhecível. E fazê-lo com a música como ferramenta filosófica, para desmontar as certezas e improbabilidades de conseguir a felicidade e o êxito pleno ou as duas coisas ao mesmo tempo.

La La Land — Melodia de Amor

No elenco, além do par romântico Gosling e Stone, está o notável J.K. Simmons  — o actor que interpretou o feroz professor de jazz em Whiplash —, no seu terceiro filme com o realizador, o cantor-pop John Legend e Anna Chazelle, a irmã do realizador e que o segue desde Guy and Madeline on Park Beach.

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O importante é claro o resultado e La La Land – Melodia de Amor, além da inteligência e da sua oportuna elegância que não confunde sentimentos com sentimentalismo, depois dos The Golden Globes, é sem dúvida o filme do momento e a maior das estrelas que vai brilhar na noite de 28 de Fevereiro, em Hollywood, aliás como num merecido regresso a casa.

O MELHOR – A química interpretativa dos dois actores Ryan Gosling e Emma Stone.

O PIOR – O filme é melhor quando se perde na fantasia musical do que quando regressa à actualidade ou ao melodrama clássico.

 


Título Original: La La Land
Realizador:  Damien Chazelle
Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone e J. K. Simmons 
Pris Audiovisuais | Musical | 2016 | 128 min

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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