"Histórias Assustadoras para Contar no Escuro" | © NOS Audiovisuais

Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro, em análise

Produzido por Guillermo del Toro e realizado por André Øvredal, “Histórias Assustadoras para Contar no Escuro” é uma boa proposta de terror para um público juvenil, sendo a adaptação de uma célebre coleção de contos de Alvin Schwartz.

Parece que quando crescemos, alguns de nós se esquecem de como é ser criança. Esta amnésia corrói a mente adulta e esculpe nela uma nova conceção do que é uma criança, do que é que elas gostam, como elas pensam e o que as magoa. Quando alguém vitupera sobre alguma obra cuja imagética horrorífica é inapropriada para os mais novos, é difícil, para aqueles que ainda se recordam da pequenez, não torcer o nariz. Afinal, por muito risonho que um miúdo possa ser, há sempre em si algum desejo pelas partes mais negras da imaginação humana. Há algo de primordial nos medos daqueles que ainda não chegaram à idade adulta, algo que tanto assusta como fascina, um reflexo infernal da ingenuidade daqueles que existem num estado de constante descoberta. Num mundo que lhes nega a possibilidade de explorar esse medo fora dos pesadelos que roubam o sono, por temores puritanos ou bons costumes, então o desejo só aumenta, a vontade de experienciar o tabu intensifica-se.

Não é por acaso que, na sua génese, algumas das mais populares histórias infantis estejam a um passo de ser os mais sanguinários contos de horror que a mente consegue conceber. “A Bela Adormecida”, por exemplo, não termina originalmente com um beijo salvador, mas sim com uma intriga de canibalismo e homicídio. O que é a história da “Branca de Neve” senão uma coleção de tentativas de assassinato, cada uma mais inusitada que a outra? Será que a história de uma criança a ser devorada por um lobo que já lhe chacinou a avó é assim tão inocente quanto isso? Alvin Schwartz entendeu isto mesmo quando escreveu “Histórias Assustadoras para Contar no Escuro”. Tratou-se de uma coleção de contos macabros com origens folclóricas que era publicado para um público juvenil e acompanhado por ilustrações de meter medo ao susto feitas por Stephen Gammell. De certa forma, foi como se alguém pegasse no ritual de contar histórias de horror em volta da fogueira ou num quarto escuro e o tornasse em literatura.

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© CBS Films

Outra pessoa que entende esta dinâmica é Guillermo del Toro, que agora nos traz uma adaptação cinematográfica desses livros que tantas crianças e adolescentes aterrorizaram. Apesar de não realizar, o cineasta mexicano certamente deixa o seu cunho pessoal na obra enquanto produtor e argumentista. Além das constantes referências a clássicos de terror, a ênfase que ”Histórias Assustadoras para Contar no Escuro” dá ao próprio ato de conceber e transmitir um conto é algo típico de del Toro. Como o filme e o cineasta nos dizem, histórias são algo poderoso. Elas podem curar e podem magoar, podem ser a arma daqueles que são oprimidos e podem ser o modo pelo qual os mais poderosos tornam as suas vítimas em monstros. Histórias são os discursos que os políticos fazem em campanha, são as conjeturas de polícias a tentar desmantelar um homicídio, são os preconceitos que regem uma sociedade, são os rumores que se espalham como uma doença.

A própria História, aquela que aprendemos nas salas de aulas e nos fala do passado, é nada mais que uma coleção de histórias baseadas em facto, ou não. Tudo depende de quem a conta. No imaginário coletivo, existe uma tendência a olhar para o passado com uma névoa de nostalgia a toldar-nos a vista, criando mentiras que são mais verdadeiras que a verdade. Veja-se o modo como tanta da retórica política atual remete para uma utopia perdida, um passado que representa algo a que queremos voltar. Nessa perspetiva, há quem veja o mundo moderno uma aberração cheia de vícios e problemas que supostamente não existiam antes. Escolhendo situar o filme em 1968, o fim de uma década de transição tumultuosa na História mundial, del Toro traz estas mesmas ideias ao seu argumento. O seu maior génio, contudo, é o modo como ele questiona a nostalgia e se deixa levar por ela também.

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Afinal, esta é uma história em modelo clássico e tradicional. Três amigos nuns subúrbios da Pensilvânia passam a noite de Halloween a fazer frente aos rufias que lhes fazem a vida negra na escola. Pelo caminho, encontram-se com outro jovem, alguém amistoso que os ajuda e rapidamente faz do trio um quarteto. Há uma visita a uma casa assombrada por espectros do passado. Encontra-se um livro mágico e, todas as noites que se seguem, alguém é atacado pelas forças demoníacas que foram libertadas quando as páginas desse objeto maligno foram abertas. Tudo parece simples e pouco original, até que notamos as variações. Estes subúrbios não são nada amistosos, não há aqui nenhuma visão de inocência bucólica a ser corrompida pelo Mal. O Mal já cá está desde início. Está em suásticas nas paredes, está em insultos racistas, está em mexericos venenosos e guerras desnecessárias.

“Histórias Assustadoras para Contar no Escuro”, com suas imagens de pesadelos juvenis, pode ser inocente e docemente nostálgico, mas há sempre um travo amargo e crítico a tornar tudo menos sacarino do que aparenta ser. O realizador André Øvredal caminha esta corda bamba com confiança, não escondendo estas dimensões mais complexas do argumento, mas também não as sublinhando em detrimento do fator de entretenimento. É importante ter isso em conta pois, no final, este filme é um objeto de divertimento sobre adolescentes a lutarem contra forças malignas que se manifestam como espantalhos assassinos, cadáveres em busca do dedo grande do pé e bizarras mulheres de sorriso rasgado e corpo disforme. Como divertimento horrorífico, este é um triunfo modesto que jamais finge ser um exemplo de terror intelectualizado.

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© CBS Films

Aliás, tanto os maiores erros como os maiores prazeres do filme derivam desse despretensiosismo. Os monstros são o ponto alto de todo o exercício, sendo obras-primas de maquilhagem que dão vida às ilustrações dos contos originais sem serem demasiado perversos para o público mais novo. Num patamar oposto de qualidade, há uma certa falta de peso dramático no que diz respeito às personagens e aos horrores que lhes são infligidos. Por muito que estas pessoas sofram, parecem estar sempre prontos a fazer uma piada casual e agir como se nada tivesse acontecido. “Histórias Assustadoras para Contar no Escuro” nunca põe realismo psicológico acima do espetáculo, isso é certo. Enfim, não é um filme perfeito, mas é entretenimento de qualidade, com mais ideias do que pode parecer e um entendimento fulcral dos apelos e mais-valias do seu género cinematográfico. Não nos admiraríamos se, no futuro, várias pessoas apontassem para este “Histórias Assustadoras para Contar no Escuro” como aquilo que os tornou fãs de cinema de terror. Afinal, quem é o miúdo que não gosta de ser assustado de vez em quando?

Histórias Assustadoras para Contar no Escuro, em análise
Histórias Assustadoras para Contar no Escuro

Movie title: Scary Stories to Tell in the Dark

Date published: 11 de August de 2019

Director(s): André Øvredal

Actor(s): Zoe Margaret Colletti, Michael Garza, Gabriel Rush, Austin Zajur, Natalie Ganzhorn, Austin Abrams, Dean Norris, Gil Bellows, Lorraine Toussaint, Kathleen Pollard

Genre: Terror, Mistério, Thriller, 2019, 111 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Histórias Assustadoras para Contar no Escuro” é uma delícia de terror feito para um público mais juvenil, cheia de efeitos estrondosos, alguns sustos simples e eficazes, assim como um argumento com o toque pessoal de Guillermo del Toro. Trata-se de bom entretenimento com uma fascinante reflexão sobre o poder das histórias e suas muitas permutações.

O MELHOR: A conceção dos monstros é um triunfo técnico e criativo.

O PIOR: O modo como o final desesperadamente tenta estabelecer os parâmetros para uma sequela. Essa qualidade mercenária não fica bem ao filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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