À conversa com as divas e musas da Awards Season

Como já é tradição, o Hollywood Reporter reuniu algumas das atrizes mais faladas para os Óscares de 2017, como Emma Stone, Natalie Portman e Amy Adams.

Há já alguns anos que, no final de cada ano, a célebre publicação The Hollywood Reporter, organiza mesas redondas entre alguns dos principais nomes das Awards Seasons, a temporada de prémios de cinema. Apesar do óbvio interesse e valor de outras conversas, como aquelas entre realizadores, atores, argumentistas e mesmo diretores de fotografia, a conversa entre as atrizes do ano consegue sempre ser a que mais fascina e surpreende. Não é difícil perceber as razões depois de uns breves clips da conversa deste ano.

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As convidadas para esta edição da “Actress Roundtable” foram Emma Stone (La La Land), Natalie Portman (Jackie), Annette Bening (20th Century Women), Amy Adams (O Primeiro Encontro e Animais Noturnos), Taraji P. Henson (Hidden Figures), Naomie Harris (Moonlight) e a estrela francesa Isabelle Huppert (Ela e O Que Está Para Vir). Entre elas, estas sete atrizes são algumas das principais candidatas aos óscares para Melhor Atriz e Melhor Atriz Secundária, sendo que Stone e Portman, em particular, parecem ser já presenças garantidas na cerimónia de prémios a decorrer, para o ano, no Dolby Theatre.

Não que esse caminho tenha sido necessariamente fácil. Stone, por exemplo, fala dos desafios das filmagens de La La Land, onde as mudanças de registo inerentes ao género musical se mostraram tão problemáticas como o cantar ao vivo ou a coreografia do grande dueto entre ela e Ryan Gosling.

Num ponto diametralmente oposto do espetro entre realismo e fantasia, temos Taraji P. Henson e Natalie Portman que tiveram de lidar com o peso de interpretarem personagens verídicas. Enquanto para Henson, parte do desafio esteve na vontade de respeitar a integridade de Katherine Johnson, uma matemática que trabalhou para a NASA nos anos 60 e que ainda é viva. Por outro lado, Portman, cuja figura histórica já faleceu, teve de confrontar os requisitos de interpretar um ícone como Jackie Kennedy. Quando todos têm uma opinião pré-concebida sobre a aparência, postura, movimento e voz de uma pessoa, a técnica mímica é algo necessário antes de pensar em construir um retrato psicológico credível.

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Entre realidade e ficção estiveram Naomie Harris e Annette Bening, duas atrizes que interpretaram o que se poderia chamar de versões ficcionadas das mães dos seus realizadores, Barry Jenkins e Mike Mills respetivamente. Sobre ambos os seus ombros estiveram ainda questões políticas, sendo que Harris chegou mesmo a pensar em rejeitar o seu papel em Moonlight pois não queria interpretar uma mulher afro-americana toxicodependente. Felizmente, Jenkins conseguiu convencê-la e, em três dias, ela deu uma prestação que se estende a 20 anos de vida, capturados em três momentos chave.

Para Adams, a maternidade também teve um papel fulcral na sua colaboração com Denis Villeneuve. Segundo as palavras do realizador franco-canadiano (cujo sotaque Adams tenta imitar com hilariantes resultados) O Primeiro Encontro é, para além de toda o vistoso cenário de ficção científica, a experiência de uma mãe a recordar e contar à sua filha a história de uma vida. Story of My Life é, aliás, o título do livro que levou à criação deste filme.

No meio destas atrizes anglófonas, a presença imperiosa e o humor seco de Isabelle Huppert marcam uma cáustica diferença. Para esta deusa francesa, o teatro não é necessariamente mais nobre que o cinema, não houve nenhumas dúvidas na sua mente em interpretar uma personagem pós-feminista que é vítima de violação e, ao contrário das suas colegas, ela nunca é atormentada pelos seus papéis. Oferecendo uma incomum e refrescante perspetiva sobre a arte de atuar, Huppert descreve a sua atividade como um ofício, como o ato de fazer algo e como uma experiência entre consciência e inconsciência. Ao longo da sua carreira comprida e ilustre, nenhum papel lhe mudou a vida e nenhum papel a seguiu para casa depois das câmaras pararem de rodar.

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Como não podia deixar de ser, o clima político atual marcou a sua venenosa presença nesta conversa, gravada a 13 de novembro, já depois da vitória de Donald Trump. Natalie Portman, por exemplo, lembrou que não se pode deixar para ontem o apoio e promoção de liderança feminina. Ainda mais admiráveis foram as palavras de Huppert, Henson e Adamas que, talvez pela primeira vez numa destas mesas redondas, questionaram a legitimidade das perguntas do moderador. Em questões de visibilidade afro-americana e igualdade de géneros são os produtores quem deviam ser confrontados, as pessoas que realmente tomam as decisões que limitam essa visibilidade e permitem as injustiças sociais que continuam a afetar a indústria cinematográfica (assim como o resto da sociedade).

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Se estás interessado em ver todos os clips desta mesa redonda sobre a Awards Season e queres ler as transcrições de algumas das passagens mais interessantes, dirige-te ao site oficial do Hollywood Reporter, onde, nos próximos dias, deverá ser ainda publicado o vídeo desta conversa na sua íntegra. Não percas!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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