O Homem da Câmara de Filmar, em análise

O Homem da Câmara de Filmar é indiscutivelmente uma dose de cinema do pensamento, referência primeira e inconfundível da dissuasão entre os regimes ficcional e documental das imagens em movimento.  

No âmbito do Ciclo do Grande Cinema Russo levado a cabo pela Medeia Filmes, chega finalmente às salas de cinema a magnífica cópia restaurada de O Homem da Câmara de Filmar, realizado por Dziga Vertov (1896-1954). Provavelmente mais do que todos os outros, por ser esse o seu enfoque, este é o filme ideal para ser projetado em sala de cinema, tornando-se experiência inesquecível na vida de muitos cinéfilos. Embora seja extremamente complexo de analisar, aliás já tudo (ou quase tudo) foi escrito sobre o mesmo, ousamos embarcar numa viagem à obra-prima de Vertov.

O Homem da Câmara de Filmar

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Desde logo é necessário firmar que O Homem da Câmara de Filmar é um filme sobre cinema, senão vejamos: é um filme sobre um operador de câmara (interpretado por Mikhail Kaufman), um filme sobre os espetadores, um filme sobre o processo de rodagem enfim, um filme que busca em si mesmo um devir, ou seja, que aponta alguma coisa no seu futuro, algo que se presencia claramente no nosso presente. Nesse sentido, O Homem da Câmara de Filmar traduz sem demoras uma infinitude na lógica de mise-en-abyme, espelho de um olho humano que se objetiva e que anseia a captação de tudo aquilo colocado à sua frente, sem quaisquer restrições. Lembre-se ainda do ‘aviso’ que lhe foi dado no início do filme de que não haverão intertítulos, cenários, estúdios, atores ou trama para ‘desviar’ a atenção, tratando-se sobretudo de um experimento que ia ao encontro da gigantesca massa analfabeta da União Soviética e, por sua vez, de mundo inteiro dos finais dos anos 20. Uma ferramenta que espera ser facilmente acedida por todos, não apenas pelas elites, comparável da mesma maneira ao cuidado que se tem com o vestir-se de manhã, com as unhas ou com o trabalho proletário. Nota-se de tal forma uma certa crítica às convenções que começavam a ser adotadas no cinema de Hollywood, em inigualável eclosão.

O Homem da Câmara de Filmar

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Além disso, O Homem da Câmara de Filmar reflete o lufa-lufa quotidiano da cidade de Moscovo da época. Como tal, apresentam-se planos gerais de uma cidade que está em crescimento –  a Rússia estava empenhada num intenso programa de industrialização -, bem como imagens dos meios de transporte que permitem os cidadãos deslocarem-se de um local ao outro. Desde o automóvel, ao comboio, até ao elétrico, sem esquecer o cavalo – uma referência à ontologia das imagens em movimento, nomeadamente aos fotogramas de Étienne Jules-Marey e Eadweard Muybridge que estudavam o galope deste animal -, O Homem da Câmara de Filmar revela-se como um retrato fiel daquele país e ao mesmo tempo.

Tudo isso resulta de um trabalho do seu cineasta russo, Dziga Vertov (o seu nome era Denis Kaufman) um vanguardista que aprimorou o conceito de Kino-pravda, de um cinema-verdade, já a abrir portas à teoria do kino-glaz, isto é, de um “cine-olho” (bem que o podemos constatar na sequência do final) de uma câmara que se autonomiza e serve de terceiro órgão ocular, para complementar alguma coisa que não está ao serviço do olho orgânico. O próprio chegou mesmo a criar um manifesto de 1923, onde afirmava todo o cinema do amanhã:

“Eu sou o cinema-olho, eu sou o olho mecânico, eu sou a máquina que mostra o mundo como só ela pode ver. Doravante serei libertado da imobilidade humana. Eu estou em movimento perpétuo, aproximo-me das coisas, afasto-me, deslizo por sobre elas, nelas penetro; eu me coloco no focinho do cavalo de corrida, atravesso as multidões a toda velocidade, coloco-me à frente dos soldados em assalto, decolo com os aeroplanos, viro-me de costas, caio e me levanto ao mesmo tempo dos copos que caem e se levantam…”

Digamos que conseguiu. Dziga Vertov, através de umas suas fotomontagens, uma das mais longas alguma vezes feitas na sétima arte, possibilitou um cinema de captação dos instantes – os cortes nas imagens parecem até fotografias – influenciando cineastas da Nouvelle Vague como Jean-Luc Godard em O Maoísta (1967) e até Christopher Nolan em A Origem (2010), este último na possibilidade da cidade como lugar de múltiplos tempos e espaços. De facto, percebemos a pertinência de continuar a falar deste revolucionário, de um cineasta que atribui todo o protagonismo a uma máquina que queria ser uma linguagem própria – o manifesto das Sete Artes de Ricota Canudo tinha sido concretizado no mesmo ano.

O Homem da Câmara de Filmar

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Enfim, O Homem da Câmara de Filmar continua a exercer grande influência na comunidade cinematográfica e pelos estudiosos da área, além de constar em algumas listas, como por exemplo a da revista Sight & Sound, como um dos melhores filmes de todos os tempos. Arriscamo-nos a dizer que com O Homem da Câmara de Filmar emerge um Homem que já não criado à imagem e semelhança de um Deus, mas criado à imagem e semelhança da câmara, um ser dual que chega os seus olhos para nós espetadores abrirmos o nosso e contemplarmos o poder das imagens, que são imagens da vida por tantas teorias paradoxais que se concebam.

O MELHOR – A exímia preocupação que se colocava sobre a mise-en-scène e sobre a o tratamento das imagens na montagem.

O PIOR – A dificuldade de muitos espetadores em assistir hoje em dia a um filme a preto e branco e mudo, mesmo com uma excelente banda-sonora da autoria do próprio realizador.

 


O Homem da Câmara de Filmar

Título Original: Chelovek s kino-apparatom
Realizador:  Dziga Vertov
Elenco:  Mikhail Kaufman
Leopardo Filmes | Documentário | 1929 | 68 min

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VJ

 

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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