Nuno Markl é, há quase três décadas, um dos nomes mais acarinhados pelo público português. Foi em 1997 que criou “O Homem Que Mordeu o Cão”, a rubrica das manhãs da Rádio Comercial que se tornou um fenómeno nacional, deu origem a livros, a uma antiga adaptação televisiva e a uma digressão de espetáculos ao vivo. Mais recentemente, tornou-se também a cara portuguesa do “Taskmaster”, como ajudante de Vasco Palmeirim num dos maiores sucessos de audiências da RTP1.
Foi precisamente um dia depois de gravar a mais recente final do programa que tudo mudou. A 20 de novembro de 2025, Markl sofreu um AVC hemorrágico em casa, o tipo mais grave, causado pela rutura de um vaso sanguíneo. Já hospitalizado, sofreu ainda um segundo AVC, desta vez isquémico, que veio complicar ainda mais a recuperação.
Ainda assim, o regresso à atividade já começa a desenhar-se. Markl mantém conversas regulares com a RTP sobre o futuro do “Taskmaster”, cujo regresso deverá acontecer apenas em 2027, e já voltou também à rádio em ocasiões pontuais. Mas antes de qualquer um destes regressos, o apresentador tem pela frente um desafio bem maior: estrear-se como realizador, e fazê-lo logo com uma longa-metragem ambiciosa.
Qual é o enredo de “O Homem Que Mordeu o Cão: O Filme”?
O projeto existia, na verdade, há já três anos, com Markl a escrever diferentes versões do guião, chegou a garantir que já vai na 17.ª. Contudo, nenhuma o convencia. “Tinha histórias mais clássicas, mas nunca me agradou. Parecia uma compilação de curtas-metragens”, confessou em entrevista à SIC Notícias. Faltava, nas suas palavras, “a argamassa para ligar tudo”.
Essa argamassa acabou por surgir do episódio mais delicado da sua vida. Depois do AVC, Markl decidiu centrar o filme na sua própria saga hospitalar, e não apenas nas histórias mais clássicas da rubrica. “Olhei para a minha situação, para os elementos cómicos sobre tudo o que me aconteceu e o puzzle encaixou todo”, explicou. O resultado é um projeto que mantém a essência de “O Homem Que Mordeu o Cão”, mas que passa a ter como matéria-prima o seu período de internamento e recuperação.
Markl não esconde o peso emocional da decisão. Antes do AVC, chegou a admitir junto de um psicoterapeuta sentir-se “aprisionado” pela própria rubrica; agora, encara o filme como “a coisa mais pessoal” que fará na vida. Ainda assim, garante que o objetivo é que a obra funcione mesmo para quem nunca ouviu falar da rubrica original, sem deixar, no entanto, de esconder pequenos “easter eggs” ao longo da história para os fãs mais atentos, escondidos entre as páginas dos vários livros já publicados da rubrica.
Quem está no elenco?

Para já, há apenas um nome confirmado: Rui Melo. Ator e encenador, Melo já trabalha com Markl há algum tempo, mais recentemente como um dos elementos fixos da sexta temporada do “Taskmaster” português. No filme, Melo vai desempenhar um papel duplo, interpreta uma das personagens e assume também a direção de atores.
Markl já revelou ainda que, no resto do elenco, quer contar com “pessoas reais” que o acompanharam durante o internamento, sobretudo no Hospital do Mar, em Cascais, onde continua a fazer os tratamentos de recuperação. Segundo o próprio, a ideia é reforçar a autenticidade de uma história que é, acima de tudo, a sua.
Quando serão as filmagens do filme de Nuno Markl?
A produção está a cargo da Caos Calmo Filmes, a mesma produtora responsável por “Playback”, um dos grandes êxitos recentes do cinema português. As rodagens têm início previsto para setembro deste ano, e a estreia nas salas portuguesas está marcada para 2027, ainda sem data exata.
Nas últimas semanas, o próprio Markl tem partilhado os bastidores da pré-produção no Instagram. Recentemente, revelou que ele e Rui Melo vão começar em breve a reunir-se com “o (enorme) elenco”, de forma a afinar o tom do filme, que descreve como “delicado”. Contou também que já passou uma tarde inteira de leitura do argumento com vários departamentos de produção, “sólidas cinco horas a analisar cada momento”, nas suas palavras para que tudo fique “o melhor possível”.
Sobre a dimensão do desafio que tem pela frente, Markl não esconde a ironia da situação: podia ter-se estreado como realizador com uma curta-metragem mais simples, mas escolheu, em vez disso, uma longa-metragem “cheia de filmes dentro”. Como o próprio resume, entre risos, no seu Instagram: “Se me vou estrear com um filme cheio de filmes dentro, a dar tanta trabalheira e dor de cabeça a tanta gente? Pois vou.”

