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LEFFEST ’18 | L’Homme Fidèle, em análise

Louis Garrel realiza, escreve e protagoniza “L’Homme Fidèle”, uma comédia romântica onde dois triângulos amorosos se sobrepõem e talvez haja veneno no chá. Este foi um dos filmes em competição no Lisbon & Sintra Film Festival de 2018.

As vidas amorosas e muito disfuncionais de parisienses atraentes são um tema bem-querido dos cineastas franceses. “L’Homme Fidèle”, o mais recente filme assinado por Louis Garrel enquanto realizador, começa mesmo com uma introdução às paisagens urbanas da Cidade Luz despertando nostalgia adocicada na mente dos cinéfilos que a estas imagens associam tantos dos seus clássicos preferidos. A não ser, é claro, que tal alusão a tantas outras centenas de obras semelhantes tenha consequências opostas e acabe por despertar um revirar dos olhos. Afinal, também haverá cinéfilos que já estão cansados de ver os mesmos temas e iconografias num constante ciclo de reciclagem e canibalismo gálico.

Certamente a situação com que nos encontramos depois da viagem pelos postais paisagísticos de Paris tem o seu quê de cliché. Parece que, após três anos de um relacionamento relativamente estável, Marianne quer deixar o namorado Abel. Acontece que ela está grávida e o pai é um amigo mútuo do casal chamado Paul. Enquanto espectadores, nunca vemos Paul apesar de muito ouvirmos falar sobre a sua pessoa, sendo que Marianne se casa com ele assim que se livra de Abel.

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Uma trama romântica à moda francesa.

Seis anos depois, o triângulo amoroso reúne-se no mesmo sítio pela primeira vez desde a separação, mas agora Paul está num caixão. Sem demoras, Abel volta a imiscuir-se na vida da mulher que nunca deixou de amar, apesar das advertências de Joseph, o filho de Marianne e Paul. Segundo o miúdo, sua mãe matou o pai com veneno e Abel está em perigo de sofrer o mesmo fado, especialmente se continuar a aceitar placidamente as muitas e muito suspeitas chávenas de chá que a viúva insiste em lhe impingir.

Tal situação já seria suficientemente insólita para um só filme, até mesmo uma obra-prima de Hitchcock, mas Garrel e companhia não se ficam por aqui e decidem empacotar ainda mais um triângulo amoroso nas dinâmicas apaixonadas e luxuriantes de “L’Homme Fidèle”. Parece que Abel não é só o alvo dos desejos de Marianne, sendo que Eve, a irmã mais nova de Paul, há anos que nutre uma paixoneta pelo potencial novo padrasto do seu sobrinho. Bizarria da bizarria, ao saber isto, Marianne insiste que Abel se junte a Eve. Sem ele saber, isto é parte do plano de traiçoeira sedução da viúva carente de atenção erótica.

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Em muitos outros filmes, tal coleção de traições, manipulações e possível intento homicida seria encarado com drama, melancolia e umas boas quantidades de histeria emocional. Nesta bizarra comédia atonal de Garrel, contudo, todas as personagens parecem viver meio desligadas do mundo do sentimento. Ao invés, eles desfilam por apartamentos requintados e ruelas charmosas com muito estilo e um tipo de elegância casual que tanto lhes afeta a pose como as dinâmicas interpessoais. Em certas passagens, os atores desta pseudo comédia romântica parecem modelos apáticos a ler cue cards durante uma sessão fotográfica para a Vogue.

Tal desconexão entre o drama fervilhante das premissas narrativas e a secura das reações do elenco faz florescer, no âmago do filme, um peculiar humor, tão chique como idiossincrático. Infelizmente, Garrel parece pouco seguro no que diz respeito à direção de atores e nunca leva o registo aos seus gloriosos antípodas. Comparando o seu trabalho com o de cineastas que trabalham em jogos semelhantes, como Martín Rejtman, Eugène Green ou mesmo Yorgos Lanthimos, os esforços de Garrel parecem tristemente presos a uma ideia de naturalismo pervasivo que serve de obstáculo à comédia e acaba por amolecer o impacto da história que assim ganha a dúbia qualidade de uma distração descartável.

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Lily-Rose Depp torna um triângulo amoroso num quadrado em que um dos vértices já não está entre os vivos.

Pela sua parte, o lendário argumentista Jean-Claude Carrière lá tenta tecer pelo texto várias ponderações sobre a sustentabilidade da monogamia, sobre o peso do tempo e da idade na construção de novas relações assim como sobre as ramificações invisíveis que o desaparecimento de uma vida causa no universo social dos seus entes queridos. Somente nesse último tema Carrière consegue encontrar algo interessante para dizer e fá-lo não através do diálogo ou da ação, mas da ausência e do vácuo.

É, portanto, impossível afirmar que “L’Homme Fidèle” está desprovido de charme e astúcia, que é um filme pouco inteligente ou formalmente mal feito. Com isso dito, é igualmente uma impossibilidade ver grande ambição ou originalidade nesta proposta que, como tantas outras miniaturas francesas, constitui uma homenagem rescaldada à Nouvelle Vague. Já estava na altura de o cinema nacional de França abandonar os cânones dos vanguardistas passados, cuja obra deixou há muito de ser provocadora e agora é somente mais uma instituição respeitosa à espera de ser desafiada por cineastas muito mais interessantes que Louis Garrel.

L'Homme Fidèle, em análise
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Movie title: L'Homme Fidèle

Date published: 2018-11-25

Director(s): Louis Garrel

Actor(s): Louis Garrel, Laetitia Casta, Lily-Rose Depp, Joseph Engel, Bakary Sangaré, Kiara Carrière, Vladislav Galard, Diane Courseille, Dali Benssalah

Genre: Comédia, Drama, Romance, 2018, 75 min

  • Cláudio Alves - 55
  • José Vieira Mendes - 40
  • Maggie Silva - 55
50

CONCLUSÃO

“L’Homme Fidèle” é uma comédia romântica à moda francesa que conta com uma boa dose de inesperada apatia emocional e ainda maior quantidade de clichés cansados e cansativos. Garrel e companhia trazem charme e beleza aos esforços narrativos, mas nada consegue superar as fragilidades que o filme adquiriu na génese da sua ideia base.

O MELHOR: Os jogos tonais do filme que a todo o custo recusa quaisquer temperamentos melodramáticos que o seu esqueleto narrativo possa sugerir.

O PIOR: A falta de originalidade tanto em termos de temática como de execução formal.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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