Hotel Mumbai Dev Patel critica

Hotel Mumbai, em análise

Hotel Mumbai” dramatiza os horrores de um infame ataque terrorista de 2008 na forma de um filme de ação cheio de suspense e com um elenco exemplar encabeçado por Dev Patel.

A criação de narrativas ficcionadas sobre acontecimentos reais é uma tradição artística que remonta a tempos imemoriais. Em cinema não é diferente. Episódios particularmente sangrentos e chocantes das páginas dos livros de História têm sempre encontrado uma nova casa no grande ecrã. Basta vermos como, por exemplo, um dos primeiros e muito primitivos usos de efeitos especiais em cinema foi feito para uma dramatização da morte de Maria Stuart da Escócia. A moralidade desta prática é raramente questionada quando se trata de História com alguns séculos de idade e só mesmo a representação em si é alvo de critica, nunca o princípio do exercício. Quando o filme se refere a um acontecimento mais recente, contudo, a situação complica-se.

O terrorismo é um dos grandes pesadelos do século XXI que, desde o batismo de fogo que foi o 11 de setembro, tem sido irrevogavelmente marcado e transformado pelo flagelo. É impossível para a Arte, mesmo aquela feita como um produto de entretenimento, não refletir os tempos em que é feita. No entanto, há uma clara diferença, e uma clara distinção em termos morais, entre refletir as tragédias da atualidade e tornar essas mesmas tragédias numa comodidade comercial. Tudo é mais fácil quando as pessoas que sofreram os traumas representados em cena morreram há séculos. Enfim, chegar a uma conclusão definitiva em relação a estas questões é algo meio impossível.

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O filme recria o luxo e o esplendor do Taj Mahal Palace Hotel com exatidão, respeito e esplendor.

Além disso, numa crítica de cinema, como este artigo é, reduzir tudo a uma pergunta – este filme devia existir ou não? – não ajuda ninguém a entender a qualidade da obra em questão, suas fragilidades ou valores estéticos e narrativos. Por isso levantamos e referimos esta problemática importante, mas não somos arrogantes ao ponto de lhe oferecer uma solução. Tudo isto serve de introdução concetual a “Hotel Mumbai”, uma dramatização dos ataques terroristas que assolaram essa grande cidade indiana em 2008, quando homens armados vindos da Palestina mataram e feriram centenas de pessoas em vários pontos de grande afluência turística, nomeadamente o famoso Taj Mahal Palace Hotel.

Piscando o olho a inúmeras referências cinematográficas como os thrillers de Peter Greenaway, Anthony Maras assina aqui a sua primeira longa-metragem, uma explosão de suspense e violência que tanto horroriza como diverte o espectador que goste de sentir emoções fortes na sala de cinema. Em relação à moralidade de tais retratos cinematográficos, queremos só referir que, se filmes de ação baseados em ataques terroristas reais estão aqui para ficar, pelo menos esperamos que todos esses projetos sejam tão bons como “Hotel Mumbai”. Parte do sucesso do filme devém do modo como os cineastas evitaram capitalizar diretamente no sofrimento dos seus sujeitos.

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Tirando a figura do chef da cozinha do hotel e os vários terroristas, todas as personagens são fictícias e sua história é uma amálgama de invenção e aspetos tirados da experiência de várias pessoas. Além disso, ao contrário de muitas narrativas semelhantes em grandes produções de estúdio, “Hotel Mumbai” evita focar-se somente nas pessoas mais abastadas da narrativa e nos turistas ocidentais perdidos num pesadelo em terras estrangeiras. Aliás, diríamos mesmo que, apesar de esta ser uma história coletiva, a figura que está mais próxima de ser o protagonista, o coração do drama, é um humilde empregado do hotel, Arjun, interpretado por Dev Patel.

Essa escolha de casting é mesmo uma das chaves para o sucesso do filme. Maras é um realizador que entende o poder que a presença de um certo ator pode ter e ele bem capitaliza no carisma, humildade e perseverança que parecem irradiar naturalmente de Patel cada vez que este aparece em frente a uma câmara. É certo que Arjun, um simples homem de família preso numa situação terrível, está longe de ser o papel mais complicado na carreira deste ator nomeado para os Óscares, mas Patel não se deixa cair em complacência por causa disso. Pelo contrário, ele injeta energia e modulação emocional em “Hotel Mumbai”, reagindo organicamente face aos horrores da história e, ao mesmo tempo, oferecendo uma âncora para o espectador e para a narrativa.

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Dev Patel é uma estrela.

Nazanin Boniadi, Armie Hammer e Jason Isaacs, como uma milionária indiana, o seu marido americano e um magnata russo respetivamente, são as outras figuras mais ou menos centrais à história, mas nenhum deles é tão bom como Patel. Como acontece com muitas narrativas que se fragmentam por linhas tão bem definidas, esta divisão das responsabilidades de protagonismo tende a forçar certas comparações qualitativas que só servem para tornar o filme numa experiência mais desequilibrada. Por outras palavras, sempre que Patel está em cena “Hotel Mumbai” é um poderoso thriller com uma veia humanista e forte impacto emocional. Quando as cenas são dominadas por outros, passa a ser um thriller mais banal.

Banalidade não é necessariamente o oposto de bom cinema. Mesmo nos seus momentos menos inspirados, “Hotel Mumbai” é um bom exercício em criar tensão, medo e momentos de choque visceral. Devido ao seu glamour inicial e foco no staff do hotel, o filme parece mesmo a fusão de “Downton Abbey” com um filme de guerra moderno. A montagem entrecorta virtuosamente os vários elementos humanos da trama de modo a que o espectador está sempre ciente da posição de todos na geografia do hotel de luxo. A reprodução do Taj é exata e a fotografia não sacrifica dramatismo ou realismo, encontrando um equilíbrio estético que tanto deslumbra os olhos do espectador como sublinha o medo sentido pelas pessoas presas no hotel. Num dos seus gestos mais brilhantes, o filme até tenta humanizar um pouco os atacantes. Nesse e noutros sentidos, “Hotel Mumbai” nunca chega aos calcanhares de projetos semelhantes como “Capitão Phillips”, mas fica lá perto.

Hotel Mumbai, em análise
Hotel Mumbai

Movie title: Hotel Mumbai

Date published: 2019-05-31

Director(s): Anthony Maras

Actor(s): Dev Patel, Armie Hammer, Jason Isaacs, Kapil Kumar Netra, Nazanin Boniadi, Tilda Cobham-Harvey, Anupam Kher, Vipin Sharma

Genre: Drama, História, Thriller, 2018, 123 min

  • Cláudio Alves - 70
  • Daniel Rodrigues - 55
63

CONCLUSÃO:

Dramatizar um horror diretamente das manchetes dos jornais não é tarefa fácil, especialmente quando se quer manter alguma dignidade e integridade ética. “Hotel Mumbai”, de maneira geral, consegue fazer isso mesmo. No entanto, acima disso, este é um thriller eficiente, com sequências de ação entrecortadas com pequenas cenas de tensão e medo paralisante. Não é o mais complexo filme do seu tipo, nem o mais cinematograficamente espetacular. Com isso dito, não se pode ignorar o poder de uma estrela de cinema em ascensão no centro do drama, algo que eleva todo o filme.

O MELHOR: Dev Patel, sua claridade emocional e fácil modulação entre o estoicismo exigido por uma sequência de ação e o sentimentalismo que um momento de paz no meio do horror merece. Cada vez mais, Patel mostra que é um dos melhores atores britânicos da sua geração.

O PIOR: Crimes de ódio motivados por islamofobia na Índia estão a chegar a números monstruosamente grandes nos últimos meses. Apesar dos seus esforços para não pintar os terroristas paquistaneses como puros monstros, “Hotel Mumbai” não deixa de ser um potencial reforço a ideias perigosas. Isso e o sotaque russo de Isaacs é hilariantemente deplorável.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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