"I See You" | © MOTELX

MOTELx ’19 | I See You, em análise

I See You” é um dos filmes com mais insanas reviravoltas desta edição do MOTELx. Este thriller retorcido conta com Helen Hunt num dos papéis principais e integra a secção Serviço de Quarto do festival.

Se há algo que a 13ª edição do MOTELx nos tem provado, é que a experiência de um filme de terror depende incontornavelmente da perspetiva privilegiada pelos seus cineastas. Qual a personagem através da qual vemos o mundo de uma história? Qual é a comunidade cuja moral define o que está certo e o que está errado numa narrativa? A resposta a estas perguntas pode radicalmente alterar a nossa leitura de uma história do grande ecrã. Em “Bacurau” vimos como os selvagens vingativos de um terror convencional podem ser os heróis de outro. Em “Carmilla” vimos como valores modernos podem tornar um pesadelo erótico do século XIX numa tragédia romântica.

Ambos esses filmes evidenciam estas dinâmicas sem as centralizar. No caso de “I See You”, a situação é diferente. Aqui, o realizador Adam Randall concebeu todo um filme em volta de trocas de perspetivas subjetivas, revisitando os mesmos momentos para ver como uma vítima se pode tornar num monstro e como um demónio se pode tornar num anjo justiceiro. Também há um forte sublinhar do modo em como a própria linguagem do cinema nos afeta enquanto espectador. É um cliché dizer isto, mas, em cinema, o que interessa não é tanto a história que nos é contada, mas sim o modo como ela nos é contada.

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© Zodiac Features

Um mecanismo cinematográfico pode ler-se como um clássico jump scare quando avaliado num certo contexto. Mais tarde, quando o voltamos a ver, o mesmo código visual pode ser visto como o suspense de um filme de ação e vingança. Os mesmos gestos e esquemas de montagem ganham diferentes leituras dependendo do contexto do argumento. No entanto, a forma também pode alterar e moldar, pode transformar a informação textual ao manipular tom. Por isso mesmo, é fútil falar em estilo e conteúdo como sendo adversários. Na verdade, são dois elementos necessários de uma relação simbiótica.

Randall bem nos mostra isso com mecanismos como a sonoplastia que muda radicalmente quando o filme chega ao ponto médio da sua narrativa bifurcada. O som altera a história e é alterado pela história em igual medida. Tanto o realizador emprega este jogo e faz dele a raison d’être do projeto, que a própria câmara, o objeto, adota um papel central na história. Alertamos, contudo, que dizer mais que isso nos levaria a revelar as reviravoltas do filme. Se desejam ser surpreendidos, talvez seja melhor pararem de ler. Enfim, tentamos evitar spoilers, só que “I See You” é um filme sobre o qual é difícil escrever sem inadvertidamente endireitar a sua espiral de retorcidas surpresas e reviravoltas narrativas.

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Logo no início, “I See You” brinca com signos, símbolos e códigos formalistas. As suas primeiras imagens poderiam ser bucólicas, não fosse a música que as acompanha, vibrando gravemente nos ouvidos do espectador. A banda-sonora contextualiza a paisagem suburbana dos EUA e confere-lhe algo de perverso e ominoso. Tudo acaba quando a tensão sugerida pela música finalmente resulta num choque. Neste caso, o choque é quase literal. Um menino que anda de bicicleta na floresta choca com uma barreira invisível. O seu corpo, puxado por forças que não vemos ou entendemos, voa para fora de cena e, por instantes, quase parece que acabámos de ver um rapto alienígena.

“I See You” não alimenta essas conjeturas por muito tempo, apesar de cultivar a confusão e a ambiguidade. A narrativa principal, aparentemente, só se preocupa com o miúdo na bicicleta de forma tangencial. O desaparecimento é o novo caso que Greg Harper, um polícia local, está a investigar e é na casa dele que “I See You” ancora a narrativa. No espaço doméstico, o filme toma a forma de um retrato de família fraturada. A matriarca, Jackie, teve um caso extraconjugal e o abalo da traição fez-se sentir por todo o ecossistema familiar. Greg vive como um hóspede no próprio domicílio, o filho, Connor, é um poço de raiva descontrolada e Jackie está sempre tensa e desconfortável.

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© Zodiac Features

Quando estranhas ocorrências começam a afetar a casa, os mecanismos de um filme de terror levam-nos a criar uma conexão entre a discórdia familiar e a estranheza generalizada. Afinal, muitos são os filmes de terror onde as angústias do indivíduo atraem ou despoletam aparições demoníacas, como que atraindo o Mal com o fedor da infelicidade. Mas também há o elemento criminal a considerar e as estranhas ligações a um caso com 15 anos. Lentamente, o mistério vai-se acumulando e, mais do que tenso, este pesadelo começa a ser incompreensível, como se estivéssemos a ver algo incompleto, somente fragmentos de um todo.

Então acontece a primeira reviravolta estrutural e entendemos que ver “I See You” é como resolver um puzzle, com Adam Randall a ir fornecendo as peças aos bochechos. Avaliando o filme como uma experiência em estrutura e linguagem cinematográfica, estamos perante uma pequena joia. Contudo, o modo como a primeira parte da narrativa parece incompleta não deixa de ser frustrante. Na sua totalidade, “I See You” é demasiado conspícuo em relação aos seus jogos, sacrificando a qualidade da narrativa e a integridade das personagens em prol do choque visceral. É impressionante, mas, ocasionalmente, também é vácuo.

I See You, em análise
i see you critica motelx

Movie title: I See You

Date published: 13 de September de 2019

Director(s): Adam Randall

Actor(s): Helen Hunt, Jon Tenney, Judah Lewis, Owen Teague, Libe Barer, Gregory Alan Williams, Allison Gabriel King, Erika Alexander, Jennifer Grace

Genre: Terror, Thriller, 2019, 96 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Muito se fala do twist ending, mas neste caso talvez fosse melhor falar de um twist movie. “I See You” é um thriller retorcido que brinca com linguagem cinematográfica, seus códigos e o modo como a perspetiva de personagens diferentes pode alterar toda a leitura de uma história. Tecnicamente, é impressionante, mas os seus jogos são, ocasionalmente, demasiado óbvios e não sustentam o drama familiar que lhes serve de pretexto. Este filme é mais “Funny Games” do que é “Rashomon” e isso nem sempre funciona em seu benefício.

O MELHOR: Numa cena, perto do final, Adam Randall parece falar através de uma das suas personagens. Aí, o cineasta renega toda uma tendência atual que vê vilões a serem redimidos por narrativas que se propõem a explicar o seu ódio e violência. Por muitas desculpas e razões que haja, há certos tipos de comportamento humano que nunca são justificáveis. Face a certos monstros, vale mesmo disparar e fazer perguntas depois. Até este cineasta tem limites no que se refere ao relativismo moral e narrativo que um filme pode conter na sua história.

O PIOR: Os horrores perpetrados pelo maior monstro do filme são demasiado distantes da história principal. De certo modo, funcionam somente para surpreender, mas não tanto para informar o retrato das personagens envolvidas.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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