"Identidade" | © Netflix

Identidade, em análise

“Identidade”, também conhecido como “Passing”, é a estreia da atriz Rebeca Hall atrás das câmaras. O filme, adaptado do romance homónimo de Nella Larsen, estreou no Festival de Sundance, chegando agora à Netflix na alvorada da temporada dos prémios. Tessa Thompson e Ruth Negga, nos papéis principais da fita, estão na corrida para os Óscares, isso é certo.

Longe de exibir o esplendor de uma Nova Iorque perdida, a Grande Maçã nos Loucos Anos 20, “Identidade” começa com os olhos postos no chão. A câmara mira o passeio, vislumbrando e seguindo sapatos de senhora como se ilustrasse a perspetiva de alguém com cabeça baixa, tentando não ser reconhecida ou vista. O que a imagem não mostra, o som indica, expandindo a nossa perceção do burburinho urbano na parte mais chique, mais exclusiva, da metrópole. Chegados ao nosso destino, uma loja de brinquedos, finalmente a subjetividade cerrada se altera e conseguimos ver a nossa protagonista, a senhora cuja visão do mundo perscrutamos.

Ela é Irene, uma mulher afro-americana de pele clara, capaz de iludir o olho branco e fazer-se passar por caucasiana. Nesta tarde, ela fez isso mesmo para se aventurar no Upper East Side, quiçá em busca de um presente para sua prole aniversariante. Com cara escondida por trás de um chapéu cloche de aba larga, ela é uma aparição fantasmagórica que flutua pelo monocroma preto-e-branco sem chamar atenção para si mesma. Olhares racistas ignoram-na, mas o empregado de balcão, também ele preto, reconhece o engodo. O instante em que a conexão transcende a performance social é precioso, mas também mete medo.

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O que aconteceria se Irene fosse desmascarada? Para a senhora, existe utilitarismo na ilusão, uma maneira de entrar em espaços restritos por leis e costumes segregacionistas. Contudo, ao olho moderno, o artifício identitário é evidente, sendo que a atriz Tessa Thompson dificilmente passaria por indivíduo branco na América contemporânea. A fotografia luminosa e altamente estilizada confunde a visão, mas persiste a impressão que o jogo depende, em parte, de uma ignorância deliberada por parte da gente em seu redor, como que cegos pelo privilégio e ébrios também. Não obstante a sua flagrância, o caso de Irene é menos radical que o de outras pessoas capazes de caminhar entre as linhas que separam identidades raciais.

Tal é o caso de Clare, com quem Irene se cruza quando visita o café de um hotel em busca de refrescos nessa tarde quente de Verão. Novamente, Rebecca Hall afilia o nosso olhar com o de Irene, seguindo sua curiosidade enquanto mira o esplendor da outra mulher. Com a exposição de luz levada ao extremo, Ruth Negga parece um ornamento reluzente enquanto Clare. Loira e coberta de drapeados diáfanos, ela é antiga amiga de Irene, conhecidas da infância, que agora se faz passar por mulher branca e cortou todos os laços com a comunidade afro-americana. Quando elas falam e a conversa passa para o quarto de hotel, descobrimos até que Clare se casou com um homem extremamente racista, iludido quanto à etnia da esposa.

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O que podia ser um encontro fugaz e sem exemplo, repete-se nas semanas e meses vindouros, indo Clare se infiltrando na vida de Irene. Sem expor a interioridade das suas personagens, Rebecca Hall deixa que as ideias contidas na prosa de Nelia Larsen se sublimem no olhar soslaio e no gesto abortado. Tudo se expressa em comportamento anti naturalista, teatralizado pela fantasia da interação social e suas necessárias formalidades. Há ainda a performance de raça, de cultura étnica, que atinge seu mais confuso apogeu na figura de Clare e sua mercurial inconsistência. Apesar de ter fugido a sete pés da sua identidade enquanto mulher afro-americana, ela parece atraída para esse mesmo mundo após o encontro com Irene.

Apesar da monocromia cristalina da imagem, os conceitos subjacentes à narrativa de “Identidade” são policromados e cheios de facetas contraditórias. Mantendo-se leal ao texto original, o filme observa o mistério destas mulheres com ávida atenção, encontrado significados secretos no mais inconsequente movimento. Mas lá porque a observação é airosa e levada pela curiosidade como a pluma é levada pela brisa, não quer dizer que este seja um conto sem tensão. Não só existem tensões identitárias como cada cena é uma espécie de truque incerto, sempre no precipício da desgraça caso a pessoa errada se aperceba das ilusões que Clare fomenta. É uma experiência angustiante, tanto para nós como para Irene.

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Estando a fita tão presa à sua singularidade psicológica, a personagem de Tessa Thompson torna-se nosso guia e o ecrã, por conseguinte, transfigura-se num espelho das ansiedades e paranoias que a atormentam. Um espicaçar de desejo é particularmente notório. Será que Irene também finge ser o que não é, tal como Clare? Se há algo certo é o princípio da incerteza, pois nunca sabemos se Irene quer ser Clare, se quer castigá-la, matá-la, beijá-la, possuí-la em pleno. Quando o ciúme se instala, de mãos dadas com a suspeita de adultério, nem sabemos bem quem é o foco da ira de Irene. Será o homem ou a mulher? Enquanto atriz, Thompson internaliza tudo isto. Enquanto realizadora, Hall faz explodir a ambiguidade numa estratégia audiovisual que se define pela exaltação da psicologia fraturada acima do realismo.

Contudo, nem a interpretação exemplar de Thompson nem o formalismo de Hall e companhia é suficiente para ofuscar a verdadeira estrela do filme. Apesar de Clare se afigurar um papel secundário em relação a Irene, Ruth Negga domina “Identidade” como uma estrela da Velha Hollywood. O magnetismo é visceral, mas o seu génio não é somente carisma. Negga constrói em Clare um ponto médio entre a Daisy de Fitzgerald e a Blanche de Williams. Atraída pelo desejo de pertencer, pelo fim da mentira, ou quiçá seduzida pelo clamor da autoaniquilação, esta figura cativa o espetador. Telegrafando o caos que se revira por baixo da máscara marmórea da propriedade, Negga personifica os temas centrais de “Identidade”, suas teses raciais e dolorosas conclusões sobre o fado daqueles que vagueiam a vida perdidos num limbo.

Identidade, em análise
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Movie title: Passing

Date published: 28 de November de 2021

Director(s): Rebecca Hall

Actor(s): Tessa Thompson, Ruth Negga, André Holland, Alexander Skarsgård, Bill Camp, Antoinette Crowe-Legacy, Gbenga Akinnabge

Genre: Drama, 2021, 98 min

  • Cláudio Alves - 85
  • Manuel São Bento - 70
78

CONCLUSÃO:

“Identidade” é uma belíssima adaptação literária que confronta temas de identidade racial, de género e sexualidade, no panorama de um filme de época, claustrofobicamente alinhado com a subjetividade da protagonista. Rebecca Hall é realizadora estreante, mas o seu domínio formalista sugere o olho de uma mestra do cinema. Filmadas como estrelas de cinema de outros tempos, Tessa Thompson e Ruth Negga dão as melhores prestações das suas carreiras. Óscares para todas estas artistas!

O MELHOR: Negga é assombrosa.

O PIOR: Há uma qualidade claustrofóbica no exercício. A falta de expansividade é deliberada, mas, por vezes, queríamos que “Identidade” olhasse além da dinâmica traiçoeira de Irene e Clare.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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