"Ilusões Perdidas" | © NOS Audiovisuais

Festa do Cinema Francês ’22 | Ilusões Perdidas, em análise

Estreado originalmente no Festival de Veneza em 2021, “Ilusões Perdidas” é uma prestigiosa adaptação literária, na qual o realizador Xavier Giannoli transpõe a prosa satírica de Balzac no grande ecrã. O filme estreou em Portugal no início deste ano, antes de ter dominado os prémios César, onde conquistou sete galardões, incluindo Melhor Filme, Ator Secundário e Argumento Adaptado. Na Festa do Cinema Francês, a obra regressa às salas na secção Segunda Chance, onde fitas previamente estreadas têm oportunidade de ser reavaliadas, reapreciadas, quiçá redescobertas.

Adaptar o trabalho de Honoré de Balzac ao cinema não é tarefa fácil, tanto no que se refere à estrutura literária como à especificidade sociocultural dos seus textos. “Ilusões Perdidas” não difere da regra, seguindo a figura de Lucien Chardon ao longo de vários anos, segmentados em três partes e sequelas também. Talvez pela vastidão de material, Xavier Giannoli e Jacques Fieschi tenham seguido uma estratégia de judiciosa excisão. Ao invés de tentarem resumir o romance na sua totalidade, focaram-se num fragmento do todo, dramatizando a ascensão e queda de Lucien enquanto poeta tornado jornalista na Paris da primeira metade do século XIX.

O enredo é complexo, mesmo com tamanha adaptação. Assim se vai tecendo uma complexa tapeçaria de intrigas e traições, fações políticas em conflito e as aspirações sociais daqueles que repetem retórica revolucionária, mas estão sempre prontos a passar por cima dos outros na procura do triunfo pessoal. Já muitas críticas, até neste mesmo site, fizeram a exploração destas vicissitudes narrativas pelo que, para evitar a redundância, focar-nos-emos noutros aspetos da fita. Nomeadamente, interessam-nos as tonalidades que Giannoli constrói através da escrita e, mais importante, da sua direção atrás das câmaras.

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Falamos do tenor de alienação que o autor promove, um paradoxo transversal ao tratamento textual e conceção formal. Desde uma mão avara a tentar agarrar fumo que não consegue conter até à promessa ilusória de camélias alvas, “Ilusões Perdidas” brilha quando evoca a materialidade de um mundo perdido. No entanto, essa mesma atenção ao detalhe serve de contraposto, salientando as semelhanças entre o ontem e o hoje, a modernidade do passado. Apelando à linguagem manienta e à curadoria idiomática da época esquecida, ao artifício social e outras idiossincrasias que tais, Giannoli cria a proximidade através da distância.

Por um lado, temos os temas salientados pelo guião – questões de imprensa enganadora, redes de corrupção e influência que fazem da cultura um tráfico de ideias à mercê daqueles com poder máximo económico. É difícil não ver os paralelos, a crítica que ainda se mostra relevante mais de um século após a escrita do romance. Contudo, o mundo físico aqui exposto prima pelo pormenor antiquado. A cenografia e os figurinos, de Riton Dupire-Clément e Pierre-Jean Larroque respetivamente, investem no verismo histórico, enquanto a fotografia de Christophe Beaucarne tudo faz para sobrepor um véu de fumo e gaze sobre a imagem.

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Este jogo não deveria resultar, mas de alguma forma o realizador e sua equipa sucedem no truque de opostos colididos, justapostos, quiçá aglutinados numa só expressão cinematográfica. Resulta disso um filme cruel e floreado, capaz de morder e magoar, humor afiado e muito aguçado até funcionar como um bisturi que tanto disseca uma sociedade como o indivíduo. Lucien é a principal vítima desta autópsia em carne viva, uma análise de monstruosidade escondida por detrás da inocência poética, uma mente desnuda de convicção ou valor próprio além do interesse egoísta. Ele é a fome em pessoa, a mentira que recai sobre o mentiroso num ciclo de autoengano.

A submissão ao status quo e sua feroz defesa são assim expressas através do protagonista em jeito de sinédoque. O formalismo do engenho ajuda a transcender a tese política meio óbvia, aguçando o dente com que o espetador devora o drama e dando-lhe novo fulgor, um cinismo intenso e toque lacerante. Contudo, convém dizer que Giannoli está longe de ser um realizador que sobrepõe a questão audiovisual acima do trabalho com texto e com atores. De facto, “Ilusões Perdidas” é tanto montra para a reconstrução histórica como para a caracterização mordaz, sempre a transbordar de ironia e brilhantes escolhas na interpretação.

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Muito se aplaudem os esforços de Benjamin Voisin no papel principal, mas são os atores secundários que puxam o lustro a esta requintada joia de cinema francês. Toda a performance é executada com ironia, a desumanidade das figuras sobreposta ao charme putativo que o diálogo pode indicar. Isto é especialmente aparente num clímax teatral e seu rescaldo violento. Se Voisin aí implode, visão de fúria impotente expressa através de arrogância adolescente, Cécile de France e Salomé Dewaels inspiram sentimentos opostos com suas projeções de fragilidade. Jeanne Balibar e Vincent Lacoste primam pelo esplendor venal, enquanto Jean-François Stévenin tudo desempenha como condutor da orquestra mais cruciante do mundo. Até Xavier Dolan, que sempre mais impressionou como realizador que como ator, aqui se exibe na plenitude dos seus talentos, escolhendo notas de ambivalência e melancolia para balancear a sinfonia feroz das restantes personagens. É um espetáculo vil e maravilhoso em igual medida, malvadez feita circo.

Depois de Lisboa, a Festa do Cinema Francês continua pelo resto do país, até dia 20 de novembro. Algumas das cidades agraciadas com esta celebração do cinema gálico incluem o Porto, Lagos, Faro e Funchal. Podes encontrar mais informação no site oficial da festa. Não percas!

Ilusões Perdidas, em análise
Ilusões Perdidas Poster

Movie title: Illusions perdues

Date published: 7 de November de 2022

Director(s): Xavier Giannoli

Actor(s): Benjamin Voisin, Cécile de France, Vincent Lacoste, Xavier Dolan, Salomé Dewaels, Jeanne Balibar, André Marcon, Louis-Do de Lencquesaing, Gérard Depardieu

Genre: Drama, Romance, 2021, 149 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Ilusões Perdidas” é uma sumptuosa visão do cinema de época na sua vertente mais venenosa. A beleza queima, um beijo de ferros quentes que ganha poder em retrospetiva, o seu esplendor permanecendo na memória como uma pústula perfumada que cresce com o tempo. Mesmo que não tenham merecido todos os César que conquistaram, Xavier Giannoli e sua equipa estão de parabéns.

O MELHOR: A recriação da Paris antiga, suas galerias de vício e salões de intriga mesquinha, teatros cruéis e casarões onde só os mais pérfidos prosperam.

O PIOR: As mensagens sociopolíticas de Balzac são meio simplificadas pelo filme. Trata-se do único gesto de modernidade pelo qual a obra peca, mas não é suficiente para invalidar o restante trabalho.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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