Roger Arpajou © 2021 CURIOSA FILMS – GAUMONT – FRANCE 3 CINEMA – GABRIEL INC. - UMEDIA

Ilusões Perdidas, em análise

“Ilusões Perdidas” é a mais recente obra de Xavier Giannoli e chega agora ao nosso país. Vem descobrir o que temos para te dizer sobre este investimento do cinema francês!

O PREÇO DA ALMA QUE SE VENDE AO DIABO…!

Mais um filme produzido em França a chegar ao circuito comercial do nosso país no início de 2022, neste caso pela mão da NOS AUDIOVISUAIS. Estamos a falar de ILLUSIONS PERDUES (ILUSÕES PERDIDAS), 2021, realizado por Xavier Giannoli, realizador de que vimos recentemente o L’ APPARITION (A APARIÇÃO), 2018, ficção sobre um jornalista enviado pelo Vaticano para investigar uma rapariga alegadamente visitada pela Virgem Maria. Não restam dúvidas, as matérias sobre as quais debruça a sua e a nossa atenção possuem os elementos necessários e suficientes para gerar controvérsia e polémica, que desenvolve sem medo de prolongar o núcleo duro dos principais conflitos dramáticos na duração que considera adequada para a sua plena exposição.

Ilusões Perdidas
Roger Arpajou © 2021 CURIOSA FILMS – GAUMONT – FRANCE 3 CINEMA – GABRIEL INC. – UMEDIA

No mais recente filme, o mesmo se passa e, desta vez, até podemos dizer que os 141 minutos de ILUSÕES PERDIDAS podiam ser dilatados, porque adaptar a obra literária de Honoré de Balzac, publicada entre 1837 e 1843, que serve de matriz ao argumento cinematográfico, não se perfilava missão fácil e isenta de armadilhas. Diga-se a este respeito que Xavier Giannoli e o seu co-argumentista, Jacques Fieschi, conseguem chegar a bom porto impondo uma estrutura sequencial que corresponde a uma multiplicidade de espaços, nos quais se insere uma dispersão intencional do percurso do protagonista, quer do ponto de vista individual, quer integrado no grupo onde impera a polarização sobre outras personagens igualmente influentes, que na prática permite um ritmo vibrante, mesmo alucinante em certos momentos chave do fluir narrativo.

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Mas vamos ao início do filme e ao que ainda poderíamos ali definir como o clima severo mas romântico onde vamos encontrar Lucien Chardon, papel defendido por Benjamin Voisin. Uma espécie de era uma vez um jovem poeta, numa região da província francesa, mais precisamente em Angoulême, cuja existência se dividia entre uma tipografia, a fraca herança e ainda mais parca memória de um pai da classe média baixa, e a companhia da mãe viúva, representante daquilo que podíamos chamar na época uma descendente empobrecida da aristocracia decadente. Este rapaz alimentava a ambição de uma carreira literária e, nas suas deambulações pelos campos circundantes, demonstrava fulgor e inspiração face ao belo, sendo a poesia uma das facetas mais vibrantes da sua vida. Nos seus poemas, recolhidos num singelo livrinho que imprimira com apoio financeiro da sua amante aristocrática, significativamente intitulado LES MARGUERITES, exaltava a Natureza, mas igualmente de forma subliminar, o desejo por aquela mulher, casada com um homem mais velho que manifestamente não correspondia aos prazeres da paixão que procurava e que, finalmente, encontrava junto do seu jovem e secreto amor. Todavia, manter esta subversão das regras do matrimónio num meio fechado e brutalmente reacionário e adverso a qualquer ínfima possibilidade de relações entre diferentes classes sociais só podia acabar como acabou. Para concretizar os amores proibidos, os socialmente improváveis amantes irão abandonar a pacatez provinciana para mergulhar, a princípio discretamente e depois de corpo inteiro, no seu contrário, a babilónica Paris. Uma cidade onde a vertigem do dinheiro marca o preço de cada coisa e de cada um, como as carreiras que se fazem com base na mais reles canalhice plutocrática da compra e venda de notícias concebidas para valorizar ou destruir quem quer que seja, desde que alguém pague para os devidos efeitos. Uma Paris onde o fedor da corrupção seguramente rivalizava com os odores do sexo escancarado e que se negociava não muito longe dos jardins do Palais Royal. Estamos no século XIX, os ecos da Revolução Francesa já não eram os prevalecentes. Para aqueles burgueses e para os arrivistas de qualquer classe, na verdade sem classe, o dinheiro era Deus, o vil metal assumido como o novo Rei, o monarca absoluto a que não se queria cortar a cabeça. Para estes homens e mulheres, a sua influência sobre os acontecimentos mundanos era exercida para sua mera satisfação pessoal. Os seus falsos princípios estavam impressos como mandamentos nas Tábuas da Lei da sua Bíblia satânica, assim como da imprensa sensacionalista. Por isso, vender a alma ao Diabo não passava de um meio para alcançar fins pouco edificantes, algo que estava ali ao virar da esquina para obter benefícios imediatos, patrocínios sulfurosos que resultavam com alguma rapidez na aquisição de fama e proveito. Mesmo que o preço a pagar fosse demasiado elevado, quando o estado de graça e as ilusões associadas acabavam, muitas vezes mais depressa do que imaginavam. Para os outros, os que acreditavam, ou insistiam em acreditar, num outro mundo onde os sonhos e os ideais ainda valessem alguma coisa, a sobrevivência parecia esbarrar diariamente com uma parede de corrupção erguida pelos poderosos ou pseudo-poderosos, ou seja, com as barreiras erguidas para manter a continuidade de uma prática digna de um fétido vómito, promotora da mais reles decadência moral, mas igualmente social e económica.

Ilusões Perdidas
Roger Arpajou © 2021 CURIOSA FILMS – GAUMONT – FRANCE 3 CINEMA – GABRIEL INC. – UMEDIA
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Este será o mundo podre com que Lucien se irá confrontar, o rapaz que não quer ser conhecido pelo apelido Chardon e prefere ao referente paterno o eco aristocrático do nome materno, Rubempré. Na visão do percurso de ascensão e queda do protagonista, o realizador define bem a vertigem desse percurso e nunca deixa que o espectador sinta por ele mais do que a breve cumplicidade e alguma simpatia que a sua figura, inicialmente ingénua, despertara. O seu confronto com a cruel e hipócrita sociedade de Paris, muita da qual povoada por gente que, como ele, nasceu na província mas agora o olham como se fosse um parolo em busca de um lugar ao Sol, será brutal. Mas não provoca compaixão. Porque, pouco a pouco percebemos que, mais do que perder, o idealista abandona as suas ilusões, procurando sobreviver num lamaçal que contrasta em absoluto com o paraíso perdido de onde fugiu para dar corpo e alma a uma hipótese de romance contaminado pelas diferenças de classe, que serão ainda mais acentuadas e criticadas no espaço urbano de Paris. Uma cidade onde podemos encontrar editores livreiros que não sabem ler nem escrever, vigaristas manhosos pagos para aplaudir ou assobiar autores e actores determinando o sucesso ou insucesso de uma peça de Teatro, jornalistas mercenários apostados em arrecadar dinheiro com a publicação paga de falsas notícias. Na verdade, os sucessivos episódios da vida de Lucien na selva urbana não escondem a frágil personalidade do protagonista que gradualmente irá encontrar uma plataforma confortável para as suas ambições junto dos que o ensinam e pagam para ser outra pessoa, não descurando as contradições inerentes a uma série de comportamentos que imita, mesmo quando sabe serem pouco recomendáveis.

Ilusões Perdidas
Roger Arpajou © 2021 CURIOSA FILMS – GAUMONT – FRANCE 3 CINEMA – GABRIEL INC. – UMEDIA

No final, quando recupera alguma dignidade e recua num mundo onde aceitou jogar com regras viciadas, o seu regresso ao passado e a um espaço outrora familiar que sentiu perder devolve-lhe a capacidade de encontrar, sozinho e como veio ao mundo, as águas purificadoras de um lago que ele percebe, amargamente mas com alguma esperança, ser o início de uma nova era, um possível novo rumo, o fim de um ciclo que coincide com o início da sua história, a que será contada por um narrador ausente e presente, cujas palavras acompanharam as páginas da vida de Lucien e das suas ILUSÕES PERDIDAS.

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Do ponto de vista plástico, o filme conta com a notável contribuição da Direcção  Artística, que não pode ser dissociada da Direcção de Fotografia, que interpretou bem o desenho de produção das atmosferas que dão consistência a uma cuidada reconstituição histórica da França rural e sobretudo urbana da primeira metade do século XIX.

Ilusões Perdidas, em análise
Ilusões Perdidas Poster

Movie title: Ilusões Perdidas

Date published: 19 de January de 2022

Director(s): Xavier Giannoli

Actor(s): Benjamin Voisin, Xavier Dolan, Cécile de France, Vincent Lacoste

Genre: Drama, Histórico, 2021, 149 min

  • João Garção Borges - 70
70

CONCLUSÃO

PRÓS: Os actores, protagonistas e secundários. Naturalmente, a eficácia da Direcção de Actores, assim como da Direcção Artística e Direcção de Fotografia, de grande qualidade. Espaço sonoro e musical compatível com o projecto e com o ambiente histórico em que as personagens se inserem. Um grande equilíbrio narrativo.

CONTRA: Podia ser em alguns pontos mais económica a inserção da narração off, mesmo que esta componente literária num projecto iminentemente fílmico seja plenamente justificada na derradeira sequência do filme.

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