13º IndieLisboa | Boi Neon, em análise

Gabriel Mascaro concebe, em Boi Neon, uma visão de surpreendente complexidade e humanismo que olha o corpo e seu potencial para carnalidade e violência com uma franqueza de espantar e celebrar.

boi neon

Antes de se analisar o que quer que seja sobre Boi Neon convém referir, e assim despachar, o assunto de dois infames momentos do filme, que muito alarido têm causado nos circuitos internacionais por onde esta obra do realizador Gabriel Mascaro se tem movimentado. Numa dessas cenas, dois homens tentam roubar esperma de um cavalo de alto gabarito e próprio para criação, claramente masturbando o animal, e noutra, muito mais tarde na estrutura do filme, vemos um homem e uma mulher grávida envolverem-se sexualmente numa cena de vários minutos toda filmada num invariável e enervante plano sequência.

Reduzir o filme a essas duas cenas é um ato de sacrilégio cinéfilo, pois mesmo em momentos assim, que parecem convidar o barato choque por parte de uma audiência burguesa e acostumada a outro tipo de cinema, Mascaro apresenta tudo com uma inesperada casualidade. Através da sua observação, tais eventos não são píncaros de explosiva e titilante provocação ou montras de exploração desavergonhada, mas sim algo casual que faz parte do tecido das vidas aqui retratadas. Tal maturidade e sobriedade humanista é de louvar, especialmente quando observamos o atual panorama do cinema independente internacional e nos deparamos com montanhas de filmes, que abordam temas e situações semelhantes, com uma clara e básica intenção de chocar através de quaisquer meios e sem grandes ideias por detrás de tais escolhas.

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Poder-se-ia mesmo dizer que esse é o maior triunfo de Boi Neon que, na sua narrativa retrata os bastidores das Vaquejadas, um híbrido carioca entre a tourada e o rodeo americano que é bastante popular nas zonas mais interiores do Brasil. Seguimos um grupo específico deste mundo, alguns vaqueiros acompanhados de uma bailarina que anima os espetáculos e sua filha, uma jovem chamada Cacá que sonha com ter um cavalo e tem uma especial amizade com o protagonista do filme. Em momentos de chocante visceralidade e carnalidade, como os já mencionados, ou na sua constante atmosfera de primordial sensualidade e violência, há uma refrescante desdramatização que eleva Boi Neon a um patamar de cinema que raramente se vê em tais retratos de comunidades e existências tidas como distantes, primitivas, curiosas ou exóticas.

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Tal triunfo não se estende só a essas chamativas e até infames sequências e suas semelhantes. Veja-se, por exemplo, a personagem principal. Iremar é um homem que vive sobretudo através de um trabalho que requer força bruta, quase animalesca. No entanto, por detrás do que poderia ser tido como uma imagem de estereotípica e musculosa masculinidade, este homem passa o seu tempo em quietude e relativa solidão, sonhando com a criação de vestidos de mulher. O seu corpo é, por exemplo, a perfeita personificação de tais contrastes. A sua camisa rosa está quase sempre desabotoada deixando vislumbrar seus pelos no peito, sua musculatura, sua força, enquanto a cor lhe confere uma qualidade a que, classicamente, poderíamos denominar como feminina, para nada dizer do aroma adocicado que facilmente poderemos presumir que o seu corpo tem, tendo em conta as abundantes doses de água-de-colónia que ele despeja sobre si mesmo, por cima do certo odor de suor e estrume bovino.

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Não são só os humanos a adquirirem tais contrastes, contradições e complexidades corporais. Do lado animal, temos os bois titulares, bestas de potente fisicalidade que, no entanto, sob a alçada da noite e cobertos de um pó especial, se convertem em visões que mais parecem um bailado de cor e luz, ou uma pintura psicadélica que ganhou gracioso movimento. Do lado mais inanimado, o manequim que Ireman constrói a partir das carcaças de alguns corpos de plástico trucidados pelos bois, é um perfeito exemplo destas questões, sendo um verdadeiro monstro de Frankenstein moldado em plástico barato e que, apesar da sua rude criação, consegue ser de alguma estranha beleza, mesmo, ou especialmente, quando enverga a mais recente criação deste aspirante a costureiro.

Estas e outras imagens, como a de Galega, a bailarina, a dançar com uma cabeça de cavalo a ocultar-lhe o rosto humano, podem sugerir uma obra que se desdobra em complicadas e académicas análises do corpo e suas identidades. No entanto, tal não ocorre, pois a casualidade naturalista, com que essa já mencionada cena de sexo é mostrada, se estende a todo o filme, incluindo tais detalhes conceptuais. Estes são seres humanos e não ideias em conflito, são pessoas que vivem a sua rotina em constantes rituais domésticos, profissionais e pessoais, ativamente distantes de quaisquer impulsos de redução estereotípica.

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Essa fuga ao estereótipo chega a todos os aspetos do filme, como a sua formalidade que adota um mantra naturalístico sem cair em displicências estéticas, apresentando visões rudes e primordiais, belas e grosseiras em simultâneo. Suas composições exacerbam os corpos e sua relação com o espaço que os rodeia, assim como a infeciosa e colorida vida que se apresenta em toda a parte, mesmo nas mais despidas paisagens. Mesmo em contextos mais carnais isto se verifica. Boi Neon é uma obra que arde com inescapáveis chamas de desejo, mas que raramente segue as rotas convencionais no que diz respeito à representação, manifestação e consequências de tais aspetos do comportamento humano. Mesmo nas mais altas estepes do cinema de interesse artístico e humanista isto é infelizmente raro, o que apenas mais ateia as chamas de valor que despontam da genialidade de Boi Néon.

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Boi Neon acaba por ser, ao mesmo tempo, um estudo do corpo físico e sua capacidade de conter desejos carnais e impulsos de animalesca violência, assim como do espaço social e económico ocupado pelas suas personagens que, de certo modo, encontram-se tão encurralados e limitados como os animais que estão constantemente a aprisionar, direcionar e exibir. Afinal, grande parte do impulso criativo que resultou neste filme deveio, segundo o próprio realizador, da sua surpresa ao ver o estado em que estavam as Vaquejadas, outrora um simples divertimento tradicional e agora industrializado e invariavelmente moderno, como que refletindo os desenvolvimentos económicos, sociais e culturais no Brasil contemporâneo. Não que Boi Neon alguma vez se torne numa simples exploração simbólica dessa situação, pois, no final, é demasiado humano e complexo para se reduzir somente a isso, tal como é demasiado espantoso para ser somente reduzido a um par de choques.

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O MELHOR: A Completa recusa de quaisquer facilitismos dramáticos ou estereótipos, quer seja a nível formal, textual ou mesmo humano.

O PIOR: A grande falta de estruturação narrativa irá irritar muitas audiências mas não é, necessariamente, uma fragilidade.


 

Título Original: Boi neon
Realizador:  Gabriel Mascaro
Elenco: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Josinaldo Alves
Drama | 2015 | 101 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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