IndieLisboa | Bait

16º IndieLisboa | Bait, em análise

Com o aspeto e a sonoridade de um filme antiquíssimo, “Bait” é uma peculiar proposta de realismo social britânico focado no problema da gentrificação. Esta obra de Mark Jenkin é um dos melhores filmes em competição no IndieLisboa.

Numa vila piscatória da Cornualha, um casal de burgueses londrinos tem vindo a comprar todas as casas junto à costa. Antigas moradias de pescadores são desmanteladas e refeitas, seus interiores decorados com detalhes náuticos que sugerem uma celebração das práticas piscatórias da comunidade, mas, na verdade, não passam de artifício forçado para dar ao sítio um charme rústico. Correntes e redes cobrem as paredes destes apartamentos para turistas enquanto, lá fora, os pescadores tentam ganhar o sustento e manter a sua dignidade.

Qualquer esperança de uma harmonia idílica entre os empreendedores cosmopolitas e a comunidade local há muito morreu, sendo que Tim e Sandra, o casal que é praticamente dono da rua principal da povoação, se comportam como se fossem donos e senhores daqueles que os rodeiam. A sua influência certamente mudou as dinâmicas da comunidade, virando-a para indústria turística em detrimento de outras fontes de sustento. Tal é a dependência pelos jovens abastados que vêm passar o verão junto ao mar que o pub local já nem sequer abre as portas durante o inverno.

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Uma comunidade tornada atração turística.

Martin era um dos donos das casas remodeladas. A falta de dinheiro forçou-o a vender a casa da família que agora pertence ao pequeno monopólio de Tim e Sandra. Mesmo assim, ele ainda faz a vida a pescar, mesmo que os lucros sejam muito escassos e o trabalho sôfrego. O irmão de Martin, Steven, já não pesca, sendo que agora usa o barco que outrora pertencia ao pai para transportar turistas, incluindo grupos de jovens embriagados vestidos como genitais gigantes. Só Neil, o sobrinho do pescador, ainda oferece alguma ajuda a Martin.

É esta a situação com que o espectador se depara em “Bait”, o retrato de uma comunidade que é como um barril de pólvora. A tensão é sufocante e sentimos que qualquer pequeno incidente poderá despoletar uma explosão. O realizador Mark Jenkin salienta isso mesmo ao apelar a uma linguagem de thriller, sempre focado nas reações silenciosamente hostis das suas personagens. Este é um filme cheio de grandes planos de olhares tensos e punhos cerrados. Enquanto espectadores, sentimos que estamos sempre no precipício da violência.

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Veja-se como Jenkin retrata o dilema em volta da falta de lugares de estacionamento. Tim e Sandra têm um parque para os carros dos turistas, que está interdito aos locais, incluindo os pescadores que trabalham nas docas. Um dia, Martin estaciona o carro na rua da sua antiga casa e quando dá por si, a viatura foi bloqueada. Graças à influência dos burgueses, a zona turística está também interdita a carros, uma situação degradante para os pescadores que, devido aos seus problemas monetários, não têm possibilidade de pagar as multas.

Este incidente prolonga-se até à noite, quando tudo descalabra, acabando por haver intervenção policial. O instante em que a tensão socioeconómica entre as duas fações se precipita num gesto genuinamente violento, Jenkin como que fratura a realidade do filme. Por momentos, “Bait” torna-se num objeto abstrato e caótico, cheio de planos fora de ordem cronológica e câmara lenta. No mesmo instante em que testemunhamos uma agressão, vemos as consequências finais que ela vai ter. O realizador usa essa técnica noutras partes da obra, contribuindo para a atmosfera opressiva que está entre o expressionismo e os thrillers de série B de antigamente.

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A fotografia é miraculosa, cheia de grão e ruído, arranhões e a expressividade do cinema de outros tempos.

Tais referências não são despropositadas, visto que “Bait” é um claro exercício em reconstruir estéticas cinematográficas de outros tempos. Jenkin, que também foi diretor de fotografia da obra, continua aqui as pesquisas audiovisuais meio arqueológicas que têm caracterizado a sua carreira, filmando em 16mm, a preto-e-branco e com uma câmara Bolex ainda com manivela. A película foi subsequentemente processada para estar cheia de ruído visual, arranhões e problemas de exposição, enquanto o som é abafado e distante, dessincronizado, como numa fita de baixo orçamento dos anos 60.

Estas escolhas não só contribuem para uma extraordinária experiência de cinema formalista, como sublinham as tensões entre modernidade e tradicionalismo que estão no âmago de “Bait”. É estranhíssimo ver alguém a trabalhar num MacBook através de uma linguagem cinematográfica tão arcaica, algo está errado e é desconfortável. Também a ordem social nesta comunidade foi violada e as personagens vivem num constante estado de desconforto.

Assim é a realidade de um processo de gentrificação que afeta todo o mundo, mas que raramente é exposto de modo tão eletrizante no grande ecrã. Com a aparência de um drama de realismo social de Ken Loach filmado por um génio louco como Guy Maddin, “Bait” é uma experiência singular e Mark Jenkin afirma-se assim como um dos cineastas mais promissores da contemporaneidade britânica. Mal podemos esperar para ver o seu próximo projeto.

Bait, em análise
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Movie title: Bait

Date published: 9 de May de 2019

Director(s): Mark Jenkin

Actor(s): Edward Rowe, Simon Shepherd, Mary Woodvine, Giles King, Isaac Woodvine, Georgia Ellery, Chloe Endean, Stacey Guthrie, Trsitan Sturrock, Jowan Jacobs, Morgan Val Baker

Genre: Documentário, 2019, 113 min

  • Cláudio Alves - 87
87

CONCLUSÃO:

“Bait” é uma espécie de thriller onde o maior vilão é o processo de gentrificação que torna comunidades pobres em atrações turísticas e lhes rouba os meios para se sustentarem. Um trabalho formalista do mais alto gabarito, este filme de Mark Jenkin é um estonteante triunfo cheio de tensão, uma atmosfera opressiva e até alguns rasgos de surpreendente humor.

O MELHOR: O trabalho formidável que resultou numa gramática audiovisual maravilhosamente arcaica, quase primitiva.

O PIOR: Há um certo conservadorismo inerente a esta narrativa que o realizador nunca explora a fundo. “Bait” é uma obra intrinsecamente política, mas há aqui uma grande insistência em evitar uma retórica claramente ideológica. Nesse sentido, o filme está muito distante das obras mais calcinantes do realismo social britânico.

CA

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  1. edilson 1 de Maio de 2020

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