I Do Nor Care if We Go Down in History as Barbarians critica IndieLisboa

16º IndieLisboa | I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians, em análise

Depois de ter sido já várias vezes premiado no IndieLisboa, o cineasta romeno Radu Jude volta ao festival com uma ambiciosa meditação sobre História, esquecimento e ódio, “I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians”.

Atualmente, quando movimentos de extrema direita parecem germinar por todo o “mundo ocidental”, começa a ser possível diagnosticar novas doenças sociais de esquecimento e ignorância. Uma das mais perniciosas maladias poderia ser descrita como comparação negacionista. Veja-se o exemplo espanhol, mesmo aqui ao lado de Portugal. Nos últimos anos, o Vox tem vindo a ganhar poder e influência e, depois das mais recentes legislativas, sua posição no Parlamento Espanhol está mais forte que nunca. Desde a queda da ditadura franquista que as mais altas esferas da política espanhola não eram habitadas por tantos fascistas assumidos.

Se perguntarmos a alguns espanhóis, o apoio, apatia e até despreocupação face a este ressurgimento do fascismo é justificado por uma miríade de desculpas débeis. Há quem diga que, apesar de fazerem a saudação franquista, cantarem seus hinos e defenderem seus ideais, os membros do Vox não são fascistas. Há quem não acredite que eles vão fazer aquilo que dizem, que são só promessas vazias de campanha. Há quem simplesmente queira esquecer o passado, apagar a História da memória nacional. Há ainda aqueles que dizem que o fascismo em Espanha é muito diferente do fascismo na Alemanha ou que, por muito mau que Franco tenha sido, Estaline foi pior. Mais vale ir pela direita extremada do que acabar com mais uma União Soviética sanguinária.

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É possível a Arte representar a História de forma adequada? Qual é a forma adequada?

Nesta lógica, persiste uma doentia desculpabilização do mal. Se Franco não foi tão mau como Hitler, a luta contra o ressurgimento das suas políticas é invalidada. Se Salazar não foi tão mau como Estaline, então a ditadura portuguesa foi leve e não há necessidade de ponderarmos seus horrores. O pior é quando a comparação com o “mal maior” não serve somente para desculpabilizar o “mal menor”, mas também para o redimir. Afinal, se o Primeiro-ministro romeno que governou durante a 2ª Guerra Mundial, Ion Antonescu, não foi tão impiedoso com os judeus como Hitler, então isso quer dizer que ele salvou aqueles que não chacinou. Antonescu salvou os judeus romenos, apesar de ter sido responsável pela morte de centenas de milhares.

Tal ideia pode parecer um tanto ou quanto tresloucada, mas seria ingénuo presumir que se trata de algo raro. Quer seja por esquecimento acidental ou deliberado, por manipulação da memória histórica para justificar preconceitos cáusticos, Antonescu é considerado um herói romeno. “I Do Not Care If We Go Down in History As Barbarians”, numa das suas cenas mais gritantes, atira-nos à cara esta mesma ideologia venenosa pela voz de vários romenos a discutirem na praça pública com uma encenadora decidida a subverter o status quo negacionista da sua pátria. Ela é Mariana Marin e é uma personagem interpretada pela atriz Ioana Iacob no mais recente filme de Radu Jude, um dos mais ousados nomes a ganhar reconhecimento internacional com o Novo Cinema Romeno.

Num gesto meio Brechtiano, Jude começa a sua mais recente magnum opus com Iacob a apresentar-se diretamente para a câmara, obliterando qualquer separação entre o espectador do material em cena. Apesar de aproveitar muitos dos mecanismos de naturalismo interpretativo que têm vindo a marcar o cinema romeno moderno, “I Do Not Care If We Go Down in History As Barbarians” está mais próximo do teatro épico e sua galvanização política do que de Porumboiu ou Muntean. Trata-se de um exercício de sensibilização política que desenvolve as suas teses com confronto e discussão acesa, que convida a audiência a ouvir longos diálogos e lhe massacra a paciência com interminável pontificação sobre temas complicados.

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O filme praticamente exige ao espectador um conhecimento básico sobre a História Romena, a filosofia de Arednt, Wittgenestein e quiçá Marx também. Existe algo de didático nestes procedimentos narrativos completamente subjugados à retórica ideológica, mas, como a protagonista diz, quando o populus insiste em negar o facto histórico, não só devemos evitar ser subtis, como não temos o direito à subtileza. Assim, ao longo de duas longas horas, o filme documenta os dilemas de tentar conceber uma recriação do massacre de 1941 em Odessa, dando tanta atenção ao heroísmo das tropas romenas na Frente de Leste como às suas ações monstruosas e antissemitas.

Mesmo quando é confrontada com proibições e censura burocrática, a encenadora não desiste. Contudo, no fim, mostrar ou não os massacres parece ser uma questão quase fútil. A audiência pode ser momentaneamente chocada e tirar dos bolsos os telefones para gravar a representação de um casebre a servir de fornalha para humanos, mas os preconceitos enraizados na psique coletiva da Roménia depressa assimilam e absorvem o horror. Eles aplaudem os assassinos e até “colaboram” em nome da proteção da nação da ameaça judaica.

Na verdade, a figura que realmente parece acabar em choque e com os olhos abertos para um novo paradigma é Mariana. Ao longo do filme, há uma constante tentativa de dialogar sobre a representação histórica, sobre o modo como nós tendemos a tornar a História numa narrativa e os perigos desse fenómeno, sobre a necessidade de editar o facto em nome da sua claridade, sobre o privilégio do esquecimento, mas também sobre o privilégio da absoluta retitude e superioridade moral que alguns, como Mariana, assumem possuir. No entanto, nada disso importa quando chegamos ao fim e os limites da arte feita sobre a História se mostram nus e feios, hediondos e disformes. Será tudo fútil?

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Ion Antonescu, cujas palavras dão título a este filme, não é um herói.

Radu Jude tem vindo a debruçar-se sobre os horrores da História Romena que muitos dos seus compatriotas preferem ignorar. Os seus filmes representam diferentes abordagens que vão desde a biografia lírica de um poeta enfermo até ao documentário feito com base em imagens de arquivo. “I Do Not Care If We Go Down In History as Barbarians” não só representa a continuação de tal pesquisa, como é uma avaliação crítica de Radu Jude sobre os seus próprios trabalhos. É certo que a conclusão a que o cineasta chega é desesperante, mas, enquanto estas questões viverem, não podemos dizer que a soma final de todo este esforço seja um fracasso. Se o cinema gritar contra o esquecimento, contra a comparação que nega o facto, contra um novo ciclo histórico de apologia fascista generalizada, talvez alguém oiça. Se alguém ouvir o grito, se alguém deixar de chamar a Antonescu um herói ou se digne a questionar aquilo em que acredita passivamente, mesmo que seja só uma pessoa, então não foi um esforço fútil, um esforço em vão.

“I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians” vai ser exibido, no âmbito do IndieLisboa, dia 9 de maio, às 16:00 e dia 12 às 21:30 no Cinema São Jorge

I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarins, em análise
i do not care if we go down in history as barbarians critica indielisboa

Movie title: Îmi este indiferent daca în istorie vom intra ca barbari

Date published: 2019-04-30

Director(s): Radu Jude

Actor(s): Ioana Iacob, Alexandru Dabija, Alex Bogdan, Ion Rizea, Claudia Ieremia

Genre: Drama, Comédia, 2018, 140 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

“I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians” é uma complicada mistura de elementos de metacinema e teatro épico, pronto a confundir espetadores e a galvanizar tantos mais. Trata-se de uma das mais complexas ponderações sobre a História Romena e o modo como a Arte é limitada na sua abordagem de temas históricos. Radu Jude continua assim a ser um dos mais fascinantes autores do Novo Cinema Romeno.

O MELHOR: As longas discussões entre a encenadora e um historiador da câmara, decidido a censurar o espetáculo.

O PIOR: A ambição do filme é enorme e a duração do mesmo segue esse exemplo. O resultado de tais elementos é um exercício que está destinado a frustrar muitos espetadores e a deixar outros nos píncaros do tédio. Não partilhamos tal experiência negativa face ao filme, mas é fácil ver como audiências menos generosas ou com expetativas mais mainstream irão ver aqui um monstro de sete cabeças.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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