Panda Bear na Culturgest

Panda Bear na Culturgest: a intimidade no distanciamento

Com a tour de promoção do novo álbum “Buoys”, Panda Bear regressou a Lisboa para nos levar numa viagem audiovisual potente e única

São quinze para as nove da noite e a Culturgest ferve em ansiedade. Na fila de espera para levantar o bilhete, vejo que uma fila de entrada se compõe com cada vez mais gente. Nada de surpreendente. Afinal de contas, esperamos ver em palco a atuar uma das maiores figuras da música independente moderna responsável por diversas mudanças de paradigma no género. Entro no auditório principal e ocupo o meu lugar. Apesar de toda a dimensão e imposição da sala, aquilo que domina a nossa chegada é uma pequena mesa no meio do palco. Sobre ela estão um sintetizador e módulos, os únicos instrumentos necessários. Ladeando-os estão duas telas verticais e brancas, mas atrás e furando o negro do palco impõem-se uma grande tela branca retangular.

                “I don’t dig the pedestal aspect of performance”

É peculiar quando penso que ali irá atuar dentro de alguns minutos Panda Bear, um dos mais conceituados artistas do nosso tempo. Poderia ser uma figura imponente devido ao seu estatuto e repertório criativo, mas, após alguma reflexão, noto que também entrará em palco um homem como todos os outros. Um homem que pousou vestido com uma camisola do Sport Lisboa e Benfica enquanto lê uma cópia de “Awareness” de Anthony de Mello para o cartaz deste concerto. Um homem de nome Noah Lennox.

Panda Bear
Panda Bear na Culturgest (© Vera Marmelo)

Já passa um pouco das nove e interrompo o meu raciocínio. A sala acaba de ser preenchida, as luzes baixam-se e o preto domina o espaço. Brota fumo do palco, fumo esse que nos invade também. É no meio deste ambiente que, de calças de ganga, t-shirt vermelha e meio curvado, surge Lennox. Ele coloca os headphones, ajusta o microfone e timidamente cumprimenta a plateia. Hey, everyone. Thank you for coming. Mal temos tempo para aplausos e assobios dado que entra em cena “I Know I Don’t Know”.

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A guitarra acústica e altamente rítmica da música ressoa, marcando a passada. Inicia-se a viagem em que Noah Lennox nos propõe a atravessar. Bastam poucos segundos para perceber pela quarta peça de “Buoys” que o álbum promovido com o concerto ganha uma tridimensionalidade e espacialidade ao vivo que em estúdio é difícil de encontrar. Cada som é brutalmente palpável, como se pudéssemos identificar todas as camadas individuais que compõem cada música. Contudo, o artista não faz o trabalho por nós e leva-nos a ouvi-lo de um modo muito ativo. É uma viagem certamente, mas uma que é participativa.

A camada vocal que Lennox incorpora em músicas como “I Know I Don’t Know” ou “Token”, que também apresentou nessa noite, disturba a ordem caótica que o instrumental parece construir. Levando-nos a procurar alguma réstia dessa harmonia. No entanto, todo este jogo que nos coloca na ponta da cadeira e simultaneamente nos transporta numa experiência audiovisual (experiência muito reforçada por imagens quase psicadélicas) constrói um conflito e uma tensão que resultam naquilo que considero o ponto forte do concerto: a intimidade no distanciamento.

Panda Bear
Panda Bear na Culturgest (© Vera Marmelo)

“I like when there’s some kind of confusion to it (the music) or it feels a bit vague. I know it kind of asks something of the listener a lot of the time which can make it sort of tough. I know it’s easier if everything is binary and it’s all black and white, but I think the truth is that it’s not. And I feel good if my work kind of reflects that.”

“Nod to the Folks” e “Part of the Math”, ambos de “A Day with the Homies”, EP lançado em Janeiro de 2018, foram uma manifestação deste sentimento que Lennox exprimiu numa entrevista à Sidney Opera House. A primeira encheu o auditório da Culturgest com a sua agressividade audiovisual. Além do sample de percussão que domina a música e as sirenes semelhantes a um alarme nuclear, fomos bombardeados de luzes estroboscópicas (aspeto que mereceu uma advertência por parte da Culturgest) e de imagens psicadélicas. No entanto, não pude deixar de reparar que grande parte da audiência abanava a cabeça ao ritmo pulsante não só de “Nod to the Folks” como também de “Part of the Math”. A sua agressividade leva-nos a camadas melodiosas que satisfazem o ouvido ocidental devido à sua formalidade indie pop. Não é surpreendente que no turbilhão audiovisual estas músicas tenham criado em todos uma vontade de nos juntar a Lennox no palco e dançar ao som dos sintetizadores e voz hipnótica e etérea.

Desta forma o músico convida-nos a, novamente, participar na viagem dele, mas, ao mesmo tempo, afasta aqueles que não apreciam o estilo de música ou simplesmente não querem ser submetidos a muitas das particularidades de Panda Bear. Não os censuro, muito menos o próprio Noah Lennox que apenas quer que as audiências aproveitem e disfrutem do que gostam genuinamente. Se isso inclui as suas obras, ele humildemente agradece. Mas aqueles que se deixam levar por ele e pelas suas experiências audiovisuais espera-lhes uma recompensa: a beleza e harmonia caótica dos sons de Lennox.

Panda Bear
Panda Bear na Culturgest (© Vera Marmelo)

Mais à frente na noite, tivemos o prazer de ouvir algumas peças de “Buoys”. “Token” e “Buoys” mostraram aquilo de melhor que este último álbum tem para oferecer, contendo camadas mais melódicas e uma sensibilidade pop que acentuam uma nova era para Panda Bear. O músico regressa a uma acústica que estivera presente no início da sua carreira e, como ele próprio afirmou, a elementos musicais e ideias mais universais. “Dolphin” e as suas gotas de água pesadas ganham uma tridimensionalidade e textura em sala que em álbum têm alguma dificuldade em se sobressair.

Reforçando este novo caminho do artista, “Playing the Long Game” também nos foi apresentada, uma nova música introduzida nesta tour e que ainda aguarda uma muito merecida edição em single. De todo o repertório da noite acabou por ser a peça “mais fácil” ao ouvido. A sonoridade indie pop veio, de facto, para ficar (pelo menos por agora).

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“I don’t feel like my way is to be really explicitly kind of preachy about it. I’d rather fool you into feeling something or seduce you, kind of”

No entanto, mesmo quando mergulhámos nesta formalidade mais ocidental, Lennox nunca quebrou e até reforçou o seu já descrito distanciamento íntimo através de outro meio: o visual. As imagens mantiveram a sua peculiaridade. Do início ao fim acompanharam a atuação figuras humanas em CGI, padrões psicadélicos e distorcidos, pacotes de produtos de lavagem incompletos e ondulantes, transformações e transições cromáticas, bailarinas de pele azul e carecas, entre outras tantas. Lennox pega em figuras e objetos que nos são íntimos e distorce-os ao ponto em que são minimamente reconhecíveis. Deste modo, ele distancia-nos pela entranheza das imagens, mas basta um pequeno reconhecimento das mesmas para os nossos cérebros começarem a trabalhar e a tentar clarificá-las e fazer sentido delas.

Panda Bear
Panda Bear na Culturgest (© Vera Marmelo)

A noite termina com uma breve mas potente passagem por “Tomboy”, álbum lançado em 2011, com “Last Night at the Jetty”. O trio que protagoniza o álbum ressoou pela sala com um padrão simples e rítmico marcando a passagem acompanhado de uma camada acústica, ambos encabeçados por um conjunto de voz reverberante. No final, muitos aplaudem e assobiam entusiasticamente. A viagem chega ao fim e, retirando os auscultadores, sem cerimónia, sem encore e ligeiramente curvado, Noah Lennox agradece a nossa presença e abandona o palco.

Apesar da interação quase nula com a audiência, Lennox conseguiu agarrar e cativar somente com a sua apresentação audiovisual. A tridimensionalidade e textura já referidas que o álbum “Buoys” adquire ao vivo contribuem para que seja a forma mais poderosa de ouvi-lo. Contudo, a vinda de Panda Bear à Culturgest acaba por marcar mais pela intimidade do seu distanciamento. As imagens psicadélicas mas baseadas em figuras reconhecíveis, as camadas caóticas mas interpoladas por outras melodiosas e até a postura distante mas casual do artista contribuíram para algo que foi além de um mero concerto. Uma viagem audiovisual intensa em que Noah Lennox nos estende a mão e convida a explorar as paisagens que ele criou para nós.

Os nossos agradecimentos a Vera Marmelo e à Culturgest pela reportagem fotográfica do evento, da qual damos aqui a conhecer uma amostra.

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  • Francisco V. Antunes - 80
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