Jessica Forever

16º IndieLisboa | Jessica Forever, em análise

Jessica Forever”, um filme de ficção-científica que tanto deve à estética de jogos de computador como ao cinema de Claire Denis, é uma das propostas estilísticas mais interessantes da secção competitiva do IndieLisboa.

Ao contrário de muitas gerações passadas, será raro o jovem cineasta ou espectador que, hoje em dia, não saiba instintivamente o que é a estética de um videojogo. Talvez não saiba verbalizar ou identificar as especificidades, mas sabe instintivamente o que é que a ideia significa e transmite. Mesmo quem esteja desinteressado nesse universo de brincadeiras virtuais jogadas em frente a um ecrã deverá entender o conceito. Quem sabe se, porventura, dentro de umas décadas não poderemos ver a influência desta linguagem visual a infiltrar-se nos paradigmas e standards estilísticos do cinema. É possível que, como a televisão veio a moldar a gramática cinematográfica, também o videojogo vá deixar a sua marca.

Em cinema de ação de Hollywood, é bem possível começar a perscrutar tais influências e nem é preciso ir ao encontro de obras que abertamente referenciam videojogos. No entanto, é no circuito do cinema independente e de festival que se denotam as propostas mais interessantes onde estilos inspirados pelo mundo dos jogos se casa com a técnica cinematográfica. “Jessica Forever” de Caroline Poggi e Jonathan Vinel é um exemplo perfeito desta dinâmica, parecendo a união meio tresloucada entre os ritmos e preocupações do slow cinema europeu com a imaturidade sanguinária e plasticidade estilística de uma aventura virtual.

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Cinema derivado do mundo dos videojogos.

Nesta obra, o mundo tem a aparência de um cenário digital, construído para simular uma realidade familiar ao espectador, mas necessariamente desprovido de especificidade. Os momentos iniciais veem um jovem inserido num subúrbio despovoado e de desenho anónimo e frio. A fotografia é nitidamente digital, cheia de detalhe, despida das imperfeições charmosas do celuloide e abençoado com a aparência de uma superfície demasiado polida, vítrea e meio imaterial. Por este ambiente anónimo, plástico, o rapaz explode num gesto de repentina violência, como se um jogador distante tivesse premido um botão para despoletar a ação do seu avatar digital.

Segundo a narração esporádica em voz-off, esta é uma realidade onde os órfãos são uma praga que infeta o mundo com violência inusitada e vandalismo. Para controlar a ameaça, as autoridades, que nunca são vistas, usam drones armados que voam pelos céus como enxames de gafanhotos prontos a devorar as vidas de qualquer jovem sem pais. No meio do flagelo, uma misteriosa mulher chamada Jessica lidera um grupo de órfãos militarizados, fazendo da sua missão salvar aqueles que as forças superiores condenaram à morte. Ela é Peter Pan e eles são os rapazes perdidos, ela é um ícone materno a cuidar de meninos indefesos, ela é o moderador que se põe entre a inocência e volatilidade das crianças e o poder incompreensivo dos adultos.

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De facto, apesar de parecerem guerreiros saídos de um videojogo bélico, os órfãos adultos vestidos com coletes à prova de bala e armas em mão agem como miúdos pequenos e sua história é regida pela inação. Os acessos de violência tendem a manifestar-se como birras sem motivação aparente ou como reações imaturas face a situações stressantes. A sua relação com Jessica transpira a dependência de uma criança por uma força protetora. O modo como ela é uma figura benevolente, é tão carinhosa como é incompreensível, reflete o mistério glorificado que qualquer figura parental representa para aqueles que ainda estão longe de serem crescidos.

A ligação aos videojogos e a vulnerabilidade emocional destes homens também remetem para a psicologia infantil. Não que, verdade seja dita, as figuras humanas de “Jessica Forever” sejam construídas com interioridade, com psiques particularmente discerníveis ou mesmo existentes. Poggi e Vinel rejeitam a ideia de personagem, preferindo tornar os órfãos e as pessoas que os rodeiam em arquétipos que declamam o diálogo num registo que, simultaneamente, sugere a qualidade inexpressiva de um robot e a claridade emocional de miúdos que ainda não aprenderam a modular as reações. No caso de Jessica, esta qualidade é levada ao seu extremo, sendo ela uma explosão de proteção maternal tão unidimensional que se torna desumana.

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Quais são as origens da violência?

Aquele que é talvez o maior problema de “Jessica Forever” nasce na fricção entre esta abordagem e as intenções temáticas dos cineastas. Tal como já disseram em entrevistas e como se vê na narrativa, Poggi e Vinel estão a tentar explorar questões de violência e masculinidade, alguns dos temas mais cansativamente inescapáveis da História do Cinema. Enfim, as ideias que os realizadores de “Jessica Forever” se propõem a explorar e as conclusões a que chegam não são, de todo, inéditas, interessantes ou desafiadoras. No entanto, o método que usam para chegar às ditas conclusões é estranhíssimo, dando ao filme a aparência de um artefacto criado por entidades alienígenas a tentar representar a vida humana com somente um punhado de videojogos e filmes de Claire Denis como referência.

As limitações estilísticas de “Jessica Forever” podem resultar numa experiência bizarra, mas acabam por fragilizar o seu discurso concetual. É difícil engolir as preocupações que os realizadores têm com a capacidade humana para a violência, quando os humanos presentes em cena são claramente marionetas de carne que não existem para além das margens da composição. Dizer que este é um filme desinteressante é impossível. É também difícil defender que a alquimia tonal que a parelha de realizadores aqui concebeu resulta em algo mais que um objeto estéril sobre o qual se podem desenvolver discussões infinitamente mais estimulantes que o objeto em si. Aplaudimos a audácia de Poggi e Vienel, que já provaram que conseguem sustentar propostas semelhantes em formato de curta-metragem, mas não podemos classificar “Jessica Forever” como um sucesso.

Jessica Forever, em análise
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Movie title: Jessica Forever

Date published: 2019-05-06

Director(s): Caroline Poggi, Jonathan Vinel

Actor(s): Aomi Muyock, Sebastian Urzendowsky, Augustin Raguenet, Lukas Ionesco, Paul Hamy, Eddy Suiveng, Maya Coline, Angelina Woreth, Théo Costa-Marini, Franck Falise, Florian Kiniffo, Jordan Klioua, Ymanol Perset, Jean-Marie Pittilloni, Iliana Zabeth

Genre: Drama, Fantasia, Ficção-científica, 2018, 97 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

Experimentando a comunhão entre estilos plásticos derivados de videojogos e reflexões sobre a violência, “Jessica Forever” é uma proposta audaciosa que merece admiração. Contudo, uma série de fragilidades e incoerências dramatúrgicas acabam por limitar muito o projeto.

O MELHOR: Algumas das imagens individuais são genuinamente impactantes e poderosas. Veja-se, por exemplo, o enxame de drones na alvorada ou o destaque quase totémico de um candeeiro de cristal no meio de uma vivenda suburbana.

O PIOR: A qualidade desumana das anticaracterizações e o modo como esta colide com as preocupações temáticas do filme. Talvez no formato de uma curta-metragem a proposta funcionasse, mas, na sua presente forma, “Jessica Forever” é um exercício de alienação e tédio escondidos atrás de uma estética interessante.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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