IndieLisboa | So Pretty

16º IndieLisboa | So Pretty, em análise

So Pretty” é uma curiosa experiência de cinema queer, que passou pela Berlinale, e, agora, está inserido na Competição Internacional de Longas-Metragens do IndieLisboa.

A representação cinematográfica de pessoas marginalizadas é um esforço necessário, mas intrinsecamente complicado. Muitos são aqueles que defendem uma procura judiciosa por autenticidade, uma mimese fiel à realidade do mundo atual e sua feiura. No entanto, temos também de ouvir as vozes que se manifestam contra um foco demasiado ostensivo no sofrimento de grupos marginalizados. Afinal, é injusto e preocupante ter a sociedade mainstream a desfrutar de uma série de diferentes variações dramáticas, incluindo a possibilidade de felicidade, enquanto aqueles que são oprimidos por essas mesmas estruturas estão condenados a uma eternidade de tristeza no grande ecrã.

Não será mais revolucionário, mais útil, mais artisticamente desafiante também, propor uma visão irreal do que poderia ser, mas não é? Por outras palavras, não haveria valor em procurar a utopia? Em certa medida, o que Jessie Jeffrey Dunn Rovinelli nos propõe em “So Pretty” é uma tentativa de aglutinar estas duas abordagens. Por um lado, há a procura pela discussão de temas politicamente relevantes à realidade contemporânea de pessoas queer, especialmente indivíduos transgénero. Por outro, a comunidade que a cineasta retrata raramente é marcada pelo flagelo de pressões exteriores, do preconceito e violência, que seriam expectáveis, vivendo num Éden de aceitação e afeto descomplicado. Quando isso acontece, o filme encara tais eventos quase como uma violação da própria realidade.

indielisboa critica so pretty
Questões de feminilidade e liberdade sexual são alguns dos muitos temas explorados pelo filme.

Essa condição proto idílica tem a sua aparente origem no livro que serviu de base para esta narrativa. “So Schön” de Ronald M. Schernikau é um romance alemão escrito na década de 80 que explora os relacionamentos de quatro homens homossexuais numa dinâmica poliamorosa. Trata-se de um retrato de uma minicomunidade alemã regida por ideais comunistas que, nesta adaptação, foi convertida em dois casais a viver em Nova-Iorque. O filme começa quando Tonia, uma artista alemã interpretada pela própria realizadora, chega à cidade e é recebida no aeroporto pelo seu namorado americano, Franz. Rapidamente, encontramo-los a conviver, em aparente harmonia, com Erika, uma mulher trans, e Paul, um jovem músico afro-americano.

Tonia foi a Nova Iorque com o propósito de trabalhar numa exposição baseada no romance que dá nome e estrutura ao filme. Aliás, Rovinelli muito experimenta com camadas de metatexto e autorreferencialidade, fazendo com que as suas personagens leiam o texto germânico e o próprio guião em voz alta. A certa altura, parece que as próprias figuras em cena se começam a aperceber de quanto as suas existências são regidas pelo texto germânico e suas permutações. Não que isso represente qualquer tipo de cisma no seu entendimento do mundo, pois, verdade seja dita, nenhuma das pessoas deste enredo parecem comportar-se como seres humanos.

Lê Também:
Os melhores filmes LGBTQ+ dos últimos 10 anos

Com isto não queremos apelar a qualquer tipo de odioso preconceito transfóbico. Estamos simplesmente a referir-nos ao tipo de escrita e performance que Rovinelli aqui desenvolve. Os atores de “So Pretty” são, na sua maioria, amadores, amigos da cineasta e artistas plásticos seus colegas. Tal falta de técnica leva a que o seu trabalho se divida ostensivamente em momentos naturalistas em que estão só a existir, como si mesmos, em frente à câmara e depois temos outras passagens de claro artifício e declamação inexpressiva. Em cenas individuais como um pequeno-almoço trespassado por leituras declamadas, esta alquimia interpretativa até se justifica. O problema vem com a acumulação de instâncias semelhantes e o modo como o espectador é assim incapaz de construir ligações emocionais com os atores e suas personagens.

Tonia, Franz, Erika e Paul são o centro humano de “So Pretty”, mas as suas presenças são totalmente desumanas. Nunca cremos que estas pessoas são pessoas e não construções artificiais, megafones de carne e osso para as discussões políticas e artísticas que motivam a realizadora. Talvez num contexto cuidadosamente construído para sustentar este tipo de artifício trapalhão, Rovinelli conseguisse conjurar algo semelhante a um diálogo socrático, dando aso a uma exploração académica sem a presunção de drama humano ou realismo comportamental. No entanto, este filme não se proporciona a tais mecanismos, sendo filmado com todo o realismo cru que automaticamente associamos à ideia cliché de um indie low-budget nova-iorquino.

indielisboa so pretty critica
Será este um exercício demasiado académico e ensaísta?

Note-se, por exemplo, a sonoplastia rudimentar que sugere quase a qualidade de um vídeo doméstico. Ou mesmo o uso quase exclusivo de luz natural a não ser no contexto de clubes noturnos e instalações psicadélicas. Estas escolhas podem ser o resultado inadvertido de limites orçamentais, mas tal não invalida o modo como elas se conjugam numa estática realista que nunca coere com as ambições mais esotéricas do guião ou com a abordagem dos atores. Até alguns mecanismos formalmente interessantes, nomeadamente o uso de gravação digital e com película no mesmo filme, padecem deste mesmo problema de incoerência e alienação.

A experiência final de “So Pretty” é distante e fria, um filme complicado que, mesmo assim, demanda alguma admiração pela sua audácia de temas, pela franqueza sexual com que examina corpos queer, pelos riscos que toma, pela utopia que tenta produzir e as ideias complicadas que tenta abordar. No entanto, a reação do espectador dificilmente irá transcender essa admiração distante. É fácil imaginar Rovinelli a refazer esta sua proposta num formato mais deliberadamente ensaísta, talvez ao estilo do Godard do século XXI, e daí extrair resultados superiores. Não obstante esse potencial, o filme que temos diante de nós é um exercício que frustra e desaponta em igual medida.

So Pretty, em análise
indielisboa critica so pretty

Movie title: So Pretty

Date published: 2019-05-07

Director(s): Jessie Jeffrey Dunn Rovinelli

Actor(s): Jessie Jeffrey Dunn Rovinelli, Thomas Love, Edem Dela-Seshie, Rachika Samarth, Phoebe DeGroot, Arlene Gregoire

Genre: Drama, 2019, 83 min

  • Cláudio Alves - 55
55

CONCLUSÃO:

Por entre corpos desnudos e discussões políticas, por entre declamações teatrais e momentos de silêncio performativo, “So Pretty” assume-se como uma proposta desafiadora e complicada. Trata-se de um filme queer atrevido e cheio de ideias que, infelizmente, acaba por cair num registo de ensaio que é totalmente incompatível com muitas das escolhas interpretativas e estéticas dos cineastas. No final, temos um projeto audacioso que exige respeito, mas que dificilmente conseguirá suscitar uma reação mais forte no espetador.

O MELHOR: A franqueza sexual com que “So Pretty” retrata os enlaces das suas figuras humanas e os corpos queer que tantas vezes são indevidamente objetificados ou tornados fonte de choque na cultura mainstream.

O PIOR: A alienação académica e sua incompatibilidade com o realismo improvisado e cru do restante edifício cinematográfico.

CA

Sending
User Rating 4 (2 votes)
Comments Rating 5 (1 review)

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sending