"La Última Primavera" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’21 | La última primavera, em análise

Depois de várias curtas, tanto documentais como narrativas, a realizadora Isabel Lamberti finalmente estreia-se nas longas-metragens com “La Última Primavera”. O filme está na competição internacional do IndieLisboa 2021.

Muitos cineastas, especialmente aqueles enveredados no mundo do filme documental, gostam de regressar aos mesmos sujeitos depois de anos longe das câmaras. Abbas Kiarostami concebeu a sua deslumbrante trilogia de Koker em torno dessa mesma vontade, enquanto o realizador Paul Amond dedicou décadas da vida a filmar o crescimento dos seus sujeitos. Numa esfera mais narrativa e mais recente também, Isak Lacuesta e Jonas Carpignano conceberam hibridizações entre o documentário e a ficção que retornam ciclicamente às mesmas figuras, em filmes como “Entre Duas Águas” “A Ciambra”.

Até se pode juntar o português Pedro Costa a esse grupo, com seus muitos filmes sobre as Fontaínhas e Ventura. Mantendo-nos nesse paradigma ibérico, chegamos a uma voz cinematográfica mais noviça. Isabel Lamberti, uma realizadora espanhola com origens holandesas, só agora assinou a sua primeira longa-metragem, mas já alguns anos explora a intersecção entre a narrativa e o gesto jornalístico. David Gabarre Jiménez é sua musa, neste caso. É a sua história que, em tempos, deu forma à curta “Volando Voy”, sobre rapazes que demoravam horas a chegar à escola devido à falta de transportes. Essa obra serviu de tese para a licenciatura da cineasta, marcando um momento importante na vida de quem estava à frente e atrás das câmaras.

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Agora, o tumulto de David volta a servir de inspiração em “La última Primavera”. Contudo, convém esclarecer que este segundo filme é mais do que o retrato do indivíduo, mais ambicioso. De facto, trata-se da pintura coletiva de toda uma família quando esta confronta um pesadelo sem precedentes. A narrativa real incide no tormento do clã Gabarre-Mendoza que é forçada a abandonar o lar que levou uma vida a ser construído. Em dias, eles têm de deixar a casa por um apartamento nos arredores de Madrid, pois o bairro de lata a que pertenciam vai ser tornado em lote para construção.

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Para filmar as angústias pessoais nesse período de despedida, Lamberti imergiu-se na comunidade de La Cañada Real. O resultado do esforço é um trabalho que está no ponto médio entre o documentário e o neorrealismo, entre o poema e o filme de protesto. Em certa medida, o olhar que ela concede ao espetador é o de mais um membro da família, exigindo a empatia através da forma estética, da perspetiva assumida pela câmara. Voltando à comparação com Costa, esta “La Última Primavera” recorda-nos as transformações que ocorreram de “Ossos” ao “No Quarto da Vanda”, quando o realizador português decidiu minimizar a intrusão do engenho fílmico na vida dos seus sujeitos.

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Há uma estonteante autenticidade nas imagens que Lamberti recolheu, algumas vibrando com a intimidade de um quarto fechado, outras iluminadas pela comunhão da refeição partilhada em família. Alguns dos melhores exemplos envolvem as crianças da família, ora quando brincam com seus pais ou quando se divertem em atos ilícitos longe dos olhos adultos. Há o ritual de fumar às escondidas e o jogo das cartas, mas também há o prazer singelo de sentir a luz quente do sol na cara. Entre a inocência e a maturidade apressada, esses pequenos são o futuro e serão os últimos a lembrar-se do que foi perdido quando a família disse adeus a La Cañada Real.

Eles e nós, claro está. Quem vir este filme torna-se noutro testemunho, mais uma pessoa que carregará consigo a imagem vibrante uma comunidade esquecida. É nesses momentos, quando nos lembramos do poder do cinema para perpetuar a longevidade, que o propósito de Lamberti e seu filme se tornam claros. “La última Primavera” é assim um modesto hino em prol da empatia, um registo de um momento de aflição que tenta dar tanta ou mais atenção ao júbilo que a dor. Até há esperança nesta fita, um raio tão quente e abrasador como o sol espanhol. Reconforta-nos e lembra-nos que temos que seguir em frente, que temos de considerar a vida dos menos afortunados. Recorda que todos nós merecemos atenção, mesmo quando as câmaras não nos estão a observar. Assim se faz cinema humanista.

La Última Primavera, em análise
la ultima primavera critica indielisboa

Movie title: La Última Primavera

Date published: 2 de September de 2021

Director(s): Isabel Lamberti, ,

Actor(s): David Gabarre Jiménez, David Gabarre Duro, María Duro Rego, Alejandro Gabarre Mendoza, Angelines Gabarre Mendoza, David Gabarre Mendoza, Isabel Gabarre Mendoza, Ángelo Gabarre Mendoza, Agustina Mendoza Gabarre

Genre: Drama, Documentário, 2020, 77 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

“La Última Primavera” é uma estupenda estreia da realizadora Isabel Lamberti no campo das longas-metragens. Continuando uma tradução de cinema cíclico e neorrealismo contemporâneo, este trabalho vinga pelo humanismo e pelas boas intenções.

O MELHOR: Apesar das difíceis condições de filmagem, “La Última Primavera” é surpreendentemente belo. Os não-atores jamais perdem vitalidade quando se interpretam a si mesmos. Além disso, a fotografia de Jeroen Kiers eleva o visual da obra, encontrando encanto nesta primavera outonal, onde cada instante de folia é cortado pelo fatalismo da perda iminente.

O PIOR: A brevidade da fita, que tem apenas 77 minutos, tanto evita o aborrecimento como rouba a oportunidade da reflexão. Queremos mais, um filme maior e mais capaz de dar voz individual a cada membro da família protagonista. Por muito boas que sejam as intenções de Lamberti, seus métodos podiam ser refinados. Falta um certo equilíbrio entre o alerta social e a poesia sobre a vida alheia.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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