"Arrebato" | © Nicolás Astiarraga P.C.

IndieLisboa ’22 | Arrebato, em análise

“Arrebato” de Iván Zulueta é um clássico de culto espanhol, originalmente estreado em 1979 e recentemente restaurado. Um favorito pessoal de Pedro Almodóvar, este pesadelo de terror abriu a secção Boca do Inferno do 19º IndieLisboa.

Há muitos filmes sobre vício. Também há inúmeros trabalhos que seguem pela via da autorreflexão, tornando-se cinema sobre cinema. Contudo, poucas são essas experiências do grande ecrã que combinam as duas. Ainda mais raro é o terror que realmente assusta e persegue o espetador desde a sala de projeção até à cama, da consciência para o inconsciente, transformando-se num pesadelo. “Arrebato” é assim um objeto muito especial, um filme quiçá único na sua honestidade e invenção. Por outras palavras, nada se compara à obra-prima de Iván Zulueto.

Tudo começa na banalidade do artista para o qual a paixão se tornou lavoro. José Sirgado é um cineasta frustrado que passa a vida a realizar filmes de terror sem orçamento ou primor. É um visionário de segunda categoria, despojado de visão e ressequido de entusiasmo. Quando o encontramos está a editar a mais recente obra, uma qualquer fita vampírica cuja única marca de originalidade é o olhar direto da atriz principal. Mesmo assim, o técnico de montagem insiste no seu corte, vendo na invulgar escolha um erro.

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© Nicolás Astiarraga P.C.

Esta vida de tédio depende do auxílio da heroína para continuar e quiçá a droga esteja na origem do mal que impregna o filme. “Arrebato” é título e é aquilo que se procura na imagem projetada. Talvez não aquilo que José procura, mas é sem dúvida o intento de Pedro, o primo de uma ex-namorada já esquecida. Nesta noite de pandemónio, seguimos José até casa, passando pelas ruas da Espanha depois de Franco, onde filmes antigos se promovem ora como máquinas de nostalgia ou novidades dissimuladas. No apartamento há outro filme à espera, mas esse é em super 8 rudimentar.

Trata-se de um presente de Pedro que chegou acompanhado de mensagem de voz em audiocassete e uma chave. Entre o beijo da heroína e o sexo com Ana, sua nova amante, José lá ouve a mensagem desse estranho homem com quem ele só falou duas vezes. A voz rouca, quase demoníaca, abre as portas para a memória e somos levados para o passado do par. Em tempos, o realizador visitou a família da namorada e lá, em paisagens rurais, deparou-se com uma assombração de carne e osso – Pedro, que também se interessa por cinema e parece infetar a realidade do presente.

Como um fantasma ou fragmento de película, ele invade a consciência de José e do filme. O encontro inicial dos dois é um teatro de aberrações, absurdo interpretado como se da mais corriqueira realidade se tratasse. Partilham-se drogas e imagens projetadas, se bem que ambas são o mesmo em “Arrebato.” Partilham-se objetos também, feias peças de um puzzle misterioso que parecem conter em si vida. Mesmo quando estão imóveis, há algo de sinistro na presença deles, como uma boneca suturada que prende o olho e faz recordar a infância coletiva.

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Todo o objeto é como o celuloide, capaz de capturar algo da vida humana ao dar-lhe forma material. Assim descobrimos à medida que José conhece Pedro, entendendo a conexão quase orgástica entre ele e o ato de fazer e ver cinema. O jovem é uma fonte de inspiração, mas também amedronta, provoca pena e uma atração homoerótica. A união ainda se solidifica mais quando o homem mais velho presenteia o amigo com um mecanismo que ajuda à feitura de “time lapses.” Assim Pedro se perde na filmagem e, depois de já ter capturado todo o seu cosmos campestre, decide partir à descoberta.

A partir desse ponto, já nunca os dois protagonistas se encontram em espaço físico partilhado. Sua relação é toda feita pela audiocassete e as muitas imagens que viajam naquela película enviada por correio. O que essa fita nos revela assusta apesar da simplicidade da história. Pedro, já meio enlouquecido, fala de como a câmara se parece ligar sozinha e descreve um crescente isolamento. Tanto ele se torna num eremita errante que a voz se desusa e se converte naquele rugido rouco e rasgado. A face empalidece, as olheiras enegrecem até que ele se assemelha ao Cesare de Caligari.

Em certa medida, Pedro e Cesare são irmãos na história do cinema, dois mortos-vivos que assombram o sonho e seus filmes. Só que Pedro não tem um mestre que o guia, só a câmara, só o cinema. A certa altura uma mancha vermelha aparece nas filmagens do seu sono, desencadeando um mistério que lhe suga a vontade de viver. Será aquele clarão rubro como a alma humana de Bergman ou o terror mortífero de Roeg? Será produto da mente insana ou um fenómeno real dentro do paradigma de “Arrebato?” A mancha, como o cinema, come e intoxica. Além disso, também vive por conta própria.

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© Nicolás Astiarraga P.C.

O filme de Zulueta perturba pela dinâmica que cria com o ato de ver e ser visto. A ligação de Pedro e José ao cinema torna-se na sua perdição, à medida que ambos são devorados por aquilo que tanto amam. Esta obra-prima espanhola assim contém o maior monstro na história da sétima arte – a câmara. Ela é vampira insaciável, seu olhar capaz de criar fantasmas e sugar o real para o virtual, transformando algo vivo em algo morto. Não pensem que isto é lirismo intelectual. Em “Arrebato” a câmara literalmente vive enquanto besta autónoma, como que ativada pela nossa crença nos seus poderes.

Tanto amamos o cinema que lhe demos poder sobre as nossas vidas. Nessa vertente, “Arrebato” inverte aquela célebre expressão que Jeanne Moreau cantou em “Querelle.” Ao invés de matarmos aquilo que amamos, deixamo-nos matar. Esta é a derradeira perdição do cinéfilo, seu suprassumo júbilo e maior medo. No entanto, caracterizar o pesadelo somente como história de horror é erróneo. Também é uma história de amor entre duas pessoas e sua visão do mundo, da arte. Há paixão entre José e Pedro – algo que transcende a carne. É o modo como o cineasta comercial se deixa seduzir pelo amador vanguardista, como a narrativa se distorce até tudo estar perdido na abstração. É cinema sobre cinema na sua exponente máxima, um amor para a eternidade.

Arrebato, em análise

Movie title: Arrebato

Date published: 28 de April de 2022

Director(s): Iván Zulueta

Actor(s): Eusebio Poncela, Will More, Cecilia Roth, Marta Fernández Muro, Helena Fernán-Gómez, Carmen Giralt, Max Madera, Javier Ulacia, Rosa Crespo, Luis Ciges, Alaska, Pedro Almodóvar, Antonio Gasset

Genre: Drama, Fantasia, Terror, 1979, 115 min

  • Cláudio Alves - 100
100

CONCLUSÃO:

“Arrebato” é um filme perfeito, um pesadelo e um sonho. Entre a história de amor e o conto de mortais que jogam com deuses, o trabalho de Iván Zulueta merece o culto que tem formado entre cinéfilos espanhóis. Mais do que isso, merece ser aclamado por todo o mundo, como um marco, como um milagre.

O MELHOR: O pavoroso olhar da câmara.

O PIOR: Nada a apontar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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