"Double Agent 73" | © Juri Productions

IndieLisboa ’22 | Double Agent 73, em análise

Depois de “Deadly Weapons,” “Double Agent 73” volta a reunir Doris Wishman e Chesty Morgan numa folia erótica cheia de homicídios sangrentos. O filme, originalmente estreado em 1974, passou na Cinemateca Portuguesa como parte da retrospetiva Doris Wishman do 19º IndieLisboa.

Em meados da década de 70, o cinema de Doris Wishman passou de um exemplo iconoclasta no mundo sexploitation para um registo mais reacionário. Ao invés de demarcar a diferença em desenfreados projetos sem regras ou razão, a cineasta começou a refletir as tendências da Hollywood mainstream. No entanto, suas criações eram mais pastiche que paródia, indicando a tentativa sincera de replicar o cinema popular. É claro que, à boa moda de Wishman, o mais genuíno impulso é retorcido pela demência à la Ed Wood que a tornou na rainha do sexploitation.

Para a sua segunda colaboração com a stripper polaca Chesty Morgan, a realizadora virou-se para os triunfos de James Bond no grande ecrã, seus gadgets mirabolantes e sex appeal mortífero. Tal como o seu colega britânico, Morgan aqui se afirma enquanto mestra da espionagem, assumindo o papel de Jane Tennay – agente secreta número 73, assim batizada em honra das medidas avantajadas. Afinal, não esqueçamos que a fama de Morgan brotou da figura, um busto gigantesco de 73 polegadas que sempre parece mais doloroso que sensual.

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© Juri Productions

Seguindo um tresloucado guião assinado por Wishman e Judy J. Kushner, Tennay é-nos apresentada como a única mulher capaz de levar a cabo a nova missão da agência governamental. O seu objetivo é assassinar uma série de gansgters envolvidos no tráfico de heroína. Um a um, ela terá de os seduzir, levando-as a momentos de vulnerabilidade em que estarão indefesos perante Tennay. Por alguma razão, a agência também quer que a espia recolha informação e, ao invés de a equiparem com câmaras discretas, implantam-lhe uma máquina fotográfica no seio esquerdo.

Não há palavras para descrever os níveis de absurdez em cena cada vez que Morgan se despe perante uma mesa cheia de documentos, aponta o peito e aperta mama para acionar o mecanismo invisível. Um flash e efeito sonoro rematam todos estes momentos, acentuando a loucura. Qualquer aspiração a peso dramático que o filme pudesse desejar é perdida no momento da primeira fotografia. Ao mesmo tempo, “Double Agent 73” ganha muito com esta insanidade, especialmente no que se refere ao contraste estabelecido entre um enredo sanguinário e sua execução apalhaçada.

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Também a estrutura episódica ajuda a fita a não perder o gás a meio, como acontece com muitos dos trabalhos mais narrativamente ambiciosos de Doris Wishman. Ainda para mais, as técnicas da chacina são variadas, seus prelúdios exibindo uma panóplia de estratégias cenográficas. Na vertente mais mortífera dessa dinâmica, admiramos como Chesty Morgan é encenada numa série de homicídios ridículos. Por exemplo, temos uma homenagem a “Psycho” com morte no chuveiro e montagem vertiginosa. Há também a ocasião em que o figurino se torna em arma de estrangulamento ou o momento em que os seios servem como meio para espancar o criminoso.

Em termos de imemorabilidade, o melhor assassino é, contudo, uma célebre sequência em que a agente dupla droga um capanga e o força a engolir cubos de gelo – de algum modo, isto leva à sua morte. Tais visões são auxiliadas pelo desenho espampanante de tudo o que a vista alcança, desde o papel de parede fatela a coleções de cerâmica ‘exótica.’ Trabalhando com os mesmos espaços usados em “Deadly Weapons,” incluindo o apartamento da realizadora, os cineastas tiveram de dar asas à imaginação e ao engenho. Isto levou a muitas imagens exemplares de Wishman no seu melhor.

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© Juri Productions

O foco nos pés e sapatos como forma de esconder momentos de transição espacial repete-se desde o seu uso e abuso em “Deadly Weapons.” Contudo, numa cena de discoteca, o espaço é levado à abstração através de luz estilizada e grandes extensões de folha metálica a ondular atrás dos atores. Apesar do aspeto amador, há muita criatividade à mostra neste projeto. Quiçá Wishman e a equipa da Juri Productions estivessem num píncaro imaginativo, inspirados e insuflados de ambição. Em cenas específicas, até parecem estar a fazer referência ao seu legado como quando temos um tableau saído diretamente dos “nudie cuties” dos anos 60. Ou seja, muito ocasionalmente, os resultados transcendem a cinefilia irónica e são mesmo apreciáveis enquanto “bom cinema”.

Essa qualidade é notável quando se consideram os conflitos entre a realizadora e sua estrela. Chesty Morgan não era fã da metodologia do sexploitation, exigindo um módico de respeito e veneração inexistentes nas rodagens típicas de Wishman. Contudo, a tensão informa a performance naïf da diva dos seios capazes de matar. No papel de Jane Tennay, Chesty Morgan é uma bizarra combinação de aborrecimento enfadado, olhos tristes e incontornável presença. Nos momentos finais da fita, quando a escolha entre o romance e o dever se levanta, a agente 73 acaba mesmo por nos surpreender. Em conjugação de atriz e papel, a espiã é bem capaz de ser a melhor personagem que Wishman criou ao longo da carreira. Não admira que ela tenha querido fazer sequela a “Double Agent 73.”

Double Agent 73, em análise
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Movie title: Double Agent 73

Date published: 8 de May de 2022

Director(s): Doris Wishman

Actor(s): Chesty Morgan, Frank Silvano, Saul Meth, Jill Harris, Louis Burdi, Peter Savage, Buck Starr, Joseph Chiaro, Denise Purcell, Donny Lee, Howard Blakey, Nat Perogine

Genre: Ação, 1974, 73 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Um dos melhores filmes feitos pela Juri Productions nos anos 70, “Double Agent 73” supera as expetativas e afirma-se como uma joia brilhante na filmografia da sua realizadora. Tão bons são os resultados que temos de chorar o facto de Wishman e Morgan jamais terem voltado a trabalhar juntas. O mundo merecia mais loucuras como esta!

O MELHOR: Chesty Morgan, os cenários baratos e a ambição de Doris Wishman atrás das câmaras.

O PIOR: O elenco secundário é muito mau e nenhum ator tem tanta presença quanto a protagonista.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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