"El Gran Movimiento" | © Altamar Films

IndieLisboa ’22 | El Gran Movimiento, em análise

Depois de ganhar o IndieLisboa com “Viejo Calavera” em 2017, Kiro Russo regressa ao festival com “El Gran Movimiento.” Após estrear em Veneza, o filme agora integra a Competição Internacional do 19º IndieLisboa, trazendo um novo Neorrealismo boliviano à capital portuguesa.

No caso de “El Gran Movimiento,” talvez seja melhor começar pelo fim do que pelo início. Perdoem-nos as revelações à la spoiler e a estrutura contraintuitiva, mas o novo filme de Kiro Russo demanda uma leitura que fogem à convenção. Tudo acaba com Elder, interpretado por Julio César Ticona, o mesmo mineiro que protagonizou “Viejo Calavera.” Outrora, foi levado da cidade aos confins da Bolívia rural, passando o filme passado numa tentativa fútil de ocupar o lugar deixado que o pai deixou, tanto enquanto patriarca como trabalhador das minas. No fim de “El Gran Movimiento,” encontramo-lo no precipício da morte.

Há uma tosse convulsa que consome os seus dias, fraquezas físicas que o impedem de ganhar a vida e o reduzem a um corpo acamado. Segundo amigos e colegas, os pulmões estão cheios de pó e pedra, as entranhas da mina nas entranhas do homem. Contudo, mesmo depois de sete dias a andar para um protesto proletariado, os doutores que veem não registam nenhuma maladia. Sem mais nada a fazer, transcende-se uma medicina cega pelo desequilíbrio de classes e apela-se àquilo que está além do real. Aos cuidados de um homem que existe acima da natureza e do vulgar, Elder é tratado.

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© Altamar Films

E assim sendo, nesse estado prostrado, a câmara aproxima-se do mineiro doente. Sem luzes acesas, a imagem é depressa devorada pelas sombras, mas no escuro surgem brilhos. São lâmpadas na mina, planos que podiam ter saído diretamente de “Viejo Calavera.” Numa literalização que só o cinema pode produzir, a mina vive dentro de Elder, seu corpo mais uma máquina no engenho industrial. Aí surge uma música, acompanhamento sinfónico para a montagem em crescente aceleração. Trata-se da banda-sonora que acompanha “O Homem da Câmara de Filmar” de Dziga Vertov.

Há aqui um inegável fio umbilical, unindo este drama da Bolívia a esse monumento do cinema soviético. Sua orquestração foi mudada, agora tocada por instrumentos tipicamente latinos, enquanto a imagem projetada se explode numa edição de cortes ainda mais violentos que os de Vertov. Num abrir e fechar de olhos, toda a cidade de La Paz se condensa em flashes imagéticos. Mais um bocado e é a totalidade de “El Gran Movimento” que assim se repete. Desde a chegada de Elder a La Paz, passando pelo trabalho no mercado, o conhecimento de uma madrinha que talvez não seja, e muito mais. Desfragmentado num mosaico feito tapeçaria, o filme desenrola-se à velocidade da luz, quiçá do pensamento.

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Todo o suplício da gente, do coletivo, da cidade, vivem no corpo de Elder. As mágoas de todo o operário vivem no corpo de cada operário. Pelo meio do frenesim, uma transição da mina para o mercado de La Paz resume o filme num movimento simples. Da maquinaria suada passamos para a imagem ominosa de carne picada, sua rubra cor em tentáculos espremidos através dos buracos no metal. Como essa matéria em tempos viva, também o trabalhador é fulminado pelo sistema atual. A exploração quebra-lhe corpo e alma, até estar ele perto do fim como Elder ou reformado em produto como a carne à venda.

O apelo à montagem soviética não é uma comparação que mostra parecenças. Pelo contrário, é um contraste que revela discrepâncias. Se Vertov trabalhou na veia propagandista e produziu um objeto para exaltar as esperanças, Russo não se dá a tais luxos. “El Gran Movimiento” é cruel e retrata a realidade que vivemos onde a esperança é um luxo que só os privilegiados podem desfrutar. O filme é um grito de fúria, mas também é um poema cantado. Daquelas músicas que se fazem soar pelo rito fúnebre em forma de homenagem e choro. Triste e devastador, este exercício em desespero serve para sensibilizar, mas também revitaliza, por muito estranho que pareça.

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© Altamar Films

Pela verdade se descobre o êxtase, a libertação suprema, o entendimento. Quando admitimos estar todos perdidos, podemos encontrar camaradagem. Podemos tentar encontrar o caminho para a frente. Não há misericórdia nem perdão no engenho deste cineasta, mas há vida e há cinema, há a esperança da calma depois da tempestade. A sua brutalidade é imensa sem ser destrutiva. Como Elder e seus companheiros viajam a La Paz em busca de trabalho, prontos a serem esmagados pelas injustiças da cidade, também o cinema de Kiro Russo viaja na direção da transcendência.

Em tempos, quando analisámos “Viejo Calavera,” descrevemos o cineasta enquanto um praticante de Neorrealismo moderno. Aí, propusemos um fio condutor entre “La Terra Treme” de Visconti e o trabalho desse novo artista da Bolívia. Na segunda longa-metragem, novas ligações se fazem. Há montagem pró-soviética, mas também um gosto pelas propriedades surrealistas da paisagem montanhosa, sua fauna e flora. Quiçá o cinema de Kiro Russo tenha vindo à cidade para repensar sua relação com o rural, mas só saberemos isso mais para a frente. Por outras palavras, mal podemos esperar para ver o que se segue a “El Gran Movimiento” na odisseia cinematográfica de Kiro Russo.

El Gran Movimiento, em análise
el gran movimiento critica indielisboa

Movie title: El Gran Movimiento

Date published: 7 de May de 2022

Director(s): Kiro Russo

Actor(s): Julio César Ticona, Max Bautista Uchasara, Israel Hurtado, Gustavo Milán Ticona, Francisa Arce de Aro, Ricardo Aguilera, Marcela Chambi, Marlene Pinto, Carmen Quisbert, Armando Ochoa

Genre: Drama, 2021, 85 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

Depois de “Viejo Calavera,” Kiro Russo explora as potencialidades surreais da tradição Neorrealista. “El Gran Movimiento” é uma belíssima experiência em lirismo desarmante seguido por um murro no estômago. É um dos melhores filmes do IndieLisboa, quiçá até um dos melhores filmes do ano.

O MELHOR: A fotografia inspirada de Pablo Paniagua, brilhante desde o primeiro zoom sobre a cidade até ao doente que desespera na sombra. A montagem de Russo, Paniagua e Felipe Gálvez, um milagre que começa com abstrações citadinas e termina num frenesim desenfreado. A sonoplastia que tudo acompanha com rigor imersivo, o elenco capaz de articular os mistérios do guião, o realizador que, de filme para filme, se vem a comprovar enquanto novo mestre do cinema.

O PIOR: Certamente haverá quem se canse com a natureza reticente do exercício e o foque míope na política expressa por meios formalistas. Para quem não estiver em sintonia com a visão de Kiro Russo, acreditamos que “El Gran Movimiento” possa ser um grande enfado.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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