"News from Home" | © ZDF

IndieLisboa ’22 | News from Home, em análise

Rodado em 1976, “News from Home” é um dos trabalhos mais importantes na filmografia da grande Chantal Akerman. Neste 19º IndieLisboa, o filme foi exibido como parte do Programa 5L.

A biografia cinematográfica de Chantal Akerman começou em 1965 quando, com apenas quinze anos, ela ficou extasiada pelo “Pierrot le fou” de Godard. Nessa mesma noite, a jovem belga terá decidido dedicar a vida ao cinema, uma promessa cumprida desde a adolescência até à sua morte por suicídio em 2015. Aos dezoito anos, depois da matrícula e subsequente abandono da escola de cinema, Akerman rodou “Saute ma ville,” uma curta-metragem sobre o sítio onde cresceu. Essa obra com aspirações experimentais levou-a ao festival de Oberhausen, mas os horizontes artísticos exigiam mais expansão.

Por isso mesmo, em 1971, Chantal Akerman abandonou a sua pátria e viajou rumo aos EUA, instalando-se em Nova Iorque. Durante ano e meio, ela viveu nos círculos vanguardistas da Grande Maçã, gastando o pouco dinheiro que tinha nos arquivos da Anthology Films na East Village. Assim ela se apaixonou pelas possibilidades testadas nos filmes de Brakhage, Warhol e outros que tais, imaginando uma sétima arte idealizada onde o filme se divorcia da narrativa de uma vez por todas. Também lá ela deu início a uma educação sobre a filosofia do cinema, apoiando-se nos escritos de Deleuze e Guattari para entender a arte que por ela chamava.

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Assim inspirada, Akerman realizou dois filmes em 1972 com a ajuda da diretora de fotografia Babette Mangolte. A curta “La chambre” e a longa “Hotel Monterey” representam pontos de maturação na linguagem cinematográfica da realizadora. Takes longos e ponderados, uma crescente atitude autobiográfica onde ficção e facto se dissolvem, e rigor estruturalista são aspetos evidentes nestes projetos e no resto da sua obra. Foi na feitura de um terceiro filme nova-iorquino que Chantal Akerman decidiu regressar à Bélgica. “Hanging Out Yonkers” nunca foi terminado na Europa. Em seu lugar, a autora dedicou-se às obras que lhe viriam a definir o legado.

O retorno às raízes geográficas coincidiu com um primeiro píncaro de aclamação crítica graças a duas longas produzidas em Bruxelas – “Je tu il elle” e “Jeanne Dielman.” No entanto, esse movimento de volta a casa não se manifestou num maior sentido de pertença, de lar. Mais do que nunca, Akerman delineou quanto a sua identidade enquanto mulher e indivíduo queer a colocavam nas margens da sociedade e do cinema. Indo além daquilo expresso na tela, também a vida pessoal se desenrolava enquanto jogo de exclusões e barreiras intransponíveis. Em particular, o elo com a mãe nunca havia recuperado desde a separação transcontinental no início da década.

Ao longo das décadas, Chantal Akerman viria a fazer muitos filmes em diálogo direto ou indireto com a mãe, incluindo o seu último trabalho “No Home Movie.” Essa fita documental, terminada somente após a morte da matriarca antecedeu o fim precoce da realizadora e existe enquanto ponto final na frase começada em 1976 com “News from Home.” Em certa medida, a estranha película também representa, só por si, o fim de outra frase ou, pelo menos, um momento de transição na história de Akerman. Conseguimos ver quanto os seus filmes passados levaram à extremada proposta do postal epistolar, seu trabalho mais pessoal até então.

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Quase tão minimalista como “La chambre” e ainda mais em sintonia com a paisagem nova-iorquina que “Hotel Monterey,” o documentário de 76 constrói-se com base nas cartas trocadas entre mãe e filha ao longo do tempo que viveram separadas. No ecrã, apenas passam imagens em 16mm da cidade americana que Akerman habitava. Ora trackings lânguidos ou estáticos tableaux do metro, são planos de nada e, ao mesmo tempo, de tudo. O caos metropolitano é condensado em episódios sem ação, observações que recusam o glamour e a demonização em igual medida. Há franqueza nestas escolhas, mas também uma qualidade evocativa e profundamente melancólica.

Os ruídos de carros e comboios subterrâneos consomem a banda-sonora, sinfonias cíclicas que se repetem até ao ponto do hipnotismo. Certamente, rendermo-nos por completo a “News from Home” é entrar numa espécie de transe, não fosse o texto um gesto de constante distanciamento. Lido pela própria Chantal Akerman, o guião é feito dessa já mencionada correspondência materna durante os anos em Nova Iorque, missivas que variam entre a mais pura banalidade e a mais acutilante saudade. Gradualmente, começamos a sentir uma evolução tonal que começa num registo de interrogação preocupada e devolve para naturezas passivo-agressivas.

Ao longo de 85 minutos, somos expostos à intimidade secreta de mãe e filha e vamo-nos apercebendo da reação filial mesmo que Akerman jamais verbalize o seu pensamento para nós, espetadores. Através de comentários sobre a última mensagem da jovem ou a falta de resposta, entendemos as fissuras fraturantes que crescem na dinâmica das duas mulheres. Também sentimos a culpa de quem abandonou a mãe, uma mistura de devoção com a necessidade de partir. Como em todo o trabalho da realizadora, há uma considerável ambivalência nestas apresentações do sentimento, mas a sua complexidade é evidente.

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Pessoas melancólicas perdem-se em impaciências ao mesmo ritmo que a artista deslocada questiona sua identidade. Num paradoxo fascinante, a fuga da Bélgica parece ter acentuado a identificação com a nação distante. Talvez seja a ilusão da saudade, talvez seja algo mais profundo e genuíno. Independentemente da causa, o resultado é uma contradição – a fuga continuada e cada vez mais desesperada. “News from Home” refrata Chantal Akerman através do prisma materno e revela um retrato cubista dela enquanto artista, enquanto filha, belga e nova-iorquina, emigrante e mulher que foge, que regressa, mas nunca para de tentar escapar à estagnação.

Descrever a realidade crua de “News from Home” não lhe faz justiça, indicando um trabalho mais frio do que o filme verdadeiramente é. Face a tal monumento de confissão artística, torna-se difícil não ficar emocionado. Os ritmos hipnóticos espicaçados pelo texto criam dinâmicas que fascinam e nos levam à identificação autoral. Sentimos a paz do silêncio, mas também pensamos na pausa entre as cartas. Queremos e não queremos uma nova mensagem, mas a culpa vem qualquer seja a reação. Mesmo em casa, somos seres alienados. Mas onde é a casa, o lar? É de onde vêm as cartas? Talvez sim, talvez não.

News from Home, em análise
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Movie title: News from Home

Date published: 7 de May de 2022

Director(s): Chantal Akerman

Genre: Documentário, 1976, 85 min

  • Cláudio Alves - 95
95

CONCLUSÃO:

Um estudo prismático de alienação e amor familial, culpa e inquietação, “News from Home” representa um texto fulcral no entendimento de Chantal Akerman enquanto artista. Nas missivas entre a Bélgica e os EUA, um mundo de significado existe, pronto a ser descoberto pelo espetador que se predisponha ao hipnotismo imersivo da metrópole em celuloide.

O MELHOR: O modo como o simples engenho do filme se prova simbolicamente transversal a toda a carreira futura da realizadora. Assim é desde algo tão óbvio quanto a ficção que o sucedeu – “Os Encontros de Anna” – até ao último filme da cineasta – “No Home Movie.”

O PIOR: Não há como negar que a repetição empregue por Akerman não é para todos. Além disso, quem não seguir o cinema da artista provavelmente não sentirá os modos como “News from Home” reverbera através das décadas.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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