IndieLisboa ’22 | Pedro, em análise

“Pedro” de Natesh Hedge é um filme indiano que, depois de passar nos festivais de Busan, Londres, Taipei e mais, chega ao IndieLisboa. A obra integra a Competição Internacional onde se habilita a ganhar o Grande Prémio Cidade de Lisboa. Não seria o primeiro prémio conquistado pela fita. Em Pingyao, Hedge ganhou um galardão para Melhor Realizador.

Na primeira longa-metragem de Natesh Hedge, a chuva é uma constante da vida. Estradas de terra lamacenta e árvores frondosas estendem-se até ao horizonte, uma paisagem de serenos verdes e azuis. Contudo, também há algo de inquietante na paz molhada de “Pedro.” O cheiro da água estagnada quase emana do ecrã, um reflexo psicológico das realidades narrativas presentes nesta história de tradição em conflito com a compaixão. O filme serve de retrato à comunidade apodrecida pelo isolamento, repleta de intolerâncias germinadas num cenário de beleza enganadora.

Sob uma abóbada de som relaxante – rapsódias gotejantes e folhas dançando no vento – encontramos o Pedro do título. Ele é o eletricista de uma aldeia no meio da região de Karnataka no sudoeste Indiano, um sítio onde se fala a língua Kannada e as tradições ancestrais definem a ordem dos dias. Em certa medida, o trabalho deste homem na meia-idade poderia indicar algum estatuto, algum poder. Afinal, é ele que controla a chegada da luz à aldeia, permitindo – ou não – o apogeu da modernidade elétrica nessa localidade sonolenta. Só que Pedro não é senhor de tiranias mesquinhas.

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© Rishab Shetty Films

De facto, o que vemos dele indica-nos uma personalidade passiva, esculpida pelos acasos da vida e suas desgraças. Nos afazeres da profissão, ele é quase invisível, seguindo rotinas pacatas que não chamam atenção. Em casa, espera-lhe a família de outro homem, seu irmão alcoólico há muito ostracizado pela comunidade. Sente-se a insegurança de alguém que vive vida emprestada, um espectro vivo que perpetua a paz dos outros sem nunca exigir respeito, amor ou importância. Não que Pedro seja um santo em bendita abnegação – é somente um homem vulgar, um zé-ninguém.

Tanto assim é que o único ato autónomo é aquele que promove o esquecimento de si mesmo. Todas as noites, trabalho feito, Pedro lá se vai embebedar no bar rudimentar do povo, afogando as mágoas no fundo da garrafa. Contudo, como que em destino biológico, o álcool abre as portas para a desgraça. Um dia, às ordens do senhorio, Pedro toma conta de uma quinta na companhia do fiel cão. Só que, nessa azarada hora, um javali selvagem passa a fronteira da propriedade e, em fúria, ataca o companheiro canino. Mata-o.

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Enfrascado e cheio de rancor, o eletricista jura vingança e lá se aventura pelo mato grosso em busca da besta assassina. A confusão da mente ébria leva ao engano e, sem intenção, Pedro mata uma vaca ao invés do javali. Todos saberão quanto o bovino é sagrado na Índia, fazendo da sua chacina, mesmo que acidental, uma violação imperdoável segundo os preceitos religiosos. A partir desse ponto, algo muda em “Pedro.” Não só os olhos da comunidade se viram para o seu membro mais invisível como a plácida forma do filme altera o tenor – a paz torna-se na quietude pesada que antecede uma catástrofe.

Dispersando o seu olhar, o realizador faz de “Pedro” um mural sobre a urbe ao invés de um retrato individual. Muitas cenas são passadas na discussão do acidente, as tensões subindo com cada minuto que passa. Não que Hedge sublinhe o suspense com qualquer fogo estilístico. Sua virtude cinematográfica manifesta-se em rigor, uma observação paciente que transmite o sentimento inquieto através de apresentação ponderada. Gota a gota se enche a alma de medo pelo que vai acontecer, o antigo e o moderno colidindo num diálogo em que a empatia é posta de parte.

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© Rishab Shetty Films

Mas, apesar de ter o seu próprio pai a atuar o papel de Pedro, Hedge não faz da personagem um mártir inocente. Aliás, grande emoção devém do colapso desse senhor, o modo como se rende ao álcool e ao medo, aproximando-se da pestilência que os outros veem nele. Uma sequência em torno de ritos religiosos é especialmente tensa, mostrando-nos quanto a inação da aldeia se fermenta em ódio para com o bêbado tristonho que faz despontar caos por onde quer que passe. Nesta história, inocência não existe e a paz não é mais que uma ilusão, uma mentira que contamos a nós mesmos na esperança que um dia se torne real.

Através deste conto moral, os cineastas criam uma espécie de sinédoque simbólica das crispações que afetam a Índia contemporânea. Questões de hipocrisia e sectarismo trespassam toda a fita, críticas fortes argumentadas com elegância audiovisual. Mais além, a própria encenação da violência remete para o seu valor enquanto parte de uma alusão política ao invés de entretenimento lúgubre. Natesh Hedge segue o exemplo de cineastas como Lynne Ramsay, usando a ausência para sugerir realidades extremadas, espicaçando a imaginação do espetador sem se deixar levar pela indulgência do choque barato. “Pedro” assim se confirma uma estreia formidável e mal podemos esperar para ver os trabalhos futuros do seu autor.

Pedro, em análise
pedro critica indielisboa

Movie title: Pedro

Date published: 6 de May de 2022

Director(s): Natesh Hedge

Actor(s): Gopal Hedge, Ramakrishna Bhat Dundi, Raj B. Shetty, Medini Kelmane

Genre: Crime, Drama, Mistério, 2021, 108 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

Medo e preconceito, intolerância e compaixão dançam uma valsa macabra em “Pedro,” primeira longa-metragem do jovem realizador Natesh Hedge. Esta produção indiana prima pela astúcia formal e uma narrativa com reverberações políticas.

O MELHOR: A sonoplastia imersiva de Shreyank Nanjappa, a fotografia aquosa de Vikas Vikas Urs que ocasionalmente oferece variações matizadas como noites roxas, as paisagens formidáveis desta Índia tão raramente filmada.

O PIOR: Há certos limites na dramaturgia, especialmente no que se refere à escrita de personagens. Também se notam discrepâncias no elenco, quiçá consequências dos desequilíbrios textuais.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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