IndieLisboa ’22 | Proyecto Fantasma, em análise

“Proyecto Fantasma,” também conhecido como “Phantom Project,” é uma comédia chilena com permutações espíritas. O filme de Roberto Doveris integra a competição internacional do 19º IndieLisboa.

Pablo está a rondar a casa dos trinta, mas ainda se encontra num estado de incerteza total – a nível profissional, pessoal, talvez até espiritual. Quando o conhecemos, ele ganha a vida servindo de paciente modelo para estudantes de medicina a treinar interações com doentes. Trata-se de uma existência meio letárgica e sem rumo, ainda mais complicada pelos sentimentos de perda amorosa. Francisco, o ex-namorado, acabou com ele há pouco tempo e, apesar de permanecerem amigos, é óbvio que Pablo ainda não superou a separação.

Pior ainda é o facto de que o colega de quarto o ter também deixado sozinho na casa que ambos partilhavam. Para trás ficou uma amorosa cadela chamada Susan e um misterioso casaco de malha. Quiçá ainda outra coisa tenha sido perdida na mudança, mas isso é mais inefável e difícil de classificar. Acontece que estranhos movimentos têm perturbado o idílio doméstico de Pablo, desde portas que se abrem sozinhos a objetos que caem sem causa aparente. Ao princípio, as culpas caem em cima do cãozinho e lá segue o bicho para nova casa.

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© Agencia Rekia

Só que o vazio persiste e, com ele, uma presença qualquer. Essa linha fantasmagórica é o fio mais fascinante na narrativa dispersa de “Proyecto Fantasma.” Talvez por isso, Roberto Doveris tenha nomeado seu filme com base na presença do outro mundo, ciente de que essa é a parte da fita que mais fica na memória. Certamente é a vertente que mais força visual apresenta, materializando o imaterial através de rabiscos sobre o frame digital. Entre o esboço estático e a animação rudimentar, o fantasma parece um outro filme furando a placidez da comédia.

Ao início, até se pode dizer que o fantasma é o ator com mais piada do filme todo, apesar de viver no silêncio perpétuo. Referimo-nos, pois claro, à sua natureza disruptiva e às gags físicas que possibilita. O mais inesperado é que a assombração acaba por exemplificar a faceta mais erótica do filme também. Na sua melhor cena, “Proyecto Fantasma” deixa que o espírito assuma o papel de amante substituto para Pablo, resultando numa das cenas de sexo mais estranhas dos últimos anos. Não é, contudo, anti erótica, havendo muito prazer na estranha encenação.

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Tanto se massacra o efeito espectral pois é difícil arranjar outra via para elogiar “Proyecto Fantasma.” Escrito enquanto carta de amor à esfera de amigos do realizador, o filme funciona como um retrato geracional cujas ambições nunca se apuram num ponto concreto. Há uma refrescante ênfase nas vidas sexuais e sociais de indivíduos LGBT+ sem nunca tornar suas identidades num tema de conversa. Contudo, essa casualidade é exemplar da atitude de Doveris para com tudo o que lhe aparece em frente à câmara. É muita graça casual e pouca precisão.

Não que todo o projeto cinematográfico precise de seguir um modelo bem estruturado ou exibir ambições desmesuradas. Há valor no tipo de estudo social que o cineasta chileno aqui exercita, capturando as ansiedades da geração Millennial através de preceitos fantásticos e cenários cómicos. Uma parte importante da equação é o trabalho de Juan Cano no papel principal, negociando as neuroses de Pablo sem nunca pôr demasiado peso nas correntes dramáticas do texto. Também a ligação ao poltergeist depende muito do ator e não nos referimos só à pantomina sexual.

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© Agencia Rekia

Gradualmente, entendemos que o espírito está de alguma forma associado ao casaco, mas não há um ímpeto para expulsar o fenómeno sobrenatural. Pelo contrário, a peça de vestuário ganha dimensões totémicas, quase milagreiras. A certo ponto, parece guiar Pablo para novas oportunidades e serve de chave para entrar nos círculos profissionais até então inalcançáveis para o protagonista. Sente-se aqui uma lição sobre ligarmo-nos ao passado para encontrar o futuro, se bem que qualquer discurso político nos parece pesado demais para o filme sustentar.

Na verdade, “Proyecto Fantasma” só se digna a interagir com a geração retratada em jeito superficial, jamais se emaranhando em questões económicas. Tanto se fala no trabalho de Pablo que esperaríamos uma maior contextualização da sua posição numa economia antipática para com jovens na sua escala etária. Essas lacunas tiram algum brilho ao projeto, mesmo quando o claro afeto do realizador para com as suas personagens logo compensa, puxando-lhe o lustre através da compaixão. Embalado pelos ritmos da música clássica, “Proyecto Fantasma” é uma diversão ligeira, meio afetada, mas despretensiosa.

Proyecto Fantasma, em análise
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Movie title: Proyecto Fantasma

Date published: 3 de May de 2022

Director(s): Roberto Doveris

Actor(s): Juan Cano, Ingris Isensee, Violeta Castillo, Fernando Toledo, Fernando Castillo, Yasmin Ludueñas, Natalia Grez, Alvaro Agreda

Genre: Comédia, Drama, Fantasia, 2022, 97 min

  • Cláudio Alves - 55
55

CONCLUSÃO:

Anódina e inconsequente, a mais recente longa-metragem de Roberto Doveris serve de bom entretenimento para uma tarde quente e relaxada. O humor faz sorrir, mas não despoleta gargalhadas, e a invenção surpreende por pouco tempo. Amamos os rabiscos espectrais, mesmo que não morramos de amores pelo texto. Pelo menos, é um trabalho sincero, despido de escárnio ou ironias desnecessárias.

O MELHOR: A cena de sexo com o fantasma.

O PIOR: A fotografia é banal ao ponto de ser anónima. Por vezes, até parece que estamos a ver produto digital cru sem um único toque de refinamento na pós-produção. Só o desenho do outro mundo se safa.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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