El dia que resistia

15º IndieLisboa | El día que resistía, em análise

Em “El día que resistía”, três crianças tentam sobreviver numa casa vaziam somente com um cão e os espectros fotográficos e lembrados dos pais como companhia. A primeira longa-metragem da cineasta argentina Alessia Chiesa é um dos melhores filmes na competição internacional do 15º IndieLisboa.

Algures nos arredores de um misterioso bosque, encontra-se uma casa. Aí, vivem três crianças, todos eles irmãos. Claa e Tino são ainda muito jovens, pelo que é Fan, a sua irmã mais velha, que chefia a casa quando os pais estão ausentes. Os pais estão ausentes há muito tempo e, não obstante as perpétuas especulações, desejos e proclamações de certeza acerca do seu retorno, os miúdos parecem condenados a estar sozinhos no mundo. Somente o cão da família, Coco, lhes faz companhia na casa solitária e no arvoredo sombrio, o qual, por ordem oficial da irmã mais velha, eles estão proibidos de explorar à noite.

Este é o cenário e a premissa principal de “El día que resistia”, um peculiar conto de independência infantil e corrosiva solidão, um conto de florestas tenebrosas e monstros que se escondem nas trevas. Uma história de três crianças abandonadas numa casa isolada do resto do mundo que, ao longo de vários dias, vão tendo de sobreviver sozinhos. Ao princípio, tudo é bucólico e risonho, com brincadeiras encenadas na cozinha com chuvas de doces e a leitura de contos-de-fadas quando são horas de dormir. Tal felicidade despreocupada não dura e, com o passar dos dias, ou talvez mesmo de semanas ou meses, as crianças vão sofrendo na pele o isolamento negligente que sobre eles se abateu.

el dia que resistia
“(…)vê à sua volta tanto motivo para brincadeira como para terror. “

Rejeitando qualquer tipo de mecanismo textual minimamente expositivo, a realizadora Alessia Chiesa começa por sugerir a evolução tonal da sua primeira longa-metragem com pequenos indícios visuais. Os pratos à mesa de jantar vão-se acumulando, a terra trazida pelos sapatos dos miúdos depois das brincadeiras no jardim começa a ter presença constante em todos os pavimentos da casa. Pior que tudo isso é o peso opressivo do abandono combinado com a influência da imaginação infantil alimentada por histórias de bruxas e perigos fantasiosos, uma malevolência capaz de tornar até o ruído mecânico de uma máquina de lavar roupa no chamamento de um demónio de outras dimensões. A fome, o cansaço e o desespero também não ajudam.

Muito do filme desenrola-se consoante essa dinâmica, adotando uma perspetiva infantil que vê à sua volta tanto motivo para brincadeira como para terror. No início, quando Chiesa deixa que o seu trio de atores infantis se precipite em claros jogos improvisados, há uma leveza na cena doméstica que encontra o seu contraste nas explorações diurnas do bosque. Esse arvoredo, através do olhar inicialmente benigno da câmara de Alejandro Bonilla, é algo épico, cheio de abóbadas de folhas trespassadas por raios de sol, uma catedral natural para as aventuras dos miúdos.

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Pouco a pouco, contudo, esse já referido peso do abandono faz-se sentir. Já no prólogo meio abstrato que inicia o filme, a sonoridade do bosque foi apontada como fonte de terror, mas isso ganha uma expressão esmagadora quando o desespero começa a apoderar-se das crianças. À noite, o bosque é sempre uma massa sombria, um perigo iminente que pode esconder uma miríade de monstruosidades desconhecidas na sua penumbra. Mas essa presença demoníaca noturna vai infetando o dia e, chegamos a um certo ponto, em que qualquer visão do bosque parece pressagiar desgraça.

Tal manipulação de como o espectador experiência o mundo das personagens é um dos golpes de génio deste “El día que resistia”, que é também uma espetacular montra para o virtuosismo de Chiesa e companhia. Já referimos os méritos da fotografia de Bonilla, mas o trabalho de som de Agathe Poche merece tanta ou mais admiração. A cargo da montagem, Maxime Cappello consegue evitar que o filme se torne numa pobre imitação de Terrence Malick, acompanhando os ritmos naturais dos protagonistas infantis e incluindo momentos de ponderação silenciosa aqui e ali. O resultado é algo entre o conto-de-fadas realista e um exercício em cinema lírico.

el dia que resistia critica indielisboa
“Um pesadelo infantil de abandono, fome e solidão(…)”

Um bom objeto comparativo para “El día que resistia” é a versão checa de “Alice no País das Maravilhas” que Jan Svankmajer assinou em 1988. Longe dos epítetos de surrealismo fantasmagórico desse pesadelo cinematográfico, Chiesa escolhe o naturalismo interpretativo com algumas insinuações de estilização formal. O tema, no entanto, é o mesmo. Ambos os filmes são histórias de crianças que foram deixadas sozinhas, sua luta por sobreviveram às hostilidades em seu redor e a vacilação da sua resiliência.

No fim, como que emulando os maiores medos de pais por todo o mundo, o filme vai sugerindo que, se nada mudar, ou os miúdos irão morrer à fome ou serão consumidos pelas trevas que parecem estar cada vez mais próximas. Este exercício em miserabilismo júnior pode ser simples, mas o seu impacto visceral não deve ser subestimado. De facto, por muito extraordinário que todo o formalismo em ação em “El día que resistia” possa ser, esta não é uma obra que recomendaríamos de ânimo leve a quem adore crianças.

 

El día que resistía, em análise
el dia que resistia critica indielisboa

Movie title: El día que resistía

Date published: 4 de May de 2018

Director(s): Alessia Chiesa

Actor(s): Lara Rógora, Mateo Baldasso, Mila Marchisio

Genre: Drama, 2018, 98 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO

Um pesadelo infantil de abandono, fome e solidão que começa como uma brincadeira e acaba como um filme de terror. Nunca abandonando a perspetiva dos seus protagonistas entre os cinco e os nove anos, Alessia Chiesa mostra ter um olho impressionantemente apurado para a ilustração sensorial de estados psicológicos com mecanismos cinematográficos.

O MELHOR: O assustador trabalho de sonoplastia.

O PIOR: O trabalho dos não-atores infantis pode ser espetacularmente natural, como nas improvisações iniciais, ou mesmo inesperadamente lacerante, como num instante em que Tino parece ter um episódio depressivo. No entanto, quando o filme puxa mais pelos talentos dramáticos dos seus pequenos protagonistas ou se desdobra em cenas com considerável conteúdo verbal, as fragilidades desta abordagem meio neorrealista são notórias.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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