IndieLisboa | Entre dos Aguas

16º IndieLisboa | Entre dos aguas, em análise

Entre dos aguas” é um híbrido entre documentário e ficção, um exercício neorrealista, que se afirmou como o grande vencedor dos festivais de San Sebastián e Mar del Plata. Esta obra de Isaki Lacuesta integra agora a Secção Silvestre do 16º IndieLisboa.

Em 2006, o cineasta espanhol Isaki Lacuesta estreou “La leyenda del tiempo”, uma curiosa proposta neorrealista, fundindo técnicas de documentário e cinema narrativo para contar a história de dois rapazes ciganos a viver no sul de Espanha. Treze anos depois, o realizador regressa aos mesmos cenários e às mesmas personagens, revisitando as suas vidas para ver onde os irmãos estão agora, quase ao estilo de um Richard Linklater castelhano. De facto, em “Entre dos Aguas”, Israel, mais conhecido como Isra, e Francisco Gómez Romero, também chamado Cheito, voltam a interpretar versões ficcionadas de si mesmos e, tal como já tinha ocorrido anteriormente, os resultados são espantosos.

Num gesto provocador que quase parece estar a assegurar o espectador da autenticidade do projeto, uma das primeiras cenas do filme mostra-nos, em detalhe extremamente gráfico, o nascimento da terceira filha de Isra. A imagem, sempre texturada pelo grão da película de 16mm e sempre a apoiar-se nos ombros do cameraman, privilegia o grande plano e mostra-nos o ardor da mãe, mas também se foca na expressão fechada de Isra. Há uma estudada falta de contextualização, pelo que, quando vemos algemas a fecharem-se em volta dos pulsos do pai é que entendemos que Isra está a ser escoltado por agentes policiais para poder assistir ao nascimento.

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Um filme sobre os ritmos cíclicos da vida, sobre homens em crise e sobre a passagem do tempo, começa com um nascimento.

Nos anos que separam os dois filmes, Isra foi preso e é insinuado que os crimes que levaram a tal fado têm que ver com o tráfico de droga. Em contraste, Cheito tem passado os últimos anos a construir uma vida estável, também ele com três filhas. O irmão mais velho de Isra trabalha para a marinha espanhola e tem viajado pelo mundo. Contudo, agora a sua ambição é juntar dinheiro suficiente para abrir uma padaria. Em contraste, depois de sair da cadeia, Isra nem emprego consegue arranjar.

É fácil apontar o dedo às causas do desespero profissional do protagonista. O seu cadastro certamente não ajuda, mas a sua falta de emprego é também uma consequência do mercado de trabalho e da personalidade abrasiva do homem. Ele é assim forçado a tentar ganhar algum dinheiro a apanhar conquilhas e mexilhões nas areias lamacentas da costa. Um dia, até faz um corte profundo no pé enquanto procura o marisco, um trabalho que ele considera demasiado duro e degradante. Aparentemente, para Isra, é difícil fugir ao canto da sereia que é o dinheiro fácil das drogas.

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Talvez outro cineasta tivesse feito o óbvio, tornando o contraste entre os dois irmãos no pretexto para uma mensagem moralista. Lacuesta, no entanto, foge dessas perspetivas redutivas e concebe um retrato humanista dos dois homens. A admiração e afeto que ele tem pelos seus atores principais é palpável, assim como a compaixão que tem para com a situação que escreveu para a figura de Isra. Em várias partes da história, o cineasta intercala as cenas contemporâneas com segmentos do filme de 2006, recordando a inocência do passado e, ao mesmo tempo, alertando a audiência para não fazer julgamentos fáceis, nem mesmo quando Isra está claramente a caminhar para uma espiral autodestrutiva.

Esse arco narrativo dá a “Entre dos aguas” a dimensão de um estudo sobre masculinidade em crise. Por várias vezes, ao longo da narrativa, Isra refere o facto de que tem de sustentar as filhas. A mãe delas, que rejeita o marido quando este sai da prisão, tomou conta delas durante anos, sem o auxílio de Isra, mas este, mesmo assim, parece achar que só o dinheiro que ele ganha separa a família da pobreza extrema. Trata-se, acima de tudo, de uma questão de orgulho que nem Isra nem qualquer um dos homens presentes em cena consegue reconhecer, tão enraizado está esse tipo de pensamento nas suas cabeças. Alia-se isso a um código de valores que sempre eleva a agressão acima de qualquer tipo de reação emocional e temos as condições perfeitas para o desastre.

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A água limpa e sustenta, refresca e serve para o baptismo. A água salva, mas também pode afogar e separar aqueles que nunca deviam ser separados.

Esse desespero de ter de ser um homem de família capaz de pagar pela boa vida das filhas ironicamente leva-o a progressivamente abandonar a família e se enveredar por atividades criminosas que muito provavelmente acabarão com ele de novo na cadeia, longe das filhas. Já vimos esta mesma história incontáveis vezes numa variedade enorme de filmes, mas raramente é o dilema encarado de um modo tão trágico e, simultaneamente, tão franco. Lacuesta e seus atores excisam qualquer nota sensacionalista de “Entre dos aguas” e fazem tudo para circum-navegar qualquer epíteto melodramático.

Pelo contrário, os cineastas parecem ir em busca de um realismo cru com uma veia poética. Imagens e motivos simbólicos repetem-se constantemente, dando forma e coerência a um guião que parece regido pelo acaso da vida ao invés de seguir uma ordem dramática entendível. A água, por exemplo, está sempre a marcar presença, quer como algo que oferece repouso e breves momentos de felicidade, saciando a alma e renovando-a, quer como o meio pelo qual os dois irmãos seguem caminhos díspares, afastando-se um do outro. O advento de rituais de provação do valor masculino, como mergulhos de pontes altas e outras brincadeiras perigosas, são outro elemento que se repete, que vai rimando.

O uso de tatuagens como uma preservação do legado e da história coletiva de famílias também é algo fascinante, especialmente quando é conjugado com a vulnerabilidade extrema que o realizador é capaz de extrair do seu elenco. Israel, que ganhou o prémio Gaudi para melhor ator, é particularmente extraordinário. Na sua face, vemos as marcas e o peso de toda uma vida de desilusões, más escolhas e ressentimentos. Nem o intérprete nem o realizador ousam exigir piedade ao espectador, mas pedem-lhe que tente entender este homem perdido. Mesmo que a sua única qualidade fosse esta performance, “Entre dos aguas” seria um filme meritoso. Felizmente, tem isso e muito mais para oferecer aos seus espectadores.

Entre dos aguas, em análise
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Movie title: Entre dos aguas

Date published: 2019-05-09

Director(s): Isaki Lacuesta

Actor(s): Israel Gómez Romero, Francisco José Gómez Romero, Óscar Rodriguez

Genre: Drama, 2018, 186 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

"Entre dos aguas” é um estudo de personagem e masculinidade em crise que usa metodologias do documentário e do neorrealismo de modo magistral. Há uma considerável falta de disciplina no filme e isso regista-se principalmente na montagem, mas há muitas qualidades que ofuscam as fragilidades da obra.

O MELHOR: O trabalho de Israel, o ator que se interpreta a si mesmo.

O PIOR: Com mais de duas horas, o filme é obscenamente comprido, especialmente quando consideramos a sua falta de estrutura dramática.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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