13º IndieLisboa | Estive em Lisboa e lembrei de você, em análise

José Barahona, um cineasta português expatriado no Brasil, concebe em Estive em Lisboa e Lembrei de Você um retrato da dolorosa experiência de um imigrante brasileiro a viver na miséria social que se abate sobre tantos outros que procuram vidas melhores no nosso país.

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Histórias trágicas sobre emigração são uma constante na história do cinema. Em Hollywood, em particular, tais narrativas são uma clara manifestação da herança cultural dos EUA, assim como um reflexo de quão ilusórios muitos dos sonhos dourados que levam as pessoas a fazer tais viagens acabam por ser. Tais narrativas podem ser tristemente comuns, tanto no cinema como na vida real, mas, uma audiência de cinema lusitana, decerto ficará perplexa a ver e ouvir relatos de Portugal como uma esperança de um futuro risonho, como esse sonho áureo que tanto promete a quem para cá decide imigrar. Mas, como estamos a falar de um filme com dimensões trágicas, tal sonho depressa se revela uma ilusão e a história de Estive em Lisboa e Lembrei de Você se torna numa espiral de desgraças encadeadas.

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O filme, baseado num romance homónimo de Luís Ruffato, retrata a história de Sérgio, um brasileiro de Minas Gerais que, depois do fracasso do seu casamento com uma jovem assombrada por problemas mentais e de se ver numa situação sem aparente esperança de um futuro melhor, decide ir para Lisboa. Sabemos, tanto pela premissa meio classicista do filme, a de observar a viagem trágica e realista de uma experiência de emigração, como pela sua estrutura que realça a narrativa presente de Sérgio já desenganado de ilusões, que tais esperanças são algo sem consequência ou sombra de realidade. Uma fugaz relação amorosa que ele inicia com uma compatriota que se prostitui no Intendente apenas lhe piora a situação e no fim, depois de ter trabalhado como empregado de mesa, ele acaba por ser forçado, contra a sua inicial vontade, a trabalhar nas obras, como tantos outros brasileiros na mesma situação.

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Esses já muito referidos sonhos são uma espécie de alicerce ideológico para um filme que pouco tem de risonho ou alegre. Pela estrutura de Estive em Lisboa e Lembrei de Você, sabemos que quando a ideia de ir para Portugal for primeiro proferida por Sérgio, isso será a sua assinatura de uma invariável sentença a miséria, mas isso não o impede a ele e ao filme de sonharem. Primeiro ouvimos como ele planeia chegar a Portugal, arranjar trabalho e acumular dinheiro até que possa voltar à sua nação natal como um homem abastado. Num café bar que ele frequenta, os seus amigos meio embriagados apoiam tais devaneios, mas, mais tarde, quando ele fala com um médico de origens portuguesas, é confrontado com uma promessa muito mais cínica. Se ele conseguir com uma Espírito Santo talvez se safe, se não, bem pode esquecer tais noções de riqueza e grandeza. Quando finalmente chega a Lisboa, sonhos e ilusões rapidamente se começam a desfazer e aí, as histórias alteram-se bastante, com os seus colegas e amigos a sublinharem constantemente, em diálogo imensamente expositivo, como todos tiveram em tempos tais ideias, mas é tudo uma mentira que contaram a si mesmos. Isto chega uma espécie de triste apoteose na figura de Sheila, sua namorada e conterrânea. Ela está visivelmente cansada de tais esperanças vácuas e, quando é feita uma proposta impulsiva e de uma atroz inocência da parte de Sérgio, ela rapidamente decide abandonar a situação pseudo romântica. Já não vale a pena partir o coração depois de toda a miséria que esta imigrante brasileira em Portugal já viveu.

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Nas suas filmagens de Lisboa, o realizador português José Barahona, que há já alguns anos vive no Brasil, construiu uma visão de uma espécie de purgatório urbano como que telegrafando esteticamente a alienação sufocante que vai afetando o protagonista. Enquanto no Brasil era possível encontrar-se beleza mesmo na miséria, com a geometria dos edifícios a ganhar uma qualidade quase pitoresca e as cores naturais a vitalizarem a imagem, em Portugal qualquer beleza é um mero e fugaz acidente. O céu parece estar permanentemente cinzento e essa cor domina toda a representação de Lisboa, onde parece que tudo é de um branco acinzentado que consome e oprime as suas pessoas e as aprisiona num estado de constante inverno europeu. A acrescentar-se a isto, quaisquer jogos de geometria no enquadramento desaparecem e a imagem muitas vezes cai em desfoque, como que isolando Sérgio numa ilha de perceção face a uma perigosa e inóspita indefinição que não o quer. Para quem ame a capital portuguesa, tal retrato será difícil de encarar com um sorriso, mas, dramaticamente, há que reconhecer o valor de tal extensão psicológica ao ambiente urbano, onde o mero sotaque do protagonista o marca como um pária a ser evitado pelos lisboetas preconceituosos e seus turistas.

Apesar da sua representação da cidade titular tender a uma expressão mais psicológica e subjetiva, o restante trabalho diretorial de Barahona foi feito com o intuito de procurar uma certa ideia de autenticidade quase documental. Para isso, o cineasta empregou o uso de variados não atores a interpretarem versões de si mesmos e, consequentemente, colorindo a paisagem humana do filme com histórias e experiências reais. Tal processo poderá parecer um tanto ou quanto inapropriado ao que se supõe ser uma adaptação literária mas, ao fazer tal desvio cinematográfico, o realizador acabou por traduzir cinematicamente as intenções da sua base em livro como poucas adaptações, muito mais superficialmente fieis, conseguem fazer.

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Como consequência disso mesmo, Estive em Lisboa e Lembrei de Você é uma obra que está carregada de momentos em que personagens passageiras contam as suas histórias em momentos de grosseira exposição que tem o peculiar efeito de inadvertidamente tornar o filme numa obra de grande carga didática, o que nem sempre funciona para o seu benefício. Talvez com uma abordagem que desafiasse mais os limites entre a ficção e anão ficção, tais relatos poderiam ser melhor empregues, mas o facto é que, apesar da sua bem-vinda experimentação com motivos documentais, Barahona construiu um filme que, em termos de estrutura e abordagem dramática, não poderia ser mais convencional. Com tais classicismos, vem ainda outra fragilidade sob a forma da prestação inexpressiva e demasiado apática do ator Paulo Azevedo que, infelizmente, nunca consegue realmente telegrafar a interioridade da sua personagem mesmo sendo um dos poucos atores que supostamente trabalha profissionalmente neste mundo de interpretação. A única prestação, aliás, que consegue refletir alguma realidade humana a partir da clara dramatização é a de Renata Ferraz como Sheila. A atriz faz as intenções nefastas da sua personagem uma completa transparência, mas também consegue sugerir maiores complexidades humanas que o filme não explora, sendo que a sua cena final, quando diz penosamente a Sérgio que o seu nome não é Sheila, carrega consigo mais peso e vivência que a totalidade do trabalho de Azevedo, incluindo o seu monólogo descritivo proferido diretamente para a câmara e audiência.

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Estive em Lisboa e Lembrei de Você é um filme que seria beneficiado por uma maior aventura e impetuosidade cinematográfica, por uma abordagem que realmente rompesse com os limites da ficção e sua estrutura, fugindo a alguns dos classicismos que quase se tornam desumanos clichés quando colocados num contexto que tanto procura o realismo. Mesmo assim, apesar das suas fragilidades, a primeira longa-metragem de José Barahona é uma obra de irrevogável importância, retratando uma realidade que muitos portugueses estão mais felizes a ignorar que a confrontar na sua dolorosa complexidade humana. Isso não faz do filme uma obra de extraordinário cinema, mas é de destacar e valorizar. Seguindo esse pensamento, algumas das imagens do filme são de facto desconcertantes na sua interiorização das mágoas destas pessoas que vêm a Lisboa em busca de algo que nunca alcançam e depois vêm suas esperanças cuspidas na sua cara. Por exemplo, quando Sérgio é forçado a abandonar a pensão em que vivia depois de perder o emprego, fá-lo em segredo durante a calada da noite e a câmara, ao contrário do que seria de esperar, não o segue para a rua, mas fica à janela do seu quarto. É como se outra pessoa, na mesma situação de Sérgio já estivesse a ocupar sua habitação abandonado, num ciclo vicioso de sonhos despedaçados, miséria social, preconceitos corrosivos e um desespero que tudo consome, até a mais básica dignidade humana.

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O MELHOR: O tema do filme e seu retrato da experiência de tantos brasileiros a viver em Portugal.

O PIOR: O modo como sugere uma maior ousadia cinematográfica com o uso de técnicas documentais, mas depressa abandona tais impulsos em prol de uma segura convencionalidade que nada faz a não ser limar s aspetos mais cortantes e necessariamente abrasivos de tal retrato humano.


 

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Título Original: Estive em Lisboa e Lembrei de Você
Realizador:  José Barahona
Elenco: Paulo Azevedo, Renata Ferraz, Amanda Fontoura
Drama | 2015 | 94 min

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