"Luminum" | © Monte Total

IndieLisboa ’23 | Luminum, em análise

“Luminum,” o novo documentário de Maximiliano Schonfeld, considera a questão dos OVNIs através de um retrato familial. Originalmente, o filme estreou no muito prestigiado festival Visions du Réel na Suíça. Desde então, tem feito o circuito, dando a volta ao mundo antes de chegar à capital portuguesa. Na programação do 20º IndieLisboa, este título encontra-se presente na secção Silvestre.

Há muita gente que mira os céus em busca de indícios de alguma vida além da nossa banalidade terrena. O OVNI é seu objetivo máximo, símbolo esperançoso e prova, simultaneamente ambígua para o público em geral, mas absoluto para os verdadeiros apaixonados. São crentes, como tantos outros, mas a sua igreja não se constrói de pedra e espaço fechado. Ao invés, é todo o mundo, a abóbada celeste seu altar. Será neste cenário que primeiro encontramos as protagonistas de “Luminum,” certa noite quando fazem suas observações rotineiras.

De carro estacionado numa colina, espiam a escuridão com binóculos, na espera eterna por nova pista. São elas Silvia e Andrea Simondini, um par de mãe e filha ovniologistas que gerem o Museo Ovni na província de Córdoba, na Argentina. O momento é um prólogo sereno que nos prepara para a experiência do filme. Mais do que nos edificar ou converter, Schonfeld e companhia parecem intentos em levar os espetadores a uma dimensão de afetos e comunidade. Por outras palavras, “Luminum” faz-nos sentir como parte de um grupo, os nossos olhos mirando céu em missão partilhada.

indielisboa luminum critica
© Monte Total

É certo que existem acessos arquivistas, mostrando-nos entrevistas antigas e explicações televisivas. Mas, no fim, o aconchego é prioridade. Dito isso, o que comove ou inspira estas mulheres não será o mesmo que para as audiências gerais. A magia do projeto encontra-se na fomentação da empatia, até quando as cenas expostas na tela tombam para o lado grotesco. Vejam-se, por exemplo, as carcaças de vacas mutiladas que a parelha investiga. Existe um tenor de curiosidade clínica na sua voz, mas também o fulgor da fanática. Tanto amor trespassa o gesto a apontar as marcas no gado, a incisão precisa com que seus órgãos foram retirados sem aparente explicação.

Novamente, perante as crentes nos vemos a comparar o amor pelos OVNIs com o amor religioso. Não que Schonfeld force a comparação. Pelo contrário, tenta-nos puxar para o filme com mecanismos laicos, invocando belezas abstratas até que talvez nelas vejamos o mesmo significado que as senhoras Simondini. Ao som de theremin, esse cliché da ficção-científica, a câmara ronda a escuridão do céu noturno até encontrar algum ponto de luz. São estrelas ou planetas, diz a voz lógica dentro das nossas cabeças. Só que a repetição atordoa a razão, até que queremos acreditar nos seus movimentos misteriosos.

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Nem que seja porque, num momento singelo, vemos quanto isso proporciona alegria no rosto de Silvia. Em documentação de sentidos e sentimentos, repúdio da informação desnuda, cativam-se as atenções através da montagem relaxante. O mundo comum torna-se sonho, com quase toda a filmagem incidindo sobre aquela hora mágica, o sol posto pintando o céu em laranjas e amarelos, violeta e rosa, vermelho e tanto mais. A lua brilha também na pintura, abençoando aqueles que lhe prestam homenagem ora com sua vista ou com a objetiva da câmara.

Se se mecanizam estas escolhas para submergir, poderíamos até dizer que “Luminum” ultrapassa a empatia para um exercício de hipnose. Somos embalados, sem dúvida. Mais do que isso, talvez, seja uma homenagem aos laços terrenos forjados por entre as conversas de homenzinhos vindos do espaço sideral. Afinal, o que é esta fita senão uma carta de amor, uma canção em prol da relação familiar no centro do seu coração? Podemos cair na maravilha do OVNI, mas a ligação mãe-e-filha é sempre sobreposta a qualquer outra consideração.

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Revendo “Luminum” através dessa perspetiva, deparamo-nos com a história de uma mãe aprendendo a deixar a filha explorar outras vidas que não aquela ao lado da amada progenitora. Conta-se aquele caso comum da felicidade que dói, o orgulho materno mesclado com uma pontada de perda. Em diálogo com um pássaro de estimação, Silvia, que outrora disse não haver nada mais importante no mundo que a filha, repete as notícias da sua partida. A Andrea foi-se embora, e agora o que resta? Ainda há vida a ser vivida sem ela?

Como a esperança nos OVNIs, a esperança mantém-se neste aspeto, fazendo-se a rima visual com o início sem beber o suco do desespero. Lá está Silvia novamente no carro, só que agora sozinha, mirando as estrelas em busca de resposta. Talvez o que se busca, no meio de isto tudo, seja o antídoto para a solidão. Quere-se acreditar na vida extraterrestre em contacto connosco porque, nesse caso, a Humanidade não está só. E assim terminará este poema audiovisual, contando pouco mais de uma hora, breve e forte. Surpreende pelo seu lado comovente, como uma carícia lacrimosa que nos garante “está tudo bem, vai ficar tudo bem”.




Luminum, em análise

Movie title: Luminum

Date published: 30 de April de 2023

Director(s): Maximiliano Schonfeld

Genre: Documentário, 2022, 62 min.

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

Não se faz nenhuma viagem intergaláctica em “Luminum,” mas sim uma odisseia do coração, o sentimento de amor entre mãe e filha, todo um universo a descobrir. Trata-se de um documentário em jeito de retrato que indica ser sobre um tema, para se revelar enquanto estudo do ser humano em luta eterna contra a solidão. Belissimamente filmado, os ritmos serenos e fotografia crepuscular promovem o embalo, a hipnose, o sonho.

O MELHOR: As passagens finais com Silvia sem Andrea, ora só na missão ovniologista ou na companhia de amigos que matam tempo em silêncios confortáveis.

O PIOR: A brevidade do exercício impede-o de ter mais dimensão. Falta-lhe detalhe, parecendo mais um esboço que uma pintura finalizada.

CA

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