Person to Person

15º IndieLisboa | Person to Person, em análise

Person to Person” retrata um dia na vida de vários nova-iorquinos com personalidades coloridas e uma panóplia imensurável de ansiedades pessoais. O filme é um dos títulos da competição internacional do presente IndieLisboa.

Nova Iorque e o cinema, aí está uma história de amor destinado a perdurar até ao dia em que um ou outro deixem de existir. Inúmeros são os realizadores que já se desdobraram em cartas de amor cinematográficas à cidade que lhes dá casa e inspiração, a grande Maçã, o centro económico dos EUA e uma cidade que tende a parecer-se terrivelmente com Toronto quando os produtores de certas histórias nova-iorquinas decidem aproveitar os incentivos fiscais canadianos. Tal é a quantidade deste tipo de ode fílmica à grandiosidade de Nova Iorque que quase se poderia agrupar todos esses milhares, talvez milhões, de projetos num subgénero cinematográfico.

O que com isto queremos dizer é que, filmes sobre Nova Iorque, especialmente elegias de baixo orçamento ricas em diálogos trabalhosos e personagens neuróticas, são algo que transcendeu o comum e se tornou num dos clichés mais pervasivos do cinema americano. O pior de tudo é que, num cúmulo demoníaco de falta de originalidade, pelo menos mais de metade destes cineastas contemporâneos usam sempre os mesmos pontos de referência estilísticos, nomeadamente o cinema da nova Hollywood dos anos 70. Essa Nova Iorque filmada em película cheia de grão que parecia ter sido transplantada de um filme de arte europeu. Essa Nova Iorque dos filmes de Scorsese, May e Allen, entre muitos outros. Essa Nova Iorque que, não estando contente com a sua conquista do grande ecrã, agora também insiste em nunca desaparecer do mundo da TV em programas como “Girls”, “Search Party” e “Broad City”.

Enfim, essa Nova Iorque que todos os cinéfilos conhecem e que qualquer espectador assíduo do IndieLisboa está já há muito habituado a encontrar anualmente na seleção do festival, não obstante a qualidade formulaica e apocalipticamente desinspirada de tais exercícios. Afinal, foi no ano passado que um dos últimos filmes a passar no festival foi “Golden Exits” de Alex Ross Perry, uma teia de narrativas sobre pessoas neuróticas a viver em Manhattan filmada com a belíssima textura de 16mm, uso quase exclusivo de luz natural e muita câmara ao ombro. Um projeto que, a uma primeira e muito injusta análise, é quase indiferenciável de “Person to Person” de Dustin Guy Defa, uma crónica de um dia na vida de vários nova-iorquinos neuróticos cujas histórias se entre-cortam e que foi filmado com a belíssima textura de película de 16mm e uso quase exclusivo de luz natural e câmara ao ombro.

Até agora, há que admitir que o tom deste texto tende a denotar uma certa fúria indignada, mas não se quer com ele dizer que fazer-se filmes sobre a vida de nova-iorquinos contemporâneos numa estética relativamente realista é algo necessariamente mau. O problema é que este tipo de filmes são numerosos e raramente mostram grandes variações, parecendo todos alimentar-se das ideias uns dos outros de um modo mais parasítico que produtivo, resultando na contínua produção de soporífera mediocridade. “Person to Person” não é, de todo, um filme desprovido de méritos, mas todas as decisões criativas por detrás da sua conceção levaram a um projeto que, na sua forma final, é tão banal e impessoal que é quase anónimo.

person to person indielisboa critica
“(…)uma carta de amor a Nova Iorque que é semelhante a tantas outras(…)”

Tal como muitos outros projetos deste género, “Person to Person” é uma espécie de narrativa mosaico, entrelaçando cinco histórias diferentes. Dois pares destas cinco estão relacionadas, enquanto uma outra, apesar de acontecer em simultâneo, nunca colide com os restantes enredos. De forma sumária, temos a trama de um colecionador de discos raros que, no mesmo dia em que decide vestir uma camisa nova cujo estilo lhe causa muitas dores de cabeça, é ludibriado por um misterioso homem que lhe vende uma gravação falsificada. Enquanto ele persegue o criminoso de bicicleta pelas ruas de Nova Iorque, o seu colega de casa, um tipo deprimido que perdeu recentemente uma namorada de longa data, tenta salvar-se da ira do irmão da sua antiga companheira que se quer vingar pelo facto do nosso segundo protagonista ter publicado fotos nuas da sua suposta amada na net.

Longe de tais dramas, temos a história do primeiro dia de trabalho de uma nova repórter criminal para o jornal New York News. Ajudada por um meloso colega que adora música metal, ela tenta inserir-se na investigação de um homicídio e vai descobrindo que, devido ao seu medo de conflitos, talvez uma carreira jornalística não seja a melhor opção. Em colisão com esta história, está o conto de um relojoeiro e seus amigos que, sem culpa nenhuma, veem o seu dia dominado pela investigação do dito homicídio assim como o assédio constante da mulher do assassinado e a trupe de repórteres que andam à volta dos envolvidos como abutres desastrados com câmaras baratas em punho.

Finalmente, distantes de tais sarilhos, temos a história de uma adolescente antissocial que passa um dia na companhia da sua melhor amiga. Infelizmente, tal convívio acaba por também incluir a presença do namorado da melhor amiga, um tipo que não parece ter mais de dois neurónios, e seu fiel melhor amigo também. Frustrada pela sua participação forçada num quarteto adolescente, ela pensa em ausentar-se, mas acaba por se envolver com o outro adolescente sem par romântico em cena, partilhando com ele algumas das suas ansiedades. Nomeadamente, ela muito fala da sua incapacidade para se sentir normal, estando sempre nervosa se as suas reações são apropriadas ao momento, se ela está a sentir aquilo que é suposto.

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Tais angústias são comuns a todas as histórias, sendo que, num dos momentos mais tematicamente declarativos do filme, o mentor da jornalista principiante chega mesmo a perguntar “Porque é que é tão difícil fazer com que as pessoas gostem de mim?” Não há resposta fácil a isto e, se há algum valor no argumento deste cliché cinematográfico, é o sentimento geral de constante incerteza emocional e social. Nenhuma destas personagens se consegue relacionar com os outros à sua volta de um modo orgânico, dependendo de rituais autoimpostos, alguns tipos de chamativa idiossincrasia pessoal ou guiões sociais. Enfim, também são todos eles pessoas que falam como personagens de um filme, sendo que nenhum do seu diálogo alguma vez parece minimamente natural.

Essa falta de naturalidade verbal é um enorme problema num filme que tanto almeja ser um retrato pseudo naturalista da Nova Iorque dos nossos dias, mas o elenco lá vai resolvendo as maiores fragilidades do guião. Na verdade, o elenco, que inclui uma série de personalidades importantes da elite cultural nova-iorquina, incluindo críticos, donos de clubes, outros realizadores e até uma editora entre os outros atores mais conhecidos, é a grande mais valia do projeto, salientando a sua componente humanista e modulando a estilização textual. No papel da protagonista adolescente, Tavi Gevinson é particularmente admirável, encontrando vulnerabilidade, dor e palpável complexidade emocional numa personagem facilmente tornada numa caricatura pelas mãos de um intérprete menos astuto. É principalmente graças ao trabalho destes atores que, no fim, “Person to Person”, nos consegue fazer esquecer um pouco a sua mediocridade e nos embalar com o seu único elemento portador de alguma originalidade: uma obstinada recusa em cair no niilismo e melancolia de tantas outras histórias nova-iorquinas, preferindo sempre celebrar com um sorriso na cara e uma grande dose de otimismo.

 

Person to Person, em análise
Person to Person indieLisboa critica

Movie title: Person to Person

Date published: 2018-05-02

Director(s): Dustin Guy Defa

Actor(s): Abbi Jacobson, Michael Cera, Tavi Gevinson, Bene Coopersmith, George Sample III, Philip Baker Hall, Isiah Whitlock Jr., Michaela Watkins, Olivia Luccardi, Ben Rosenfield, Buddy Duress, Eleonore Hendricks, Benny Safdie

Genre: Comédia, Drama, 2017, 84 min

  • Cláudio Alves - 55
55

CONCLUSÃO

Expandindo uma das suas antigas e muito celebradas curtas-metragens, o realizador Dustin Guy Defa compõe aqui uma carta de amor a Nova Iorque que é semelhante a tantas outras, a não ser na sua atitude teimosamente otimista e traços de caloroso humanismo.

O MELHOR: Os atores, nomeadamente Tavi Gevinson.

O PIOR: A falta de originalidade na premissa estrutural de todo o projeto.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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