Zama IndieLisboa

15º IndieLisboa | Zama, em análise

Zama”, a quarta longa-metragem de Lucrecia Martel, é um triunfo de humor absurdista e lacerante crítica anticolonialista. O primeiro filme de época da realizadora argentina é uma coprodução internacional parcialmente portuguesa, assim como um dos títulos mais espetaculares desta edição do IndieLisboa, onde foi apresentado dentro da secção Herói independente que também inclui uma retrospetiva da obra da cineasta.

Entre 2001 e 2008, com as estreias de “La Ciénaga”, “La niña santa” e “La mujer sin cabeza”, a realizadora argentina Lucrecia Martel assegurou o seu estatuto enquanto uma das cineastas mais importantes do século XXI. O que se seguiu a esse glorioso tríptico, ocasionalmente apelidado como a trilogia Salta devido a temas comuns, foi quase uma década preenchida por projetos abortados, buscas por financiamento e umas quantas curtas-metragens estreadas no circuito dos festivais. Para fãs da realizadora, a espera foi longa e tortuosa, mas finalmente teve fim com “Zama”, a quarta longa-metragem de Martel e, sem sombra de dúvida, o seu mais ambicioso filme até ao momento. É também um dos seus filmes mais cripticamente difíceis de ver, ao mesmo tempo que é, paradoxalmente, uma sublimação bastante óbvia de alguns dos temas mais constantes na sua filmografia recheada de crítica social e um forte componente político.

Baseando-se no romance, originalmente publicado em 1956, de Antonio Di Benedetto, Martel conta, em “Zama”, a história de D. Diego de Zama, um burocrata espanhol do século XVIII. Trabalhando em nome da coroa espanhola, Zama detém um posto de relativa autoridade, mas nenhuma consequência, no Paraguai, estando desesperadamente à espera de uma oportunidade para ser transferido para Buenos Aires e, se tudo correr bem, voltar finalmente ao conforto da sua pátria do outro lado do Atlântico. Infelizmente para Zama, a sua vida parece ter sido escrita por uma equipa formada por Kafka, Beckett e alguns membros dos Monty Python, pelo que a sua espera é interminável e tudo o que ele faz para assegurar a sua viagem transatlântica somente parece piorar a situação.

zama critica indielisboa
“(…)comédia apoiada numa boa dose de crueldade(…)”

Depois de algumas reviravoltas hierárquicas, escândalos literários, nascimentos de filhos bastardos, uma estadia numa pousada potencialmente assombrada e um encontro com um lama muito curioso, Zama acaba mesmo por se aventurar na selva à procura de um criminoso célebre. Ele faz isso na esperança de que tal façanha lhe garanta um lugar num navio rumo a Espanha, mas, como seria de esperar, a sua sorte não muda e o máximo que ele consegue fazer é enlouquecer. Por muito estranho que tal afirmação possa parecer, é importante para um espetador que queira apreciar “Zama” compreender que, não obstante o caráter fatalista e meio trágico desta sinopse, o filme é uma comédia.

Trata-se do tipo de comédia em que a piada final parece ser que, quando lhe perguntam se quer viver, Zama, apesar de estar demasiado fraco para vociferar o que quer que seja, preferiria morrer a passar nem que seja mais um segundo na selva do Paraguai. Ou seja, é uma comédia apoiada numa boa dose de crueldade e prazer na desgraça alheia, na desgraça de Zama especificamente. Entenda-se que, apesar de ser uma personagem com uma psicologia bem definida, ele representa uma espécie de ponto de origem, emblema, personificação e objeto do colonialismo espanhol, sendo que as desgraças que caem sobre a sua cabeça não são somente catástrofes pessoais, mas também uma retribuição cósmica por parte de um continente violado pela exploração e abuso dos europeus.

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O protagonista de “Zama” é um burocrata mesquinho com ambições de grandeza numa posição de absoluta ineficácia e inação. O seu estado mental é uma constante irritação com tudo e todos os que o rodeiam e, apesar do semblante escultoricamente angular do ator Daniel Giménez Cacho, ele acaba apor ter a mesma jocosa indignidade sôfrega de uma personagem do “The Office”. A banalidade, pequenez de espírito e falta de poder hierárquico de Zama não desculpabilizam a sua malevolência, no entanto. Afinal, este é um homem que, nas primeiras cenas do seu filme, espia um grupo de mulheres a banharem-se, agride uma delas e depois supervisiona a tortura de um homem que tem a pouca sorte de ter a tez mais escura que a das elites colonialistas. Por tudo isto e como já referimos, o espectador por sentir um certo deleite no seu sofrimento, especialmente na fabulosa ironia que é a personificação do regime colonialista ser também a pessoa que mais desesperadamente quer fugir dos territórios conquistados.

Lucrecia Martel tem passado anos a eviscerar a classe média argentina da contemporaneidade pós-ditatorial, expondo a sua inocuidade mesquinha, as contracorrentes de racismo que delineiam muita da hierarquia social do país e a procura constante por prestígio social. Longe de ser uma distante personagem histórica, D. Diego de Zama é algo próximo de um antepassado destas pessoas e “Zama”, o filme, acaba por funcionar como uma bizarra história de origem para o universo cinemático de Martel. No final, esta obra não é nenhuma anomalia na filmografia da cineasta ou uma exploração de novos temas e mecanismos, como alguns críticos têm dito. É, pelo contrário, cinema de Lucrecia Martel 100% puro. Quem não seja fã, prepare-se para uma overdose.

zama critica indielisboa
“(…)uma bizarra história de origem para o universo cinemático de Martel(…)”

Tal conclusão não é feita só de ponderações sobre texto e tema. A odisseia absurdista de “Zama” é também uma maravilhosa montra para o virtuosismo formalista da cineasta, desde as densas paisagens sonoras, que incluem escolhas musicais maravilhosamente anacronistas, às imagens saturadas de informação e significado. A fotografia do português Rui Poças, por exemplo, é rica em composições meticulosas que fazem bom uso de grande profundidade focal para assegurar que Zama é raramente o elemento mais interessante ou visualmente chamativo em cena. Os cenários de Renata Pinheiro e especialmente os figurinos de Julio Suárez são espetáculos de flagrante e grosseiro artificialismo, sublinhando quão as elites espanholas não pertencem às paisagens naturais em que se estão a forçosamente imiscuir. A ostentação da Europa setecentista não foi feita para a selva e, como tal, eles parecem todos uma cambada de palhaços suados e a sufocar em camadas de roupa inapropriada para o clima tropical. Ou seja, parecem o elenco perfeito para um pesadelo colonialista tão perversamente divertido como transcendentemente cruel.

 

Zama, em análise
zama

Movie title: Zama

Date published: 29 de April de 2018

Director(s): Lucrecia Martel

Actor(s): Daniel Giménez Cacho, Lola Dueñas, Matheus Nachtergaele, Juan Minujín, Nahuel Cano, Mariana Nunes, Daniel Veronese, Carlos Defeo, Rafael Spregelburd,

Genre: Drama, Comédia, História, 2017, 115 min

  • Cláudio Alves - 95
  • José Vieira Mendes - 60
78

CONCLUSÃO

“Zama” é uma gloriosa comédia anticolonialista, onde Lucrecia Martel leva alguns dos seus temas mais familiares até extremos absurdos e deliciosamente sórdidos. Tão formalmente sublime como concetualmente ambicioso, esta é uma obra-prima de visionamento obrigatório para qualquer cinéfilo que se preze.

O MELHOR: O lama.

O PIOR: Um conto sobre um peixe que vive uma vida atormentada pois a água odeia-o e não o quer em si é um dos momentos mais surreais do filme, mas também uma das ocasiões em que o discurso ideológico de Martel se torna um pouco descarado demais, obliterando quaisquer hipóteses de subtileza ou nuance.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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