ARTE Kino | Scarred Hearts, em análise

Inimi cicatrizate“, ou “Scarred Hearts”, é um dos melhores filmes em exibição no festival de cinema online ARTE Kino, sendo também a mais recente obra-prima do cineasta romeno Radu Jude. O filme estará disponível online desde 1 de dezembro, até dia 17 do mesmo mês.

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Max Blecher foi um escritor judeu da Roménia na primeira metade do século XX. Filho de um comerciante de porcelanas, Blecher evidenciou-se como um promissor estudante e chegou mesmo a frequentar um curso de medicina em Paris, antes de ser diagnosticado com tuberculose vertebral. A doença forçou-o a abandonar os estudos e as muitas promessas de um futuro cheio de sucessos esfumaram-se no éter. Passou o resto da vida à procura de tratamentos em vários sanatórios europeus e, durante os últimos dez anos da sua vida, viveu acamado e imobilizado com um corpete de gesso. Isso não impediu contudo de escrever prosa e poesia, de traduzir vários trabalhos e escrever ensaios académicos, nem de se tornar numa dos mais importantes intelectuais do seu país. Em 1938, ele morreu com apenas 28 anos.

Uma das suas obras partilha o seu título com “Inimi cicatrizate”, mas logo nos créditos de abertura o realizador Radu Jude chama a atenção para a sua abordagem aos trabalhos literários de Blecher. O filme é vagamente baseado na sua obra, mas, mais do que isso, é uma reflexão meio biográfica da tormenta do próprio escritor. O protagonista desta história é Emanuel, mais conhecido por Manu, um jovem romeno bem-parecido, inteligente e com um grande sentido de humor que se manifesta de variadas maneiras, inclusive com a recorrente declamação teatral de slogans publicitários ouvidos na rádio. Tal como Blecher, ele é judeu e, tal como o escritor, também sofre de tuberculose vertebral. Essa maladia leva-o a estar confinado a um sanatório nas margens do Mar Negro, onde convive com os outros doentes, se apaixona e ouve muitas palavras prometedoras da sua cura. Mas o tempo passa, o seu corpo degrada-se, ele fica progressivamente paralisado, e Manu, tal como os outros pacientes, vai lentamente resignando-se à arbitrariedade natural que lhe roubou a liberdade e, eventualmente, lhe ceifa a vida.

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Tal descrição, especialmente se a associarmos à nacionalidade do projeto, poderá induzir o leitor a pensar em Inimi cicatrizate como um poço sem fundo de miserabilismo cinematográfico, mas a verdade não é bem essa. De facto, Jude e os seus colaboradores muito fazem para dissuadir o espetador de cair no erro da piedade vácua e superficial. O sofrimento dos pacientes do sanatório e seus tenebrosos tratamentos são apresentados com franqueza, obsessivo detalhe, uma especificidade arqueológica e considerável distanciação quase clínica. Mas, ao mesmo tempo, existe comédia, farsa, sexo, acesas discussões políticas e um sentimento generalizado de anarquia festiva. O filme poderia quase caracterizar-se como uma tragicomédia, tendo, entre muitos momentos hilariantes, as mais desconfortáveis e divertidas cenas de sexo a marcarem presença no cinema europeu dos últimos tempos.

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É evidente que essa comédia, em particular quando é deliberadamente promovida pelas personagens, funciona como uma espécie de mecanismo de defesa para com o horror do seu sofrimento. Para sublinhar tal dinâmica e valorizar cinematicamente os textos de Blecher, o realizador enche “Inimi cicatrizate” com intertítulos, onde a discórdia interior de Manu é expressa em palavras tão lacerantes como sarcásticas cuja beleza não disfarça a visceral agonia de onde floresceram. Jude pode-nos confrontar com um tableau de perfeita inação com Manu deitado na sua cama a ouvir o som das ondas na distância, mas depois o texto permite-nos acesso à complexidade humana da sua dor nunca verbalizada e da reflexão sobre a sua própria insignificância cósmica.

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Tal mecanismo toma a forma de um grito silencioso que é mais poderoso pela sua falta de som, ao mesmo tempo que sublinha a complicada relação entre Manu e o seu corpo. Qual é o ser humano que, a certo ponto da sua vida, não tocou no seu corpo e viu nele algo separado do seu ser, algo que trai a vontade da pessoa, que não corresponde à mente vibrante que nesse invólucro está contida? Reflexões desse género representam um discurso mental incessante para Manu, que mais do que muitos outros, tem razão para se sentir aprisionado dentro da sua própria carne e sua crescente rendição ao ataque da enfermidade.

Desse modo, mais do que uma elegíaca homenagem a Blecher, “Inimi cicatrizate” afirma-se como um raro e potente estudo sobre a relação humana com o corpo levada a um extremo de horror asfixiante, onde o último recurso que uma pessoa tem é a sua intrínseca vontade de sobreviver. E não é só o texto a refletir esse tema, mas sim todo o corpo do filme, desde a sua edificação concetual até aos pormenores mais técnicos da sua concretização formal. Veja-se, por exemplo, o modo como o filme é principalmente contado em tableaux rígidos que duram uma cena, mas como o ocasional movimento de câmara que ainda aparece na primeira meia hora do filme se vai ausentando até que estamos perante um espetáculo de absoluta imobilidade, tanto do corpo do protagonista como do olhar da audiência.

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Para além do mais, há sempre uma enorme distância entre a câmara e o seu sujeito principal, sendo este um filme de planos gerais meticulosamente compostos. A ajudar a essa mesma estética estudada, está a cenografia cheia de detalhes de época que credivelmente trazem para o grande ecrã o passado histórico sem demonstrar nenhum dos impulsos românticos típicos do cinema de época. Pode não parecer, mas o que tais escolhas proporcionam à audiência é uma experiência de profunda imersão emocional pois convidam-nos a afundarmo-nos na quietude e nos ritmos da vida das suas personagens inválidas. Associado a essa distância, rigidez e qualidade imersiva, os atores têm de trabalhar num registo naturalista já muito associado ao cinema romeno, mas, ao mesmo tempo, precisam de injetar uma microscópica quantidade de teatralidade estilizada aos seus desempenhos de modo a não serem reduzidos a objetos pela severa mise-en-scène.

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Como Manu, Lucian Teodor Rus é estupendo, carismático e consegue encontrar esse equilíbrio entre leve estilização e naturalismo. Para além disso, ele é forçado a atuar quase só com a voz, estando o seu corpo em perfeita imobilidade durante grande parte do filme e a câmara tão distante da sua pessoa que é impossível ler as subtilezas da expressão facial. Se bem que, quando tem a oportunidade de mostrar as suas aptidões para a atuação em grande plano, o ator não desaponta. Dois momentos específicos destacam-se. Primeiro, uma viagem improvisada ao apartamento da sua amada Solange em que vamos reparando como, no olhar de Manu, não está só o desejo erótico e romântico mas também o desespero de quem vê nesta antiga paciente do sanatório um raio de esperança vital, uma lembrança de que a cura é possível. Depois, há a sua última imagem no filme, quando nos olhos do ator podemos ver pintada a resignação de quem já aceitou que vai morrer e que, na verdade, nunca existirá um futuro ano em seguimento do sofredor presente.

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Muitos têm sido os críticos a ler o filme como uma examinação da Roménia nos anos que antecederam a 2º Guerra Mundial e ascensão do fascismo nessa nação de leste e é fácil entender esse raciocínio. Desde menções de Hitler, a confissões de ansiedades pessoais provocadas por palavras antissemitas, “Inimi cicatrizate” poderia muito bem ser um retrato metafórico de um mundo em degradação e sofrimento, impotente para com a sua própria trajetória rumo à destruição apocalíptica. Não querendo invalidar tal leitura, essa apreciação corre o risco de reduzir Manu e seus companheiros a nada mais que símbolos e uma coisa é certa, Radu Jude nunca ousa tal crime contra as suas personagens, olhando sempre para elas como seres humanos complexos e merecedores de respeito e empatia. Por isso mesmo, é este filme uma das grandes obras-primas humanistas do ano passado e um dos melhores projetos em exibição no fesival ARTE Kino deste ano.

 

[Esta crítica foi originalmente publicada no dia 4 de maio de 2017, aquando da cobertura do IndieLisboa]

 

Inimi cicatrizate (Scarred Hearts), em análise
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Movie title: Inimi cicatrizate

Date published: 4 de May de 2017

Director(s): Matias Piñeiro

Actor(s): Lucian Teodor Rus, Ivana Mladenovic, Serban Pavlu, Gabriel Spahiu

Genre: Drama, Biografia, Comédia, 2016, 141 min

  • Cláudio Alves - 95
95

CONCLUSÃO

Inimi cicatrizate é um comovente hino humanista sobre sofrimentos impossíveis de imaginar, com um acutilante virtuosismo formalista e um impacto emocional que exige o envolvimento da audiência e promete não deixar ninguém indiferente.

O MELHOR: Todo o filme desde o primeiro minuto até ao seu último.

O PIOR: Para certas pessoas, a duração considerável do projeto, o tema e a rígida construção formal poderão provar-se prejudicialmente alienantes.

CA

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