"It Must be Heaven" | © Midas Filmes

LEFFEST ’19 | It Must Be Heaven, em análise

Depois de ter ganho um prémio especial do Júri em Cannes, “It Must Be Heaven” chega a Portugal com antestreia no Lisbon & Sintra Film Festival.

Há já uma década que Elia Suleiman não estreava uma nova longa-metragem. “It Must Be Heaven” vem quebrar esta agonizante pausa na carreira do cineasta palestiniano e, de certo modo, vem justificar esse mesmo período de inatividade. A nova comédia de Suleiman pode não ser tão espetacular como “Intervenção Divina” ou ter a mesma qualidade calcinante da “Crónica de Um Desaparecimento”, mas funciona como uma espécie de pedra de Roseta para a oeuvre do seu realizador. É um manifesto do artista que, no meio de um universo alienante, decide mirar a graça do mundano e não se perder no desespero e feiura da Humanidade.

À boa moda de Suleiman, o filme é uma coleção de observações, algumas delas cruéis, a maioria absurda. Tudo começa com um episódio de grotesco religioso, quando uma procissão cristã é bloqueada de entrar na igreja por uns bêbedos que nunca vemos. A isso se segue a ação violenta de um padre, uns gestos de montagem que transbordam ironia e efeitos sonoros bem sugestivos. A câmara de Suleiman tudo filma com distância e precisão, privilegiando composições geométricas e encenações elaboradas, movimentos simétricos e a repetição cómica. Formalmente, estamos na presença de um mestre. Tonalmente, o nosso guia é um bobo melancólico.

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Apesar do seu gosto por simetrias e parelhas espelhadas, Suleiman divide a sua mais recente brincadeira em três atos distintos. O primeiro encontra este Jacques Tati de Nazaré a interpretar-se a si mesmo no seu país de residência. A Palestina de Suleiman é um palco de ressentimentos e loucura, com polícias violentos e discussões notívagas entre familiares alcoolizados. Nos restaurantes desdobram-se farsas com israelitas conservadores e molhos amargos, nas ruas deambulam velhotes com histórias tresloucadas de cobras capazes de encher um pneu com o poder do sopro. Trata-se de um quadro com um pé no grotesco e outro no desespero, mas tudo depende da direção para qual se orienta o olhar da câmara e do espectador.

O mesmo padrão se repete, até depois do cineasta apanhar um avião para Paris. Aí há muita fortuna, mas também há o absurdo da violência e o ridículo de uma sociedade perdida entre progressismos afetados e nacionalismos virulentos. Por um lado, as ruas são passerelles e restaurantes de luxo. Por outro, são o cenário de desfiles militares e a pista de corridas feitas por polícias em Segways. Até as cadeiras em volta de uma fonte dão azo a um ballet de mesquinhez humana, tão divertido como ácido. Nova Iorque, o terceiro destino de Suleiman, também é apresentado assim. Há beleza e há feiura, o ridículo é constante e o espectro da violência também se manifesta com grotescos absurdos que, no entanto, nunca ofuscam os instantes de graça.

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Nazaré, Paris e Nova Iorque, tão diferentes e tão semelhantes, consumidos pelo conflito e polvilhados por píncaros de graça. Comparar os três locais e chegar a tais conclusões pode parecer estranho, mas essa estranheza some quando encaramos a questão através do olhar de Suleiman. Quando um anjo de peito descoberto, pintado com a bandeira da Palestina, corre pelo Central Park com polícias no seu encalço, vemos o absurdismo do mundo moderno. Vemos a repressão e vemos o conflito sem fim, mas também vemos o humor e a poesia nos ritmos da sociedade que produz tal cena. Tudo depende de como e para onde olhas.

Numa imagem repetida, Suleiman posiciona-se a si mesmo num caminho ladeado por duas paisagens bem distintas. Se o cineasta se virar numa direção, confronta-se com uma montanha de cactos ameaçadores. Contudo, uma volta de 180 graus muda a pintura do sítio e enche a composição de oliveiras verdejantes. “It Must Be Heaven” aponta-nos os cactos, mas lembra-nos que não nos devemos perder nos seus ominosos picos. É muito mais prazeroso passear pelas oliveiras, pelas quais misteriosas mulheres caminham, suas saias a roçar o chão e os cabelos encaracolados ao descoberto. Encontrar o paraíso na Terra, não é ignorar os problemas existentes. É encontrar razão para lutar pelo futuro, para fazer cinema.

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Estas leituras politizadas são uma consequência incontornável da presença de Elia Suleiman nos créditos e em frente à câmara. Quer ele queira quer não, o realizador tornou-se um porta-voz artístico dos conflitos que assolam o seu país. Produtores internacionais querem dele o tipo de Arte militante que se esperaria do mais importante dos cineastas palestinianos, reduzindo a sua cultura e identidade a uma noção ocidental dos problemas do Médio Oriente. “It Must Be Heaven” aponta para estas questões, troça delas sem levantar a voz e depois cumpre as exigências em espírito sem as cumprir na prática. Ele faz um manifesto, mas prefere usar a imagem tão insuflada de significado que a palavra se torna obsoleta. É um manifesto sem discurso, uma comédia sem gargalhadas.

Ao invés de gritar em fúria, “It Must Be Heaven” prefere o esboço de um esgar sardónico. Suas mensagens são expostas com brutidão e, ocasionalmente, com pouca nuance. O humor de Suleiman tanto dá para interlúdios líricos e delicados com um tipo de bizarria bruta e demasiado óbvia para funcionar. O uso de alguma magia digital é particularmente má e revela os limites humorísticos do filme. Enfim, “It Must Be Heaven” parece modesto, mas não é. É ambicioso e arriscado, por vezes descamba no fracasso, mas tudo faz com convicção e leveza. No final, Suleiman volta à Palestina e, depois de hora e meia de expressões ambíguas, deixa-nos com um sorriso clarividente. Ele sorri face à juventude que é dona do futuro. Otimista até ao fim e encantado, é quase como se Suleiman nos pedisse que, enquanto audiência, sorríamos também.

It Must Be Heaven, em análise
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Movie title: It Must Be Heaven

Date published: 2019-11-17

Director(s): Elia Suleiman

Actor(s): Elia Suleiman, Ali Suliman, Gael García Bernal, Kwasi Songui, Grègoire Colin, Holden Wong, Vincent Maraval, Robert Higden, Alain Dahan

Genre: Comédia, 2019, 97 min

  • Cláudio Alves - 75
  • José Vieira Mendes - 80
78

CONCLUSÃO:

“It Must Be Heaven” é o raro exemplo de cinema político moderno que vira as costas ao desespero total em prol do otimismo e do humor sardónico. Depois de uma década sem uma única longa-metragem a seu nome, Elia Suleiman volta à ribalta com o mais doce dos seus trabalhos.

O MELHOR: O ballet dos bancos de jardim, a corrida das Segways sincronizadas e os afazeres idiossincráticos de uma empregada de limpeza num atelier parisiense.

O PIOR: Algum do humor na secção americana do filme resvala para um registo demasiado caricato. Suleiman sempre trabalha melhor quando extrai a comédia da coreografia mundana da vida quotidiana.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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