"Violeta" | © APM - Actions Per Minute

LEFFEST ’19 | Violeta, em análise

Em 2017, Kantemir Balagov ganhou a competição do LEFFEST com o seu prodigioso “Tesnota”. Dois anos depois, ele regressa ao festival com um filme ainda melhor e mais impiedoso, “Violeta”.

Este ano, Elia Suleiman já nos veio mostrar que é possível encontrar o paraíso na vida mundana, mesmo no meio da guerra perpétua. Tal otimismo existe em oposição ao cinema de Kantemir Balagov. Esse jovem cineasta, cujo mais recente filme é o candidato russo aos Óscares, tem-se vindo a especializar em retratos do Inferno na Terra, gestos cruéis que são tão mais dolorosos pela empatia que ele concede às suas personagens. Na primeira longa-metragem de Balagov, uma Geórgia assolada por conflitos étnicos era como um Purgatório penoso. Em “Violeta”, seu segundo filme, a Rússia no rescaldo da 2ª Guerra Mundial há muito saltou do Limbo para os píncaros do Inferno. Aí, cada gota de felicidade vem seguida de um tsunami de dor e a Humanidade perdeu controlo de tudo, até dos seus corpos esquálidos e mentes febris.

É num Leninegrado arruinado de 1945 que o filme começa, a negrura do ecrã preto rasgada por sons indefinidos. Ouve-se algo gutural e desesperado, como um animal nos últimos sopros de morte, mas a besta moribunda é uma mulher e a bênção da Morte ainda está longe. Iya é um caco humano, arruinada pelo trauma de guerra que a tornou suscetível a episódios de paralisia total. Os sons que nos introduzem ao universo de “Violeta” são o que arranha a garganta desta mulher quando o seu corpo se congela e a prende como uma estátua de carne trémula. O filme começa com o sofrimento da paralisia patológica e, daí para a frente, a experiência do espectador e das personagens só se vai tornar mais desconfortável e tortuosa.

violeta critica leffest
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Quando a conhecemos, rígida e guinchante, Iya está no seu trabalho num hospital recheado de soldados desfeitos. Todos os que percorrem os corredores do edifício são como espectros, uma névoa de dor a irradiar do seu ser. Médicos miram as fotografias de filhos pequenos que morreram à fome, enfermeiras ponderam a legitimidade da eutanásia e pacientes desejam a morte mesmo quando tentam esconder o desespero por detrás de piadas charmosas e otimismo oco. Mais do que todos eles, Iya realmente parece um espírito, seu corpo um pesadelo de brancura gélida e membros esticados pela altura desmesurada. Só os sorrisos que lhe pintam a cara lhe tiram essa aparência de um cadáver emaciado a ser puxado por fios de marioneta invisíveis.

A fonte desses sorrisos calorosos é o menino a que Iya dedica os seus dias. Ao vê-lo, até o mais soturno dos soldados amputados se parece alegrar. Ele é prova que há futuro, que há vida e esperança neste inferno sem aparente fim. Como uma margarida que nasce por entre as fendas do alcatrão, esta criança parece estar desamparada num ambiente inóspito, mas a beleza da sua presença é um raio de luz e cor. Numa das sequências mais belas da película, Iya leva o filho consigo num dia de trabalho e os pacientes divertem-se com um jogo de charadas, tentando ensinar os nomes dos animais a um menino que nunca viu um cão na vida. Afinal, todos eles foram comidos durante a guerra.

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“Violeta” é um jogo de observação, mas tem uma estrutura narrativa concreta. Ela é despoletada pelo evento mais transtornante de todo o filme, uma facada no coração do espectador que ameaça catapultar o projeto para um panorama de miséria gratuita. Contudo, por muito impiedoso que Balagov seja, ele não é insensível ou desumano. Quando Iya sufoca o filho devido a um episódio de paralisia descontrolada, o momento tira-nos o fôlego e faz-nos chorar, mas não elabora pornografia lacrimosa desta tragédia. Uma mão trémula que, de repente, para de tremer é suficiente. O olhar vazio de Iya nos dias que se seguem à desgraça conta-nos tudo o que precisamos de saber.

Isso e o silêncio aterrorizado que a assola quando Masha chega a casa. Ela é a mãe do menino, uma soldada transfigurada pela guerra numa agente de caos e descontrolada violência. Ela vem em busca do filho, mas encontra a sua amiga sozinha, sem o menino e sem esperança. Não demora muito até que Masha arraste Iya para as ruas da cidade, decidida a encontrar algum jovem que a fecunde com nova vida. Tais tentativas são fúteis, pois as feridas do campo de batalha fizeram de Masha infértil. Iya, pelo contrário, tem o ventre capaz de dar um filho à amiga, lançando os dados no que é uma horrenda brincadeira de manipulação e negociações emocionais. O amor entre as mulheres é tóxico e é ambrósia, é a razão para viver e a vontade de morrer fundidos num miasma inglório.

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Quando o mundo deixa de fazer sentido, o ser humano procura o controlo. “Violeta” é o conto de pessoas que já não têm qualquer autonomia e tentam a todo o custo mentir a si mesmas na esperança de atenuar a dor de uma existência sem sentido. O limite mínimo é o corpo, a clausura material que nos dá forma e que devia ser uma extensão da vontade, mas tantas vezes não é. O modo como a câmara de Bagalov perscruta a fisicalidade ensandecida e deformada das suas protagonistas é lacerante e iluminante também, o seu génio nascido do modo como o olhar afiado tem espaço para expressar gentileza além de dor. A guerra pela autonomia nunca cessa, mas há instantes de paz. Um abraço de duas almas perdidas, um beijo pela vida, o rodopiar de um corpo magro coberto por uma saia vaporosa. Essa beleza é necessária para completar o estudo da dor e para dar Humanidade ao suplício de “Violeta”.

Trata-se de um filme feito de contrastes peculiares, de transcendência emocional, da visceralidade de mãos dadas com o primor formalista. Além de ser um mestre do grande plano e dos corpos perdidos no espaço, Bagalov também aqui se afirma um evocador magistral do passado histórico. A Leninegrado do filme é um labirinto de paredes texturadas por palimpsestos de tinta lascada e bolor escuro, verdes tóxicos em harmonia com vermelhos sanguíneos e o calor do âmbar. São visões que transfiguram o feio no sonho, que sugerem autenticidade factual ao mesmo tempo que inspiram devaneios oníricos, que esculpem o horror em algo maior que a tortura de carcaças magoadas. “Violeta” dói e faz sangrar, mas da dor se chega ao Éden da Arte como expressão das verdades humanas tão profundas que ninguém as consegue resumir com a palavra sucinta.

Violeta, em análise
violeta critica leffest

Movie title: Dylda

Date published: 2019-11-17

Director(s): Kantemir Balagov

Actor(s): Elia Suleiman, Ali Suliman, Gael García Bernal, Kwasi Songui, Grègoire Colin, Holden Wong, Vincent Maraval, Robert Higden, Alain Dahan

Genre: Drama, 2019, 130 min

  • Cláudio Alves - 95
  • Maggie Silva - 85
90

CONCLUSÃO:

“Violeta” é um trabalho tão magistral quanto lacerante, um estudo do apocalipse que a guerra faz abater sobre a Humanidade e a resiliência que permite a perpetuação da vida. Trata-se de um poema da Morte a cantar o elogio da Vida, um quadro de corpos paralisados e mentes descontroladas, uma escultura da monstruosidade a que o ser humano tem de recorrer para sobreviver. O filme é um beijo violento e é um abraço desesperado.

O MELHOR: O verde e o vermelho, a palidez fantasmagórica e a dor que brilha nos olhos de Viktoria Miroshnichenko. O frio que se sente ao ver o filme e o modo como Vasilisa Perelygina se torna numa personificação da loucura que vem após o apocalipse bélico.

O PIOR: A dor que fere o espetador. É algo que pode ser maravilhoso, mas não deixa de fazer sofrer.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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