ArteKino | John From, em análise

Em John From, o realizador João Nicolau captura, em 16mm, a efemeridade jubilante de um Verão na vida de uma adolescente inebriada pela doçura de um primeiro amor.

john from artekino joão nicolau

No cinema contemporâneo, com especial ênfase no panorama independente, dois conceitos são regularmente explorados em conjunto por uma miríade de diferentes cineastas. Falamos, pois claro, do Verão e da juventude, uma combinação bastante óbvia e repetida, mas não por isso fácil de retratar no cinema sem se cair ora no cliché, ora num problema muito mais comum, a incompetência. Não querendo ser injustamente cruel, a grande maioria dos cineastas que se propõe a retratar vidas e perspetivas adolescentes no seu cinema, tende a aplicar a essas histórias uma perspetiva claramente adulta, ou mesmo em posição de julgamento, alienando a audiência dos sujeitos ou criando uma visão artificial que nada tem de empática ou verosímil. Evidentemente, tais abordagens por vezes resultam em grandes triunfos, mas a mediocridade é o resultado habitual.

Tudo isto para introduzir John From de João Nicolau, um filme onde o cineasta português nunca se coloca numa posição distante ou superior à sua protagonista adolescente. Pelo contrário, toda a obra parece existir no foro da mente adolescente, imatura e ainda com vislumbres da fértil e mágica imaginação infantil. Assim, Nicolau consegue aqui um delicado triunfo, o de capturar dois conceitos que, pela sua natureza, se referem a fenómenos e fases passageiras e intrinsecamente efémeras das nossas vidas.

john from artekino joão nicolau

Tentando ser um pouco mais concretos, narrativamente falando, permitam-nos a apresentação da jovem protagonista, Rita. Ela é uma jovem lisboeta de 15 anos que vive em Telheiras com os seus pais, num complexo de apartamentos onde também vive uma querida amiga sua, Sara. Juntas, ou sozinhas, elas passam o Verão lento, lânguido e aborrecido, passando as tardes a apanhar sol na varanda e as noites em festas de seus conhecidos. Nunca nos desviamos muito da sua companhia, sendo que os adultos, ou pelo menos os pais, são apenas presenças passageiras, quase como fantasmas que deambulam sem grande efeito pelo mundo cheio de letárgica juventude destas adolescentes.

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Mas John From não é somente uma pintura fílmica sobre os ritmos entediantes de uma jovem sem nada para fazer durante o Verão. Na verdade, esta é a história do primeiro amor de Rita, cuja atenção é invariavelmente atraída para um novo vizinho que acaba de chegar aos apartamentos das Telheiras. Ele é Filipe, um homem mais velho que até já tem filha, mas que se mostra uma figura de mistério para Rita quando ela vai descobrindo mais sobre as suas antigas aventuras como um fotógrafo no sul do Pacífico. Poder-se-ia mesmo dizer que é quando ela vê uma pequena exposição do seu trabalho no centro cultural do bairro que ela se apaixona, tanto pelo fotógrafo como pelos mundos retratados nas suas fotografias, nomeadamente a Melanésia.

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Guiada pelo fulgor da sua paixão e pela imaturidade da sua imaginação, Rita vai criando cenários quase sobrenaturais na sua cabeça, e, como estamos sempre a ver o mundo através dos seus olhos, é também essa realidade irreal que nós experienciamos. A praia que, no início de John From, vimos Rita criar a partir de uma varanda inundada vai-se tornando mais detalhada, mas não por isso menos artificial. As cores do mundo físico vão-se tornando cada vez mais intensas, a música ganha sonoridade exótica e as fantasias de Rita vão-se intensificando, até que a selva chega a Telheiras.

Tudo isto evita cair na abjeta incoerência estilística pois Nicolau tem mantido, desde o inócuo começo deste filme, um absoluto controlo sobre toda a forma do seu exercício. Para começar, temos a magistral fotografia de Mário Castanheira que captura toda a intriga em 16mm que enchem a imagem de grão e lhe conferem um aspeto tão grosseiro como intemporal e sonhador. As cores vibram na tela com uma força assombrosa, com os detalhes mais simples e banais a ganharem um poder visual inesperado, como o interior de um elevador e seu contraste berrante com as chamas de cabelo ruivo na cabeça de Sara.

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Mas a captura de magia na banalidade do quotidiano lisboeta não se resume simplesmente às gloriosas escolhas fotográficas, há que também salientar outros pontos. Já anteriormente se referiu a música e sua crescente implementação de exotismos sinfónicos nas suas composições, mas há que também referir a precisa e inspirada escolha de canções. De modo semelhante, os figurinos e cenários vão ganhando toques de magia e exotismo à medida que o filme avança, mas nunca nada demasiado complexo que não pareça ter germinado da mente de uma adolescente com tempo a mais nas mãos. A montagem também contribui imenso para a atmosfera sonhadora do filme, com dissolves a marcarem assídua presença e os momentos a se distenderem no tempo como tinta que se desvanece na água ou fumo que se dissipa no ar quente de uma tarde de Verão.

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Em resumo, John From é um filme que vibra com a imaturidade das suas personagens, tanto a nível formal como narrativo, mas que, para seu grande benefício, nunca se propõe a examinar de modo distante as suas escolhas e atitudes. Veja-se, por exemplo, como Nicolau nunca explora o lado mais psicologicamente preocupante da fixação de Rita com o seu vizinho, como muitos outros cineastas certamente fariam. Para certas audiências, isso será uma fragilidade do filme mas, ao recusar julgar esta jovem, o filme consegue estabelecer uma necessária e preciosa cumplicidade com ela, o que permite que, quando ocorrem momentos tão mágicos como um carro sem condutor que emerge, qual D. Sebastião, do nevoeiro, o espetador simplesmente se deixe levar pelas fluidas correntes da inocente imaginação da sua protagonista.

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O MELHOR: A fotografia, suas cores garridas que pintam o quotidiano com uma pátina de magia e o modo como o sol de Verão é capturado em toda a sua calorosa e doirada glória.

O PIOR: O grande contraste entre os jovens atores amadores e os adultos profissionais, assim como duração demasiado longa que acaba por resultar em ocasiões de enfadonha repetição.


 

Título Original: John From
Realizador:  João Nicolau
Elenco: Julia Palha, Clara Riedenstein, Filipe Vargas, Adriano Luz, Leonor Silveira

ArteKino | Drama | 2015 | 100 min

john from artekino joão nicolau

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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