Jonathan Bellés, realizador de "The Dawn of Kaiju Eiga" no Japão © 451 Producciones

The Dawn of Kaiju Eiga | Entrevista exclusiva a Jonathan Bellés

Jonathan Bellés, realizador do documentário “The Dawn of Kaiju Eiga” falou com a Magazine.HD sobre Godzilla e o legado do subgénero japonês. 

Hoje em dia, quando ouvimos falar do cinema de monstros associamos imediatamente a uma produção blockbuster norte-americana, cujo principal intuito é entreter as massivas audiências espalhadas pelos diferentes continentes. Vamos ao cinema (esqueçamos por um momento a pandemia Covid-19) e compramos um balde cheio de pipocas para que durante duas horas desfrutemos de monstros como xenomorfos, gorilas ou lagartos gigantes a levantarem pelos ares veículos e apartamentos, a massacrarem seres humanos e a destruírem cidades inteiras sem dó nem piedade.

De facto, o cinema fantástico de monstros conquista os espectadores, mesmo desde os tempos em que George Méliès e os seus followers adaptavam as obras de Júlio Verne para contar histórias sobre mitos e lendas que atormentavam a humanidade. A partir daí, alicerçado na evolução dos efeitos e técnicas visuais, o cinema de monstros ganhou força. Se os estúdios em Hollywood viam-no como uma fácil maneira de fazer dinheiro e garantir o entretenimento dos públicos, noutros países como o Japão, a temática começava a ser uma forma de abordar metaforicamente as sequelas de destruição provocadas pelas bombas atómicas, assim como medo da Guerra Fria e de um novo ataque contra a nação oriental.

Foi então que em 1952, após o bem sucedido relançamento do americano “King Kong” (1933) no Japão – filme americano da RKO que redefiniu as técnicas do espectáculo na transição do cinema mudo para o sonoro -, que o realizador Ishirō Honda, o produtor Tomoyuki Tanaka e outros célebres nomes dos estúdios Toho encontraram alguma inspiração para o desenvolvimento de Godzilla.

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Godzilla no primeiro filme de 1954 “O Monstro do Oceano Pacífico” © Toho Co. Ltd.

Lembremo-nos que Godzilla, o primeiro dos monstros do cinema japonês, espécie de dinossauro com um corpo de baleia e gorila, despertava com poderes assombrosos em resultado da radiação emitida em Hiroshima e em Nagasaki, as cidades devastadas pelas bombas atómicas lançadas pelos Estados Unidos em 1945. O êxito de “Godzilla” junto das audiências foi imediato e, se por um lado, representava o terror face à destruição massiva, também permitiu aos japoneses libertarem-se, de alguma maneira, dos traumas provocados pela Segunda Grande Guerra.

Godzilla afinal é a representação da sobrevivente nação japonesa e das suas cicatrizes físicas e psicológicas. Apesar dos EUA terem apresentado a sua primeira, de muitas versões, em 1956, continuaram a ser os estúdios japoneses a fazer crescer o subgénero do kaiju eiga e o universo Godzilla. São mais de 50 anos com Godzilla, Mothra, Gamera, Rodan, King Ghidorah e Anguilas, e outras séries de gigantes monstruosos.

Entre os fãs de Godzilla encontramos o cineasta espanhol Jonathan Bellés. Nascido em Castellón de la Plana em 1988, Bellés tem dedicado grande parte da sua vida ao monstro, ícone da cultura popular. Desde miúdo é apaixonado pela figura e, enquanto estudante universitário teve o privilégio de investigar mais sobre o kaiju eiga no seu doutoramento em Belas Artes, na Universidade Politécnica de Valência. Com a tese veio também a paixão por tornar o seu texto em algo visual. Aproveitando o nascimento da sua produtora Producciones 451, Bellés teve a ideia para “The Dawn of Kaiju Eiga“, um documentário que homenageia Godzilla.

Godzilla
Esboço do Godzilla no flop de 1998 de Roland Emmerich © Centropolis Film Productions

A aventura arriscada começou em 2012, e incluiu uma viagem até ao Japão, para entrevistar os especialistas no universo Godzilla. Jonathan Bellés teve a sorte de contactar também com as personalidades responsáveis por levar Godzilla ao grande ecrã, entre elas, Akira Takarada – ator de “Godzilla” (1954) -, Masaaki Tezuka – realizador de vários filmes da série -, Haruo Nakajima, ator que interpretou o próprio Godzilla entre 1954 a 1972 – ou Koichi Kawakita – um dos mais respeitados diretores de efeitos especiais que trabalhou em vários filmes de Godzilla. Jonathan Bellés fez do seu imaginário realidade, retratando o legado do monstro não só no Japão, mas também em Espanha, onde falou com o diretor do Festival de Cinema de Sitges Ángel Sala e Raúl Fortes, professor de Língua e Cultura Japonesa no Instituto Confucio da Universidade de Valência, e especialista em cinema japonês.

The Dawn of Kaiju Eiga” tem vindo a ser exibido em diferentes festivais de cinema como o Manga Barcelona, o Nocturna – Festival Internacional de Cinema Fantástico de Madrid ou Indie Visions Film Festival nos Estados Unidos. Na nossa conversa, Jonathan Bellés revelou estar interessado em estrear o seu documentário nas salas de cinema portuguesas. Apesar de isso não ser ainda possível, em breve, teremos a possibilidade de assisti-lo na Prime Video e na AppleTV+.

Enfim, o documentário é uma peça chave para entender Godzilla, os filmes em que apareceu e as memórias culturais que criou. Se em obras como a hollywoodesca produção “Godzilla II: O Rei dos Monstros” (Michael Dougherty, 2019), esquecemos as suas origens devido aos estrondosos efeitos sonoros e visuais, o documentário de Jonathan Bellés, mostra o monstro como deve ser visto, e recorda-nos que a história de Godzilla é também a história de vários homens e mulheres dedicados ao kaiju eiga e a consolidação das memórias de um país, que ainda hoje sente as consequências desastrosas da energia nuclear.

Trailer de The Dawn of Kaiju Eiga

MHD: Podes contar-nos como nasceu a tua paixão pelo universo e pelos temas de Godzilla, histórica e socialmente tão relevantes?

JB: A primeira vez que ouvi falar de Godzilla tinha 8 anos, quando uma grande amiga da minha mãe me perguntou “sabes quem é Godzilla?”. Obviamente abanei a cabeça e ela respondeu “irá encantar-te, é um monstro gigante, que esmaga tudo”. Esse foi o princípio de tudo, até que um dia vi na revista TP que dois filmes iam ser emitidos pelo Canal Palomitas, via satélite digital: precisamente “Godzilla Contra King Ghidorah” (1991) e “Godzilla e Mothra” (1992). Tive que pedir a um amigo que os gravasse em VHS, uma vez que naquele momento não tinha televisão por cabo.

Mesmo naquela altura, muito antes de Godzilla entrar na minha vida, sentia-me atraído por filmes de catástrofes como “Terramoto” (1974), ou o filmes de dinossauros “O Vale de Gwangi” (1969). Contudo, quando por fim assisti aos dois filmes de Godzilla que mencionei antes, os elementos como “dinossauro” e a “destruição urbana” pareciam reunir-se numa só cena. Senti algo intenso e entre vários fatores gostaria de destacar o método aplicado para a realização destas películas, os kaiju eiga, a base de maquetas e os homens disfarçados. Ou seja, para dizer a verdade foi o trabalho artesanal o que mais me atraiu.

The Dawn of Kaiju Eiga é uma produção independente que contava com um recurso essencial: a minha paixão pelo kaiju eiga.

Há também que destacar que, desde pequeno, antes mesmo do cinema, as minhas maiores paixões eram o desenho e a pintura a óleo. Por isso, assistir a estes filmes com maquetas feitas de cartão, foi determinante na hora de escolher a realização audiovisual como a minha profissão. Além disso, algo que deixou uma marca inapagável depois de ver “Godzilla Contra King Ghidorah” (1991) e “Godzilla e Mothra” (1992) foi a sensação de caos e descontrolo gerado com a presença do monstro no espaço urbano. A impotência dos governantes políticos, assim como a frustração dos exércitos transmitiram-me a sensação de libertação. Godzilla é um monstro como o qual te podes libertar, ao observar como a nossa civilização pode ser destruída apenas com a sua presença.

MHD: Antes de rodares “The Dawn of Kaiju Eiga” já tinhas escrito sobre Godzilla e sobre o subgénero Kaiju Eiga? De que forma, acreditas que para rodar um filme, um realizador tem que estar pessoalmente vinculado às suas temáticas?

JB: Desde o momento que entendi a mensagem e o simbolismo que envolve a personagem Godzilla e o seu primeiro filme, dedico-me à redação de textos e ideias sobre as minhas próprias conclusões. Devo fazê-lo, mais ou menos, desde 2005. Toda a questão do medo da bomba atómica e as suas consequências sobre a Humanidade marcaram-me muito. Na realidade, um dos artigos que acabo de publicar para uma revista andaluz é sobre as séries de filmes tokusatsu. Além disso, não só escrevi sobre os monstros, como também desenhei-os, como é possível observar na respetiva publicação.

Sobre a vinculação de um realizador aos temas…. acredito que se estão harmonizados contigo de alguma forma emocional tudo resultará melhor. Pelo menos é assim que o vejo, consoante a minha experiência. Se eu não tivesse qualquer devoção ao cinema de kaiju eiga, provavelmente não teria investido tantos anos e dinheiro neste documentário.

filmes na tv
Um dos Godzilla americanos, no filme de Gareth Edwards de 2014 | © Warner Bros.

MHD: Para a rodagem deste documentário viajaste até ao Japão com alguma equipa? Como foram suportadas as despesas relacionadas com as viagens e afins?

JB: Tenho que admitir que fui sozinho até ao Japão. Esta é uma produção independente que contava com um recurso essencial: a minha paixão pelo kaiju eiga. Em termos de financiamento, o documentário foi produzido única e exclusivamente com capital privado, tantos fundos próprios, como apoios de amigos mais chegados e da minha família.

MHD: Quando tempo demorou a rodagem de “The Dawn Kaiju Eiga”? Foi uma tarefa difícil?

JB: Em 2009, durante os meus anos em Belas Artes pensei realizar um programa de doutoramento e investigação sobre os kaiju eiga, mas só em 2012 é que matriculei no programa e comecei, em pleno, os trabalhos. A ideia de ir até ao Japão chegou mais tarde. Para mim, era uma fantasia que, pouco a pouco, tomou forma quando o meu orientador me disse “só aceitarei ser ter orientador se vais ao Japão investigar”. Dito e feito.

A nível fílmico, acredito que Godzilla tem uma mensagem bastante poderosa, por isso teve tanto êxito a nível mundial. Esta mensagem, embora tenha 65 anos de idade, estará vigente até a Humanidade tenha cessado a utilização do seu armamento termonuclear.

Antes mesmo da viagem, iniciei a rodagem do filme com as primeiras entrevistas que começaram em dezembro de 2012 em Barcelona, quando o diretor do Festival de Cinema de Sitges, Ángel Sala, aceitou ser entrevistado. Depois, fiz entrevistas em Espanha, entre 2012 e 2013 onde passei por Valência, Alicante e mesmo Madrid. Comecei a trabalhar nas primeiras versões do argumento, e nos trabalhos mais pertinentes da produção, como começar a contactar com aqueles que seriam os entrevistados japoneses.

Honestamente, quando cheguei ao Japão em 2014, nem sequer falava muito bem inglês, para já não falar do meu nível de japonês, que naquela altura era inexistente. Daniel Aguilar foi uma peça chave para o desenvolvimento das entrevistas no Japão, assim como para as traduções das respostas para o castelhano. Outro dos tradutores imprescindíveis para “The Dawn of Kaiju Eiga” foi David Muñoz. Graças a ambos, conseguiu mover-me com destreza pelo território japonês. Já bastante peso às costas tinha eu, com 40 quilos de material que trouxe comigo para as gravações (entre a câmara, tripés, objetivas, um slide de 1,20m, etc.).

A comunicação entre nós foi excelente e as entrevistas, muitas vezes, decorriam no mesmo quarto do hotel em Tóquio, que os entrevistados acudiam em intervalos de 60 minutos, com tempo de montagem da câmara de apenas 15 minutos. Embora no documentário acredito que não se notem, 10 das entrevistas foram feitas no mesmo quarto. As restantes foram feitas em diferentes cidades japonesas como Hiroshima e Osaka.

Demorei, aproximadamente, um ano para conseguir terminar todas as entrevistas, que inicialmente seriam apenas oito. No entanto, uma vez sobre terreno, comecei a perguntar aos entrevistados como poderia contactar com outras pessoas para entrevistar. Resultou que saí do Japão com 22 entrevistas, atingindo um objetivo pessoal! Sobre o tempo que necessitei, posso dizer que fui ao Japão sem bilhete de volta com o intuito de sair dali só quando tivesse todas as entrevistas. Fiquei no Japão durante todo o mês de fevereiro de 2014. No total, a produção de “The Dawn of Kaiju Eiga” demorou quase 8 anos, entre 2012 e 2019.

MHD: Apesar do trabalho tão árduo, acredito que tenhas memórias divertidas sobre a rodagem… Quais são os episódios mais anedóticos que vivenciaste? 

JB: Sim.. em relação às memórias divertidas, recordo-me sempre de duas, ambas durante a entrevista a Akira Takarada. A primeira, quando uma das objetivas caiu ao chão, e antes que me desse conta, Takarada já se tinha levantado para colocá-la no seu sítio. A segunda resulta que, durante o mês de fevereiro de 2014, Tóquio estava a ultrapassar o seu pior nevão desde 1988… A cidade estava completamente branca, não se podia ver nada, nem mesmo a poucos metros, e o frio era brutal. Foi então que o senhor Takarada ofereceu-se para dar-nos boleia até à estação de comboio. Disse que não nos poderia deixar sair para a rua com aquela tempo. É uma pessoa, que apesar da sua idade, tem uma energia e carisma impressionantes. Para mim é a verdadeira definição de cavalheiro.

Jonathan Bellés
Akira Takarada, um dos mais respeitados atores japoneses participou em vários filmes sobre o monstro, como Godzilla (1954) e “Godzilla: Final Wars” (2004), obra que celebrou os 50 anos do primeiro filme, em entrevista no filme “The Dawn of Kaiju Eiga” © 451 Producciones

MHD: Como te sentiste ao filmar Akira Takarada, Koichi Kawakita ou Haruo Nakajima? Foi difícil chegar até estas personalidades tão conhecidas do cinema japonês? 

JB: Cheguei a alguns deles através redes sociais, outros através de contactos e outros através de managers artísticos. Não conheci o Haruo Nakajima no Japão, mas em Oberhausen na Alemanha em novembro de 2013, onde o ator participou numa conferência sobre a sua experiência no subgénero do kaiju eiga, durante a Weekend of Horrors. Enfim, conhecer lendas  japonesas, que eram os meus ídolos desde miúdo foi uma experiência inesquecível, e apesar de já terem passado seis anos desde a minha aventura no Japão, lembro-me com felicidade e admiração, de conhecer pessoas como Koichi Kawakita, Akira Takarada e Hauro Nakajima.

A maioria deles ficou surpreendida ao comprovar que um jovem de 25 anos, oriundo de uma país tão longínquo como Espanha, estivesse à frente de um documentário sobre Godzilla. Ficaram muito contentes quando dei a conhecer a minha paixão e o quanto haviam influenciado a minha carreira.

Akira Takarada é uma pessoa, que apesar da sua idade, tem uma energia e carisma impressionantes. Para mim é a verdadeira definição de cavalheiro.

MHD: Continuas a falar com algum destes artistas?

JB: Estabeleci uma bela relação de amizade com Akira Takarada, que perdura nos dias de hoje. Tive a sorte de estar com ele durante a estreia mundial do documentário que aconteceu em Tóquio em 2019, onde me ofereceu um dos seus pins de Godzilla, que levo sobre o meu blazer cada vez que apresento o meu filme. De certa maneira, posso continuar com este laço de amizade e ter o kaiju eiga perto de mim.

MHD: Após assistir o documentário, Akira Takarada, o ator do primeiro “Godzilla” de 1954, referiu que japoneses deveriam sentir-se envergonhados porque foi um espanhol a filmar uma história sobre o legado de Godzilla. Porque razão o terá dito? Certamente estará relacionado com o impacto mundial que as histórias sobre o monstro provocaram…

JB: Embora me tenha custado admiti-lo durante algum tempo, a personagem de Godzilla muda desde a sua segunda aparição em “Godzilla Contra-Ataca” (Motoyoshi Oda, 1955) e o mesmo acontece radicalmente em “King Kong vs. Godzilla” (Ishirō Honda, 1962). É bastante interessante analisar o contraste de filme para filme, em especial porque são sequelas.

Como sabemos, o primeiro Godzilla de 1954 representa toda essa asfixia do povo japonês marcado pela Segunda Guerra Mundial e pelas consequências das bombas atómicas. O realizador Ishirō Honda foi uma escolha acertada por parte do produtor Tomoyuki Tanaka, pois viveu a Segunda Guerra Mundial e testemunhou a destruição da bomba atómica em Hiroshima. Não obstante, toda essa forte crítica que envolve este filme, assim como a sua fotografia contrastada em preto e branco, esvanece-se na sequela “Godzilla Contra Ataca”. Este aposta, única e exclusivamente, no entretenimento no qual aparece o primeiro rival de Godzilla, e torna-se uma batalha de luta pela sobrevivência, no qual é o sentido primeiro do monstro é negado. O mesmo acontece em “King Kong vs. Godzilla”, mas aqui acresce-se o fator comédia.

A personagem adulterou-se desde 1955 até à sua última entrega na etapa Showa, em 1975. Apesar de Honda ter-se mostrado contra, foi uma decisão tomada pelos poderosos magnatas dos estúdios Toho e de Tomoyuki Tanaka, o que acabou por retirar o significado original e a razão de existência de Godzilla. Numa tentativa de dignificar novamente o monstro, Tanaka ainda produziria um novo filme em 1984. A obra parece retomar as origens, mas as sucessivas sequelas acabariam numa séries de filmes e aventuras que colocariam fim à segunda etapa do monstro em 1995.

A terceira etapa da saga encontramos o mesmo panorama. Uma série de filmes que pouca consideração tiveram pelas origens do monstro à excepção de “Godzilla, Mothra, King Ghidorah: Giant Monsters All-Out Attack” (Shusuke Kaneko, 2001). Depois chegaria finalmente o poderoso “Shin Godzilla” que estreou em 2016.

Jonathan Bellés
Jonathan Bellés com o reconhecido cineasta e argumentista japonês Kazuki Ohmori em “The Dawn of Kaiju Eiga” © 451 Producciones

No geral, valorizo a saga de Godzilla como uma série cinematográfica que reúne uma grande quantidade de elementos, na sua maioria, reflexos das contradições da sociedade japonesa, assim como da incursão e influência estado-unidense no Japão.

A nível fílmico, acredito que é uma saga com limitações – exceptuando “Godzilla” de 1954 e “Shin Godzilla”, de 2016 -, mas com uma mensagem bastante poderosa, por isso teve tanto êxito a nível mundial. Esta mensagem, embora tenha 65 anos de idade, estará vigente até a Humanidade tenha cessado a utilização do seu armamento termonuclear.

Vários anos passaram desde a estreia de Godzilla em 1954, e não houve nenhum outro filme de monstros que tenha alcançado a mesma importância que Godzilla. Nasceu num momento e no local indicado, e foi um êxito mesmo com os seus efeitos especiais rudimentares.

MHD: Criaram “Godzilla” para que os japoneses não esquecessem a destruição provocada pelas bombas atómicas. Acreditas que os realizadores de cinema vão continuar a fazer filmes com monstros, para que os espectadores não esqueçam a História e os seus episódios mais mortíferos, ou será que os efeitos visuais evoluíram tanto que a História já não é assim tão importante e os espectadores preferem esquecer os problemas?

JB: Os monstros têm sido uma das maneiras de contar os problemas ou crises da Humanidade. É assim que nos revela o nosso legado artístico. Por exemplo, ponho-me a pensar no maravilhoso quadro “O colosso” (1808-1812) ou, exceptuando os monstros, o famosíssimo quadro de Pablo Picasso “El guernica” (1937), onde a pintura é usada como maneira de expressar os horrores da sociedade. No cinema passa o mesmo, e Godzilla, como o próprio ator Akira Takarada reconheceu na sua entrevista para o filme, não existiria sem a bomba atómica.

De alguma maneira, consciente ou não, o que o produtor Tomoyuki Tanaka e o realizador Ishirō Honda alcançaram foi dar forma física ao horror que decorreu da utilização de armas termonucleares em 1945, e em anos subsequentes. A partir daí, radica o êxito e a populismo da personagem.

Vários anos passaram desde a estreia de Godzilla em 1954, e não houve nenhum outro filme de monstros que tenha alcançado a mesma importância que Godzilla. Nasceu num momento e no local indicado, e foi um êxito mesmo com os seus efeitos especiais rudimentares. O público não se importou, porque o que realmente lhe prendeu foi a mensagem.

Na minha opinião, os efeitos especiais deverão ser uma forma de ajudar a contar a história de um filme e não de estar, debaixo em cima da história… por muito bem que estejam feitos. Há que ter em conta que o cinema é filho do seu próprio tempo que caduca rapidamente, ainda mais agora em que a tecnologia avança vertiginosamente. Os filmes de Godzilla, nos dias de hoje, parecem ridículos quando comparados com o cinema atual, por isso há que ver os filmes como um legado, com uma certa perspetiva e entendo-los no contexto em que foram criados.

Jonathan Bellés
Os efeitos da Bomba Atómica de Hiroshima ainda são visíveis em alguns prédios japoneses © 451 Producciones

MHD: Gostarias de estrear o teu filme em Portugal? Alguns fãs de Godzilla, inclusive na própria equipa da Magazine.HD gostariam de assistir ao teu filme no grande ecrã…

JB: Gostaria imenso de apresentar “The Dawn of Kaiju Eiga” em Portugal! Seria uma honra e uma oportunidade para conhecer o vossos país. Infelizmente, até ao momento não tive nenhuma oferta a respeito disso. Estivemos trabalhando na possibilidade do filme estrear na Prime Video da Amazon.

Aliás, já se pode desfrutar do documentário nas plataformas Midnight Pulp e Asian Crush, mas por este momento, lamentavelmente, só se poderá assistir em território americano.

MHD: Como é que te sentes ao estrear um filme em streaming durante o estado de emergência vivido em Espanha? Acreditas que a situação provocada pela pandemia COVID-19 facilitará a distribuição de filmes?

JB: Para dizer a verdade é estranho. É uma situação bastante difícil e pouco usual àquilo que estamos habituados. Tudo ficou paralisado no nosso setor, inclusive rodagens e estreias nas salas de cinema. A pandemia está a afetar negativamente todo o mundo, e quanto à distribuição afetou em grande medidas as estreias tradicionais nas salas de cinema. No meu caso em particular, tínhamos previsto a apresentação de “The Dawn of Kaiju Eiga” em Paris, no próximo mês de julho, no âmbito do Japan Expo. No entanto, devido à Covid-19, o evento foi cancelado, assim como a projeção do meu documentário.

Mesmo assim, a distribuição em streaming não foi afetada pela crise, prova disso é que o documentário, mesmo sendo uma produção de baixo orçamento, conseguiu entrar no mercado e está prestes a ser lançada internacionalmente na Prime Video.

Jonathan Bellés
Godzilla em “Shin Gojira (2016)” © Toho Corporation

MHD: Tens visto algum cinema japonês durante a quarentena? Que filmes recomendas?

JB: Para dizer a verdade, nestes últimos meses os fãs de Godzilla e do kaiju eiga no geral estão com sorte. Nos Estados Unidos, algumas distribuidoras deste subgénero lançaram filmes em Blu-ray. Eu, em concreto, desfrutei do mais recente pack lançado pela prestigiosa Criterion que inclui os primeiros 15 filmes de Godzilla neste formato. Acredito que a tecnologia Bluray é a melhor maneira de ver filmes em casa.

A Mill Creek também lançou uns fabulosos packs da clássica série “Ultraman”, que adquiri e estou a desfrutar durante estes dias de isolamento. Na verdade, não sei quanto tempo mais durará esta situação, mas no mês de julho a Arrow lançará toda a série “Gamera” em Blu-ray que estou ansioso em adquirir. Por último, e falando dos kaiju eiga, recomendo-vos a assistir “Godzilla” (1954) e “Shin Godzilla” (2016), duas obras imprescindíveis do cinema japonês.

“The Dawn of Kaiju Eiga”, de Jonathan Bellés irá estrear em breve na Prime Video. Está atento à nossa página e às nossas redes sociais. Poderás também encontrar alguns dos filmes de Godzilla em DVD e Blu-Ray na FNAC

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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