King Richard © Cinemundo

King Richard: Para Além do Jogo, em análise

King Richard: Para Além do Jogo” é um tocante e inspirador drama biópico, que retrata a triunfante história das famosas irmãs Williams até ao estrelato nos courts de ténis. A jovem atriz Saniyya Sidney arrasa no papel de Venus, mas é Will Smith quem leva a caravana do sucesso às costas numa interpretação digna de um troféu de “Grand Slam”.

Quando falamos em metragens biográficas baseadas ou inspiradas em factos verídicos do mundo desportivo, aludimos a um tipo de filme que geralmente é bem acolhido pelo público e pela crítica, porque envolve sempre uma carga emocional muito própria e pessoal. E a história do cinema tem sido fértil em recriar algumas boas histórias com esse perfil de cariz oscariano, das que levam os seus intérpretes a mergulhar no poço da alma para trazer à tona um vulcão de emoções desfibrilhantes. Clássicos como “O Touro Enraivecido”, “O Furacão”, “The Blind Side” ou “Moneyball” têm ditado uma predileção da indústria por modalidades tipicamente americanas como o boxe ou o futebol americano, por isso é de enaltecer que um desporto tão europeu e milenar como o ténis, mereça agora o seu nicho de notoriedade. O privilégio coube ao relativamente desconhecido realizador nova-iorquino Reinaldo Marcus Green (Monsters and Man), que andava mortinho por colocar as mãos no guião adaptado pelo estreante Zach Baylin – já contratado para redigir o argumento do próximo “Creed”.

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Baylin, que é um confesso adepto do ténis, escreveu o primeiro rascunho do manuscrito de forma independente, sem qualquer contacto com a família Williams, a quem viria a solicitar uma colaboração ativa na produção da fita. Aliás, Venus e Serena constam na ficha de créditos como produtoras executivas. E o seu envolvimento foi crucial para Baylin dissecar os detalhes da sua infância, mas mais importante que isso, aclarar o papel dos pais no seu crescimento enquanto pessoas e atletas de alta competição, sobretudo o do patriarca Richard (Will Smith) como mentor e treinador das jovens prodígio. Numa entrevista com “Oprah Winfrey” em 2003, Serena refere-se ao pai com muita consideração e respeito, dizendo que “não lhe é dado o devido reconhecimento por nos ter ensinado a desenvolver o serviço mais poderoso do ténis feminino”. E é precisamente pelo inconvencional ângulo da parentalidade, que Reinaldo Green vai explanando a estóica imagem de um progenitor com princípios muito rígidos e metódicos, que se esfalfa dia e noite para concretizar o audacioso plano por ele delineado para o sucesso incontestável das suas filhas desportistas. Assim, é nessa tónica que Richard – qual urso de homem equipado a rigor com meias altas e uns calções mais pequenos que as suas pernas – faz as honras da casa a vender o seu prospecto aos melhores treinadores do ramo, com a esperança que algum invista tempo e dinheiro para que as suas meninas do gueto possam singrar num desporto de elite caucasiano.

King Richard Corpo
King Richard © Cinemundo

E Smith não podia vestir a pele de Richard com maior autoridade e eloquência, permitindo um acesso fiel e genuíno à pessoa que trabalhou nos bastidores para levar Venus e Serena ao topo do ténis mundial. Para este homem e ex-atleta a quem a vida não lhe concedera grandes abébias, ainda para mais com cinco a seu cargo num bairro problemático como o de Compton (Califórnia), Richard Williams calculou que só através de uma postura inflexível e disciplinadora conseguiria prepará-las para qualquer adversidade. Mas ele era a fortaleza que amparava o impacto de um conhecido ambiente hostil marcado pelas guerrilhas de gangues, que snifavam as duras sessões de treino das suas pupilas no court local. É aqui, que a incisiva filmografia de plano aberto de Marcus Green faz mais mossa nos nossos corações, especialmente nas cenas noturnas, adornando a dramaturgia dos abusos físicos a Richard e a violência nas ruas com um ténue mas espicaçante filtro de iluminação noir. Contudo, o argumento de Baylin não cai na tentação de esgravatar em demasia nesse terreno lúgubre que é meramente contextual, servindo mais como um catalisador para pelar a personalidade de Richard no seio familiar e na relação com os diversos agentes desportivos.

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Desde o jeito desengonçado de andar, ao sotaque “nigga” ajamaicado e belfo que Smith por vezes falseia enfaticamente, sem esquecer a teimosia desconcertantemente certa, o enredo vai nutrindo a personagem basilar de peculiaridades que ajudam a elevar o papelão de Will Smith como Richard Williams, quer na faceta como marido e educador, quer como gestor e empresário das carreiras de Venus e Serena. E nem de propósito, um dos momentos altos do filme acontece, quando Richard leva as duas futuras campeãs na sua furgoneta à academia Brentwood de Paul Cohen, interrompendo uma partida didática entre John McEnroe e Pete Sampras – na altura na casa dos vinte – para gáudio das duas irmãs tenistas. É um momento delicioso, ligeiramente desvirtuado da realidade, já que, de facto, Venus e Serena bateram umas bolas com as duas lendas do ténis, num momento posterior aquele que é retratado na longa-metragem de Reinaldo Green. De resto, a interação com os treinadores das suas filhas é um dos pratos fortes de “King Richard”, infundindo na trama uma âncora de novas dinâmicas argumentativas provocadoras, uma vez que Richard tentava imiscuir-se constantemente no seu trabalho com uma postura inteletualmente arrogante.

King Richard Corpo
King Richard © Cinemundo

O Sr. Cohen (Tony Goldwyn), que Richard insistia em relembrar às suas filhas para fazer a destrinça entre ele e o novo professor, alavanca na diplomática e sentida interpretação de Goldwyn, o primeiro formigueiro de divergências relativas ao percurso desportivo de Venus, que explodem todo o fervor e sagacidade competitiva com o espalhafatoso e carismático Rick Macci (Jon Bernthal) – o segundo técnico a orientar a primeira afro-americana a estrear-se no circuito profissional. E é num tom de pseudo-galhofa/seriedade intercalado por emocionantes recortes imagéticos das vitoriosas atuações de Venus nas competições de Júniores, que ambos vão esgrimindo opiniões sem nunca deixarem-se cair na energia dramática, encarrilando-se para aquele patamar mais próximo do “feel good movie”. Mas por muito que a entusiástica atuação de Bernthal eleve a dose humorística, não podemos negligenciar o papel equalizador da inconformada e combativa esposa de Richard, Oracene (Aunjanue Ellis), que vinca a sua presença confortando e confrontando o seu “daddy” tanto na sua desmedida coragem como no seu incurável machismo. No entanto, também há que atribuir uma série de louros à novata Saniyya Sidney (Vedações), que encanta a fazer de Venus, irradiando do olhar uma inocência e vulnerabilidade tão pura que é de embasbacar. Mais impressionante ainda, é que Saniyya é esquerdina, e por isso teve de aprender a manejar a raquete com a sua mão direita, tal como Venus, submetendo-se a um intensivo treino de ténis diário e muitas horas de vídeos para atingir em tempo recorde um nível de jogo minimamente equiparável ao da tenista.

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Assim, é com esta riqueza humana multidimensional e multigeracional que o guião de Baylin conquista vários sets a seu favor, mostrando o quão proativas foram as mulheres de Richard, fazendo justiça ao lema de que por detrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, neste caso seis para ser mais preciso. Numa cadência arrebitada com as “dunlop” a saltitar ao ritmo irreverente da mocidade, existe uma noção de verdade e autenticidade em toda a mise-en-scène que nos compele a torcer pela equipa Williams até ao fim, conectando-nos ao idolatrado slogan altruísta como o de que a união faz a força e ninguém vence sozinho. Contudo, pese embora a credibilidade do material na sua essência, fica a sensação de que o conteúdo é gerido com pinças no sentido de enobrecer Richard Williams, algo que até motivou duras críticas por parte da filha mais velha Sabrina Williams, que considerou o corte final da produção uma projeção romanceada do seu pai. Em sua defesa, talvez possamos dizer que a metragem de Reinaldo tenta ser menos julgadora e mais “crowd pleaser”, doseando os “dirty secrets” em prol do lado apaixonante do jogo, ainda que essa abordagem, embora coerente na sua globalidade, deixe no ar algumas arestas por limar.

King Richard Corpo
King Richard © Cinemundo

“King Richard: Para Além do Jogo” é um espirituoso e raçudo olhar inédito ao passado da dupla mais feroz e laureada da chamada era “Open”, que juntamente com Steffi Graf, partilha o feito de ter conquistado os quatro torneios do Grand Slam e uma medalha de ouro olímpica. Mas a longa-metragem de Reinaldo Marcus Green, mais do que uma homenagem ao seu legado, é uma carta de amor aos pais, sobretudo a Richard Williams, a quem Will Smith faz uma vénia pela genialidade de ter criado dois “Michael Jordans”. Nós fazemos uma a ele, que já venceu virtualmente o Óscar para melhor ator na casa das apostas…

Venus Williams: 49 títulos WTA
Serena Williams: 73 títulos WTA

Miguel Simão

King Richard: Para Além do Jogo | Em Análise
King Richard Póster

Movie title: King Richard (Em Exibição)

Movie description: Baseado numa história verídica que inspirará o mundo, “King Richard - Para Além do Jogo”, conta-nos a história de Richard Williams, um pai decidido em criar duas das atletas mais dotadas de todos os tempos, mudando o mundo do ténis para sempre. Will Smith, nomeado para 2 Óscares, é Richard Williams e impulsionado por uma visão clara do seu futuro e usando métodos não convencionais, tem um plano que levará Venus e Serena Williams das ruas de Compton, Califórnia, para o palco global como ícones lendários. É um filme profundamente comovente que mostra o poder da família, perseverança e crença inabalável como forma de alcançar o impossível e impactar o mundo.

Date published: 30 de November de 2021

Country: EUA

Duration: 2h24min

Author: Miguel Simão

Director(s): Reinaldo Marcus Green

Actor(s): Will Smith, Tony Goldwyn, Jon Bernthal, Kevin Dunn, Demi Singleton, Saniyya Sidney

Genre: Biografia, Drama, Desporto

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  • Miguel Simão - 95
  • Manuel São Bento - 90
93

CONCLUSÃO

“King Richard: Para Além do Jogo” é uma memorável incursão às origens desportivas de Venus e Serena Williams pela perspectiva parental, e por isso mesmo com uma carga dramática mais aligeirada para uma audiência familiar, o que não é necessariamente mau. Richard Williams, magistralmente interpretado por Will Smith, que terá realizado aqui uma das melhores interpretações da sua carreira, é o objeto de estudo desta história de superação, oferecendo-nos uma visão poderosamente intimista daquele que foi o maior obreiro por detrás do imenso sucesso das “power sisters” do ténis. A fita de Reinaldo Marcus Green denota muita alma e dedicação, não temendo pisar terrenos de vulnerabilidade emocional, que não deixaram ninguém indiferente…

“King Richard: Para Além do Jogo” é um forte candidato a melhor filme do ano! 🤞

Pros

  • Will Smith é brilhante
  • Saniyya Sidney é uma estrela
  • Argumento bem trabalhado
  • Belíssima cinematografia
  • Excelente edição de imagem

Cons

  • Will Smith exagera nos trejeitos linguísticos
  • Enredo com algumas pontas soltas
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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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