"La Llorona" | © MotelX

MOTELx ’20 | La Llorona, em análise

O cinema de terror costuma ser alegórico, mas raramente se predispõe a declarado comentário político. “La Llorona” quebra a tradição, oferecendo um pesadelo politizado da autoria de Jayro Bustamante. Trata-se de um dos melhores filmes do 14º MOTELx.

Com somente três longas-metragens produzidas, o realizador guatemalteco Jayro Bustamante já se afirma como um dos mais importantes cineastas da contemporaneidade. Sua obra de estreia, “Ixcanul” deslumbra com um melodrama familiar nos sopés de um vulcão, enquanto “Temblores” aborda o tema da religiosidade através da crise identitária e sexual. Seu mais recente trabalho, “La Llorona” é quiçá o seu mais ambicioso projeto até hoje. Aí, Bustamante dá novo uso ao modelo do terror e à iconografia folclórica da América Latina, distorcendo seus preceitos e convenções até chegar a um poema sobre o rescaldo do genocídio e sobre a culpa criminosa que sai impune.

Partindo de uma visão prismática da História da Guatemala, Bustamante invoca o fantasma do ditador Efraín Ríos Montt e as cicatrizes que o seu regime deixou na alma da nação. Aqui, esse criminoso é ficcionado na forma do General Enrique Monteverde, um presidente deposto que se encontra acusado de crimes contra a Humanidade, nomeadamente a sua mão no extermínio sistemático dos povos indígenas da América Central. Em inesquecíveis passagens no início de “La Llorona”, Bustamante estabelece-nos a situação do país e da família do monstro Monteverde com economia visual e um sentido visceral para o espetáculo do medo e da angústia.

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© MotelX

Em tableaux domésticos, vemos a dinastia do antigo presidente e militar em rígida pose, em prece e ansiedade. Embalsamados em privilégio, mas soturnos e entristecidos pelo seu novo fado tenebroso, eles parecem manequins dentro de um mausoléu luxuoso. Até o sol que entra pela janela se manifesta em luz fria, um branco mórbido que confere a palidez de cadáveres a todos os que a ele são expostos. Da serenidade de cadáveres vivos e ricos, Bustamante passa para um cenário muito diferente, longe do sol e do conforto daqueles que praticam genocídio, mas dormem em lençóis de seda sob candelabros de cristal.

Numa cena de tribunal, dezenas de mulheres indígenas aparecem cobertas com os véus bordados da sua cultura. Há um apelo à beleza da arte marginalizada de povos oprimidos, mas também um piscar de olho de Bustamante à clássica imagética do fantasma enquanto figura amorfa coberta com tecido. Estas mulheres são testemunhas de atrocidades, mas também são elas fantasmas pois o espírito morreu quando seus filhos foram mortos à frente delas, quando seus maridos desapareceram e os pais sucumbiram à pressão militar. Antes sequer do sobrenatural impor sua presença na história de “La Llorona”, já o realizador invocou um tom espiritual, onde uma nação enlutada dá voz e carne a fantasmas que procuram justiça. O espírito da Guatemala quer vingança.

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Somente essas duas cenas, essas duas imagens, seriam suficientes para declarar “La Llorona” como uma obra essencial para qualquer cinéfilo que se prese. Contudo, Bustamante não se fica só pela insinuação lírica em imagens simbólicas. Tal como as vítimas do genocídio e seus sobreviventes, ele está insuflado de fúria e o filme é um grito de raiva. Não admira, portanto, que a banda-sonora seja recheada de vozes em protesto, manifestações indignadas às portas do casarão Monteverde onde a família do ditador se resguarda depois do julgamento. Apesar do testemunho e da sentença, o General foge ao castigo e pode viver seus últimos dias enquanto homem doente e moribundo na companhia de uma família que o odeia. A enfermidade não é justiça suficiente, a Guatemala quer justiça e quer sangue. Nós também o queremos.

Por entre a muralha de protestos que circunda a casa, uma jovem rapariga de feições nativas corta pelo mar de gente. Ela é Alma, nova empregada dos Monteverde e uma figura quase sem diálogo. Não é preciso texto quando o olhar dela diz tudo o que precisamos de saber, sugerindo a recriminação do cosmos sobre este homem que se viu no direito de decidir quem vive e quem morre. Qual personificação do país e da Natureza, ela é um agoiro e uma ninfa, uma pessoa e um assombro. Só o General parece capaz de ver seu propósito real na casa, mas até sua família se vai apercebendo que algo estranho se passa. A mulher do ditador, por exemplo, começa a ter sonhos perturbadores onde está dentro da pele de outra mulher, uma dessas maias nativas que o marido matou sem dó nem piedade, que torturou e abusou.

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© MotelX

A linguagem formal de Bustamante é disciplinada e até um pouco rígida, cheia de composições cuidadas e uma paleta glacial. Contudo, isso compensa quando o argumento explode perto do clímax e “La Llorona” se atira de cabeça para dentro da piscina do terror puro e duro. Os fantasmas vêm à terra e seu choro é uma catedral de som que desmorona em cima dos Monteverde. É um castigo final que, apesar do horror, não é nem nunca será suficiente para apagar as cicatrizes e a perda, o luto da Guatemala. As deliberadas faltas de subtileza do guião vivem em harmonia com a forma cristalina, com as performances intensas do elenco e a intenção ativista do realizador. “La Llorona” é um filme de terror de um género incomum, um pesadelo político que extrai o seu maior medo das realidades da História do que do sobrenatural. De facto, neste conto tenebroso, a audiência está do lado dos fantasmas.

La Llorona, em análise
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Movie title: La Llorona

Date published: 12 de September de 2020

Director(s): Jayro Bustamante

Actor(s): María Mercedes Coroy, Sabrina De La Hoz, Margarita Kenéfic, Julio Diaz, María Telón, Juan Pablo Olyslager, Ayla-Elea Hurtado

Genre: Drama, Thriller , Terror, 2019, 97 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

História, política e terror unem forças em “La Llorona”, um demónio fílmico que grita contra um genocídio cujos criadores acabaram impunes. É cinema folclórico e politizado no seu melhor.

O MELHOR: A cena do julgamento e a chegada final dos espíritos sugeridos pelo título. O choro e os gritos de pais enlutados são algo difícil de esquecer, como parasitas sónicos que insistem em não largar a memória do espetador.

O PIOR: Os pesadelos da matriarca Monteverde nem sempre se unem de forma estável à narrativa principal. O “twist” do final é demasiado previsível por isso mesmo, um sublinhar desnecessário de uma ideia já claramente argumentada pelo resto da película.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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