Atlantis (2019) | © LEFFEST

LEFFEST ’19 | Atlantis, em análise

Na Competição da 13ª edição do LEFFEST, encontramos o ucraniano “Atlantis“, um drama realizado por Valentyn Vasyanovych. O filme passou por Toronto, e antes disso por Veneza, onde venceu o Prémio de Melhor Filme na Secção Horizontes. Teve a sua estreia mundial a 4 de setembro de 2019, e a 18 de novembro teve a sua primeira exibição no Lisbon & Sintra Film Festival. 

Este filme pode ser visto como um drama distópico. Estamos numa outra Ucrânia oriental, uma Ucrânia do futuro próximo, situado em 2015, a qual procura recuperar das marcas fortes e inegáveis da guerra. A obra pensa assim as consequências de um conflito armado, pesando mágoas e esperanças.

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LEFFEST Atlantis
Atlantis (2019) |© LEFFEST

Tal como é avançado pelo realizador, e evidenciado no site do LEFFEST, Vasyanovych afirma que “o tema da guerra no leste da Ucrânia é o tópico mais agudo e urgente para mim”. Atlantis é uma obra sobre o futuro, mas toca em diversas feridas abertas no presente.

Num deserto inabitável por humanos encontramos Sergey, um antigo soldado que sofre de stress pós-traumático. Quando a fundição onde trabalha fecha, encontra uma nova ocupação, torna-se voluntário junto da organização “Black Tulip”, dedicando-se assim a exumar cadáveres. Ao trabalhar com a voluntária co-fundadora Katya, apercebe-se de que o futuro não tem de ser desolador, e que há vida para além das marcas da guerra.

“Atlantis” é um filme atormentado por fantasmas constantes. O principal deles é o fantasma da guerra. Ao longo da obra, é sempre mencionada uma terrível guerra sem nome que deixou um rasto de destruição ao nível pós-apocalíptico. Este rasto parece ser um vestígio teimoso e persistente do império da União Soviética, que ameaça nunca largar a Ucrânia. O resto da Europa é mencionada, e não parece ter sido varrida por este prolongado conflito que pouco deixou como memória de um tempo anterior.

A certa altura, uma das personagens intervém com uma das frases mais significativas do filme, quando avança que o personagem central e a organização “levaram 10 anos a libertar aquele território dos mitos e propaganda soviética”. Estes mitos que travaram o progresso e instauraram a discórdia.

Ao protagonista é sugerido mais que uma vez mudar-se para outro país, onde estas marcas de destruição não sejam tão fortes, onde o solo e as águas não estejam contaminadas, onde toda a terra não tenha adquirido um desesperante tom cinzento adoentado. Contudo, este responde que é difícil projetar viver em comunidade com “pessoas normais”, tornado-se mais difícil fingir. Os traumas presentes da guerra na Ucrânia são pouco subtis, mas ainda assim metafóricos, não fosse esta uma ferida ainda mais que aberta.

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O nosso protagonista junta-se a uma equipa que procura ativamente atribuir sentido às perdas sofridas no decurso da guerra. A certa altura Katya evidencia que, aquando da longa guerra, depois da batalha, apenas os soldados com perspectivas de sobrevivência eram transportados para lá da frente de batalha. Os outros ficaram perdidos, separados da sua família, falecidos no anonimato. Agora, este projeto procura recuperar e identificar estes corpos, colocar o ponto final definitivo que permita aos familiares iniciar um processo de reparo emocional.

Os personagens de “Atlantis” são por norma assolados pelo trauma, mas é na vivacidade e atitude positiva do seu interesse romântico que Sergey encontra a motivação necessária para continuar a lutar, para continuar a amar. A morte parece ser o denominador comum, mas este filme incrivelmente cinzento equilibra o desgosto com alguma luz, e algum amor. Na união dos corpos se recupera a humanidade que parecia perdida.

Nos escombros da Ucrânia no pós-guerra de “Atlantis” (2019) | © LEFFEST

Do ponto de vista formal, este é um filme com uma palete de cor bastante monocromática, ou bem perto disso. É também um que pouco varia na escala de planos, e quando o faz, fá-lo sempre com imensa intenção por detrás destas escolhas. Os planos são bastante abertos, dominando os planos gerais e muito gerais. Por vezes, o enquadramento fecha, chegando até planos médios ligeiramente menos amplos. Quando é que a janela se torna mais intima? Quando vemos as interacções entre Sergey e Katya, quando a expressão e o rosto dos sujeitos se torna pertinente. De resto, a maioria dos planos mal focam caras, concentrando-se muito mais na paisagem.

Atlantis LEFFEST '19
A intimidade breve da obra | © LEFFEST

Os diálogos, embora pesados e repletos de significado e mágoa, são bastante ocasionais. Existem muitos planos fixos, a banda-sonora é seca e ausente, com sons ambiente a reinar. O tempo passa lentamente, e a contemplação abunda. Aqui, em “Atlantis”, temos forma acima de conteúdo, no sentido narrativo. Tendo em conta a temática rica, é discutível se esta é devidamente explorada ou não. Desde já, isso depende da expectativa de cada espectador relativamente ao que mais valorizam num filme. Embora satisfatório, o enredo deste filme iria certamente beneficiar de um pouco menos contemplação e mais acção ou contexto, mas os planos da terra moribunda são difíceis de esquecer.

“Atlantis” pode não ser um esforço perfeito, mas é sem dúvida ambicioso. Repleto de contrastes, a fantasmagórica localização não abandona a esperança, e mostra a resiliência notável do ser humano, e também do meio.

O filme foi exibido em Sintra a 18 de novembro, e repete em Lisboa no próximo dia 22, sexta-feira, às 16h00, no Nimas. À projecção segue-se uma conversa com o realizador que valerá o tempo de quem lá estiver. 

Atlantis
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Movie title: Atlantis

Date published: 19 de November de 2019

Director(s): Valentyn Vasyanovych

Actor(s): Andriy Rymaruk, Liudmyla Bileka, Vasyl Antoniak

Genre: Drama

  • Maggie Silva - 77
77

CONCLUSÃO

“Atlantis” comete alguns pecados do ponto de vista narrativo, mas não deixa de transmitir inequivocamente uma mensagem de esperança e uma advertência forte para o futuro.

O MELHOR: A inteligente relação entre passado, presente e futuro que aqui se traça. A presença do fantasma do socialismo soviético.

O PIOR: A falta de contexto é intencional, mas um tema tão rico merecia ser explorado com mais detalhe.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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