"A Noiva" | © Faux

LEFFEST ’22 | A Noiva, em análise

“A Noiva” é o mais recente filme do cineasta luso-brasileiro Sérgio Tréfaut. Depois da estreia no Festival de Veneza, secção Orizzontti, a obra foi premiada em Sevilha e há pouco teve a sua antestreia portuguesa no 16º Lisbon & Sintra Film Festival. O realizador e sua equipa estiveram no Cinema Nimas para marcar esta auspiciosa ocasião, defendendo um trabalho que intencionalmente evita dar resposta às perguntas que levanta. A exibição marca o fim de uma retrospetiva dedicada ao autor, com títulos que vão do documentário musical até ao drama desafetado.

O Estado Islâmico é um dos grandes flagelos dos nossos tempos. Tamanha a sua crueldade, sua capacidade para destruir, que compreender as motivações de quem a ele se junta é tarefa difícil, quiçá impossível. Fazem-se pesquisa sociológicas e propõem-se hipóteses políticas, fala-se na lavagem cerebral, na religião e tanto mais. No entanto, nenhuma explicação vinga, a confusão perdura. Estranhos também são aqueles casos onde jovens europeus sem ligações étnicas ou religiosas ao movimento abandonam as suas vidas presentes para espalhar o ódio no Médio Oriente. Foram esses mesmos fenómenos que serviram de inspiração a Sérgio Tréfaut.

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Mais especificamente, o realizador interessou-se pelos exemplos das esposas de militantes e terroristas, essas putativas donas-de-casa que, graças ao género, têm escapado às consequências mortíferas quando a derrota se manifesta. Casos como os do Shamima Begum terão sido lógica referência, mas também a ela se juntam as muitas francesas cuja terra natal recusou acolher. Num estado de limbo terreno, elas vivem no limar entre culturas, entre fés, entre entendimentos de justiça. As opiniões públicas dividem-se no que diz respeito a estas mulheres. Há quem por elas nutra compaixão, talvez até nas suas histórias reconheça submissão feminina perante o patriarcado.

Dito isso, tantos com elas simpatizam como aqueles que as recriminam, fechando-lhes as portas quando pedem santuário. Não será um filme que expressará o que está certo ou errado e, enquanto cineasta, Tréfaut nunca tenta encontrar esse ponto final. Seu exercício não tem conclusão, deixando aberto o julgamento dentro e fora de cena, permanecendo na incerteza dessas histórias de jornal. “A Noiva” parte de tal premissa, situando-se no Iraque depois da derrota do Daesh, onde as esposas da Jihad esperam julgamento. A protagonista da trama é uma dessas mulheres, casada com um guerrilheiro que ela levou para fora da Europa e rumo a nova vida no âmago da guerra que se diz religiosa.

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Seu nome é Joana, tem ascendência luso-francesa e dois filhos pequenos com mais um prestes a nascer. O matrimónio que a fez romper laços familiares aconteceu há três anos e ela vai-se tornar viúva no mesmo dia em que a conhecemos. Aos vinte anos, observamos como a jovem é levada até à prisão onde mantêm o marido encarcerado. Sem nunca tirarmos os olhos da cara dela, tão misteriosamente esvaziada de expressão, prestamos testemunha à execução coletiva de vários Jihadistas. Entre eles está Pierre, seu esposo que, segundo Joana, nunca foi mais que um cozinheiro na hierarquia de funções no Daesh. Ouvimos a sua morte, mas a imagem jamais mostra a carnificina, permanecendo presa ao olhar impávido da personagem titular.

Há enorme disciplina no engenho cinematográfico que Tréfaut aqui construiu, um tenor minimalista a resvalar no ascético que faz lembrar o melhor de Bresson. A fotografia de João Ribeiro muito ajuda, desenhando poesias visuais no ecrã sereno e enveredando-se por estéticas espartanas que espantam pela sua falta de ornamento. Assim se apela ao classicismo no mesmo gesto que se estilhaça a narrativa clássica, apaga a personagem e esquiva a resposta. Encontramos valor nessa abordagem, inteligência e até beleza. Apesar de um tema predisposto ao sensacionalismo, Tréfaut evita todo o melodrama e cospe na cara de tais possibilidades.

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Aliado ao realizador e diretor de fotografia, temos Pedro Filipe Marques que encontra ritmos precisos nesta paixão de Joana, essa passagem pelas estações da cruz repensada para outra crença – não o Islão, mas sim o cinema. Admiramos a flexibilidade tonal que ele encontra dentro de um registo propositadamente limitado, pontuando a melodia fílmica com dissonâncias. Referimo-nos a momentos de graça, marotices de meninos que não sabem a gravidade da situação em que se encontram ou os laivos de imaturidade que se apresentam no comportamento de Joana. O pormenor da sopa trocada entre miúdos enfadados é fantástico, tal como é o prazer ilícito de ouvir Amy Winehouse atrás das grades. Também há picos de lacerante detalhe, a revelação de verdades escondidas que contradizem a inocência de Joana.

Segundo as piadas privadas partilhadas entre a equipa, a certa altura Tréfaut terá excisado metade da fita e foi graças aos esforços do colega da montagem que “A Noiva” encontrou a forma que tem hoje. Depreende-se que muito se perdeu nesse processo, mas também muito se ganhou. O filme que temos perante nós é um exemplo de cinema depurado, reduzido aos seus elementos essenciais. Capítulos dividem a ação por atos, quiçá pausas musicais, enquanto prólogos e epílogos escritos oferecem contextos que o texto jamais expressa em exposição clara. A claridade franca em simultâneo com a ambiguidade extrema é o paradoxo central de “A Noiva.” Para uns será a sua perdição e o ponto que dita o fracasso. Para outros, será um ponto forte. Contamo-nos entre os segundos – viva Tréfaut!

A Noiva, em análise
a noiva critica leffest

Movie title: A Noiva

Date published: 23 de November de 2022

Director(s): Sérgio Tréfaut

Actor(s): Joana Bernardo, Hugo Bentes, Hussein Hassan Ali, Lola Dueñas, Saman Mustefa

Genre: Drama, 2022, 79 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

De Veneza ao LEFFEST, “A Noiva” é Tréfaut em estado de graça e na margem do minimalismo cinematográfico. Ousado e feroz, o cineasta admite a sua incompreensão para com as personagens, retratando um purgatório contemporâneo sem a realidade moldar aos preceitos de uma narrativa fechada. Cada um tirará as conclusões que quiser desta história, desta Joana feita noiva do Daesh.

O MELHOR: A fotografia de João Ribeiro, a montagem de Pedro Filipe Marques, o rigor frio de Tréfaut e as prestações singulares do elenco. Lola Dueñas merece especial aplauso como a mãe de Pierre que viaja até ao Iraque em busca do seu corpo para enterro em casa. Tanto passa pela face da atriz espanhola, tanto que fica por dizer e incógnitas paras as quais não há resposta.

O PIOR: A reticência absoluta d’”A Noiva” tanto inspira admiração como também deverá dececionar espetadores em busca de algo mais concreto. Com um tema tão polémico como este, a deliberada falta de perspetiva moral poderá até ser vista como ofensiva por alguns.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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