"O Azul do Cafetã" | © Leopardo Filmes

LEFFEST ’22 | O Azul do Cafetã, em análise

Aquando da sua estreia no Festival de Cannes, “O Azul do Cafetã” conquistou o prémio FIPRESCI, afirmando-se como um dos favoritos da crítica internacional. Originalmente programado na secção Un Certain Regard, o filme de Maryam Touzani tem vindo a provar-se mais popular até que alguns dos títulos na competição principal da Croisette. De facto, esta obra também conhecida como “Le Bleu du Caftan,” tornou-se no candidato oficial de Marrocos na corrida para o Óscar de Melhor Filme Internacional. No 16º Lisbon & Sintra Film Festival, esta produção de Nabil Ayouch saiu de mãos a abanar, mas tem já distribuição nacional assegurada pela Leopardo Filmes.

Algures na medina de Salé, em Marrocos, uma loja tradicional de cafetãs mantém-se aberta apesar de ser fraca perpetuação de uma arte moribunda. Na conjetura atual, o traje tradicional tende a ser feito em massa ou por via mecânica, dispensando a costura artesanal que os maalem mais tradicionais privilegiam. Aos poucos, é provável que a prática desapareça, conhecimento perdido na passagem do tempo. Pelo menos, no caso de Halim e Mina, casal proprietário dessa loja mencionada, há quem queira aprender os preceitos antigos e quiçá levá-los para gerações futuras. Ele é Youssef, um jovem aprendiz que desperta desejos escondidos para o alfaiate mais velho.

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© Leopardo Filmes

Apesar de dedicar a vida à criação de belíssimas vestimentas, obras de arte feitas para serem admiradas em praça pública, Halim é forçado a viver parte do seu ser nas sombras, longe dos olhos da sociedade. Ele é homossexual numa nação onde tais identidades são criminalizadas pela lei e rejeitadas pelos bons costumes. Seu matrimónio com Mina apoia-se em amor genuíno, mas o prazer da carne não faz parte da equação. Pelo menos, não faz para Halim que tem de saciar tais fomes na clandestinidade dos banhos públicos, onde o cruising se faz entre balneários escuros e portas fechadas. É uma vida dupla que Youssef vem destabilizar.

Belo e jovem, com a atenção de um pupilo fiel e o brilho matreiro no olho, o outro homem é como uma cifra de afetos projetados. Seu mistério esvanece à medida que ele e Halim se aproximam, atração mútua fazendo-se descobrir em labirintos de olhares fugazes e toques cheios de significado silencioso. Ao início, Mina vê e franze o nariz. Não sabemos se ela percebe ou não a totalidade da verdade, mas sabe o suficiente para antagonizar o pobre rapaz. Dito isso, a realizadora Maryam Touzani pouco se interessa pelo melodrama salaz que deste triângulo romântico pode emergir, preferindo explorar a complexidade das personagens sem julgamento ou moralismos.

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Outra complicação surge com a saúde de Mina e a sombra da morte que sobre todo o filme paira. Face ao possível fim, as provas do verdadeiro amor fazem-se sentir além da convenção do que é e não é paixão, o que é e não é um casamento feliz. Tal não seria possível sem o trabalho de ator prodigioso que o elenco proporciona. Lubna Azabal, famosa pelo seu trabalho em “Incendies” de Denis Villeneuve, dá tudo no papel de Mina, construindo um arco narrativo em renegação da expetativa simplória e conclusões fáceis. Sua vontade de viver inflama o ecrã e eletriza-o também, sugerindo uma euforia que cai em desespero, com espaço para humor também.

Se Azabal é a alma do filme, Saleh Bakri é a âncora que aguenta “O Azul do Cafetã” nas costas e apoquenta os seus dramatismos mais extremados. Como Halim, o ator faz caracterização com base em olhares tristes cheios de potenciais leituras, ambiguidades melancólicas que vivem na ambiguidade de olhos celestes. Touzani muito privilegia o grande plano e o pormenor, formulando muitas das suas imagens mais fortes com base no enquadramento da face humana. Bakri é seu sujeito predileto, mas também há muito poder no semblante misterioso de Ayoub Missioui como Youssef. Ele encontra a realidade numa personagem que, para detrimento da fita, por vezes peca pela abstração em demasia.

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Com isso dito, por muito que a câmara de Touzani se perca de amores pelo elenco, sua maior fixação incide na arte de fazer os cafetãs, especialmente a peça azul que dá título à obra. Mesmo durante os créditos, há um interesse sublime na suavidade lustrosa de seda azul petróleo, mas a atenção ao detalhe da costura continua por toda a longa-metragem. Algumas das suas passagens mais comoventes encontram Halim e Youssef no ofício da criação, enrolando fio doirado para criar cordão com que bordar motivos geométricos. É ouro sobre azul e cinema dos sentidos em estado de êxtase. Focando essa beleza da tradição ancestral, os cineastas propõem uma conclusão final, quiçá uma lição patente na obra toda – há tradições que merecem ser preservadas e outras que se devem aniquilar. Louvada seja a beleza e maldita sejam as regras em negação à vida humana liberada do preconceito.

O Azul do Cafetã, em análise
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Movie title: Le Bleu du Caftan

Date published: 22 de November de 2022

Director(s): Maryam Touzani

Actor(s): Lubna Azabal, Saleh Bakri, Ayoub Missioui

Genre: Drama, 2022, 118 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“O Azul do Cafetã” é um belíssimo estudo do amor expresso em várias vicissitudes e formas. Também se afigura enquanto carta apaixonada em prol da tradição perpetuada que, em contraste, também serve para questionar o mal dos costumes tradicionais quando examinados através da perspetiva LGBT+. O formalismo sedutor e a qualidade das prestações valorizam uma obra simples e modesta, cheia de sentimento e epítetos de beleza inebriante.

O MELHOR: O cafetã que dá nome ao filme, o modo como Touzani e a diretora de fotografia Virginie Surdej capturam seu esplendor material e significado simbólico para as personagens em seu redor.

O PIOR: Youssef é figura fascinante, mas nem o texto nem a câmara resolvem os mistérios dele. Há uma alienação que, inicialmente se vê proveitosa, mas que, aquando dos atos finais, se torna num problema irreparável. Esse jovem merecia tanta atenção dramatúrgica como Mina e Halim. Também há a questão dos sotaques estrangeiros que afetam um elenco poliglota – assuntos ignoráveis para uma audiência lusitana, mas muito criticados por alguns espetadores marroquinos.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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