LEFFEST ’22 | Broker – Intermediários, em análise

“Broker – Intermediários” marcou lugar na Competição Oficial do Festival de Cannes, tendo garantido um prémio para Melhor Ator ao consagrado Song Kang-ho. Esta desventura coreana do grande mestre japonês Hirokazu Kore-eda tem feito carreira no circuito dos festivais, encantando o mundo com uma história comovente onde o tema da família é explorado através de mecanismos inortodoxos. No 16º Lisbon & Sintra Film Festival, o filme integrou a secção Fora de Competição. Assim fez a antestreia portuguesa antes da sua distribuição nos cinemas nacionais, assegurada pela Alambique Filmes.

O conceito de família sempre interessou a Hirokazu Kore-eda, algo tornado evidente por uma filmografia repleta de títulos como o devastador “Ninguém Sabe” ou o muito aclamado “Shoplifters.” Na maioria dos casos, o cineasta explora o tema através de textos desafiadores com laivos de melodrama e muito sentimento, várias vezes criticando o modo como a noção tradicional de família pode ser antitético à felicidade. Desenrolando os muitos filmes na sua carreira, encontramos histórias de negligência parental, laços fraternais fraturados, divórcios tristes, adoções ora legais ou ilegais, entre muitas outras variações.

De facto, foi na pesquisa sobre o sistema de adoção que Kore-eda primeiro formulou a ideia basilar de “Broker,” sua mais recente obra. Aconteceu em 2013, aquando da preparação para “Tal Pai, Tal Filho,” onde barreiras de classe são dissecadas através de uma adoção trocada. Nesse trabalho, o realizador deparou-se com o fenómeno das baby boxes, onde pessoas podem deixar bebés anonimamente e implicitamente abdicar dos direitos parentais. Na altura, só existia uma destas instalações no Japão, mas o fenómeno é muito mais popular e prevalente na Coreia do Sul. Esse facto aliado à vontade de trabalhar com atores coreanos deu origem ao novo filme.

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© Alambique Filmes

Tudo começa com a baby box, numa noite escura e chuvosa. Por entre as torrentes de água e sombras tenebrosas, uma figura atravessa as ruas com seu bebé nos braços. Numa missão convicta, ela sobe as escadas da hierarquia urbana, rumo a uma igreja local onde uma baby box aguarda. Só que, quando chega ao momento de deixar o filho, essa misteriosa mãe deixa a sua prole no chão frio, fugindo da cena com palpável angústia. Tudo isso observamos através da perspetiva de duas agentes da polícia. São elas que salvam o bebé, depositando-o na caixa segura e esperando por outros intervenientes. Acontece que as autoridades não estão em vigia de mães que abandonam os filhos.

Na verdade, elas estão lá para testemunhar o modo como dois homens retiram o bebé dos seus aposentos temporários e se evadem com ele. As filmagens automáticas são apagadas, efetivamente eliminando qualquer conexão legal entre a criança e o sistema de adoção oficial, entre a mãe e sua progénie. São os ladrões Dong-soo e Sang-hyeon, sequestradores que vendem os bebés no mercado negro, nados sem pais que encontram família entre as elites enriquecidas que podem pagar os altos preços pedidos. Noutro filme, estes criminosos seriam vilões. No universo cinematográfico de Kore-eda, são heróis improváveis num conto profundamente humanista.

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O enredo depressa se torna num road movie inesperado, quando So-young, a mãe do bebé, aparece a inquirir sobre o seu paradeiro. À descoberta do esquema ilegal, mas igualmente desconsolada com os serviços sociais, ela decide supervisionar a venda do filho, garantindo que este encontra uma família ideal. Só que, com o passar dos dias e a crescente ligação entre os coconspiradores, o trio improvável acaba por se revelar como essa unidade idealizada. Pouco a pouco, Kore-eda vai-nos dando acesso à história complicada das personagens, suas considerações singulares sobre a família enquanto passado traumático ou esperança de um futuro mais risonho.

Isso seria suficiente para qualquer filme, mas Kore-eda doira a pílula com narrativas paralelas que, consoante a narrativa afunila para uma conclusão agridoce, acaba por colidir umas com as outras. As polícias dão perseguição aos criminosos, tentando apanhá-los em flagrante e manipulando os eventos para garantirem o sucesso da investigação. Ao mesmo tempo, o pai do bebé amedronta So-young do além, um cadáver espicaçando nova ação policial e uma esposa amarga à procura da criança que o seu marido teve fora do matrimónio. Verdade seja dita, tudo isto está a mais na fita, distraindo da história principal, onde as delicadas tonalidades emocionais mais vingam naquele jeito já típico no cinema deste autor.

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© Alambique Filmes

Apesar do argumento sobrecarregado, seria erróneo ditar o fracasso de “Broker” com base nesse só defeito. Há grande brio na execução formal da premissa, especialmente no que se refere à montagem feita pelo próprio Kore-eda. Louvamos a flexibilidade de registos, o modo como negoceia estranhos humores com base em material que, a uma primeira análise, nos parece digno de lamentosa tragédia. Também há que aplaudir os atores, todos eles esplendorosos na criação de personagens multidimensionais, prontas a esquivar-se a qualquer redução moralista ou molde arquetípico. É impossível dizer quem é melhor neste notável elenco, mesmo que seja Song Kang-ho quem mais prémios tem conquistado.

Ele é Sang-hyeon e interpreta a personagem investindo nas qualidades cómicas do diálogo, enquanto deixa espaço para o esboçar de melancolias profundas. Dong-won Gang aborda o papel de Dong-soo através de um prisma mais dramático, tendo grande química com todos os colegas com quem partilha cenas. Pensamos, em particular, numa conversa feita na intimidade elevada de uma roda gigante, quando se falam de sonhos utópicos amaldiçoados a nunca se concretizarem. Ji-eun Lee é quem coprotagoniza esse momento-chave, afigurando So-young enquanto presença mercurial cujas afinidades variam de cena para cena. Há tanta beleza interpretativa, tantas prestações miraculosas que todo um livro podíamos escrever sobre o elenco. No cinema de Hirokazu Kore-eda não há personagens menores, todos são fios importantes numa tapeçaria cinematográfica em celebração da empatia.

Broker - Intermediários, em análise
broker critica leffest

Movie title: Beurekeo

Date published: 22 de November de 2022

Director(s): Hirokazu Kore-eda

Actor(s): Song Kang-ho, Dong-won Gang, Doona Bae, Ji-eun Lee, Lee Joo-young, Kang Gil-woo, Park Hae-joon, Seung-soo Im, Sae-Byuk Kim, Ryu Kyung-Soo, Dong-hwi Lee, Sae-byeok Song, Kim Sun-young

Genre: Drama, 2022, 129 min

  • Cláudio Alves - 77
77

CONCLUSÃO:

Família pode significar muita coisa, afigurando-se em diversas formas, todas elas válidas e maravilhosas. As leis dizem o contrário, mas o coração humano sabe a verdade. Também o sabe o cinema de Hirokazu Kore-eda, cuja totalidade forma um épico moral sobre a compaixão absoluta em tempos modernos. “Broker – Intermediários” é obra meio menor, mas continua a ser visionamento essencial para quem quer que goste de bom cinema. Para os fãs de grandes atores, é ainda mais obrigatório, sendo este um dos grandes elencos do ano.

O MELHOR: O trabalho de ator, a roda-gigante, um final adeus coletivo ao bebé que tanto drama provoca na vida dos adultos.

O PIOR: A existência de múltiplos subenredos despropositados. Todos os devaneios pelo género policial são especialmente tristes, não obstante as caracterizações primorosas e um excelente desempenho de Doona Bae como a chefe de investigação.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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