Poet/©LEFFEST22

LEFFEST’22 | Poet, em análise

Darezhan Omirbayev, um dos mais proeminentes realizadores do Cazaquistão está de volta ao LEFFEST’22 com um novo filme, ‘Poet’, uma bela elegia à literatura, à cultura e sobretudo à poesia, num mudo globalizado. Chega em breve às salas de cinema.

‘Poet’ de Darezhan Omirbayev (‘Chouga’) é um filme que parece concentra-se no dia-a-dia de Didar (Yerdos Kanaev), um poeta que infelizmente não é devidamente reconhecido no seu país: o Cazaquistão da actualidade. À partida pode ser um filme estranho e intrigante, porém o realizador criou uma narrativa bastante inteligente, onde procura destacar como este mundo digital, em rápida mudança está a afectar a arte, as línguas, a profissão e até as mentalidade das pessoas, inclusive em países com uma cultura  muito própria e lendária como o Cazaquistão. Assim, o filme de Omirbayev segue não apenas o poeta Didiar, mas também várias personagens cujas capacidades e atitudes, parecem literal e metaforicamente estar à beira da extinção.

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O realizador Darezhan Omirbayev é o director do jornal, onde trabalha o poeta. ©LEFFEST22

Didiar vive com a sua bela esposa, e um filho pequeno, e trabalha num jornal que corre sérios riscos de fechar, devido à cada vez maior influência das redes sociais e da tecnologia digital. Mas também, porque o Cazaquistão parece estar prestes a adoptar o inglês como idioma oficial. Logo no início vemos Didar e os seus colegas de redacção — um deles interpretado pelo próprio realizador — a discutirem os problemas que enfrentam no seu trabalho diário e a conversarem sobre a arte em geral no mundo contemporâneo e globalizado. Porém, um dia quando jantava com a sua esposa num bom restaurante, Didiar depara-se com um antigo colega da faculdade, que deixou os estudos de literatura para trás, e que é agora precisamente o dono desse bem sucedido negócio. Além disso, o amigo relaciona-se com vários empresários poderosos. Um deles pede mesmo a Didiar, que lhe escreva um livro sobre a história da sua família. Enquanto isso o poeta também é convidado para um recital de poesia, numa pequena cidade para qual viaja de comboio. Ao mesmo tempo que se vai desenvolvendo o percurso deste lacónico protagonista, este é justaposto com uma outra história do passado: trata-se de um episódio de um poeta e de uma figura política do Cazaquistão, chamado Makhambet Otemisuly, que foi executado pelas autoridades cazaques em 1846, por causa das suas críticas ao Estado; a história continua após a sua morte, concentrando-se em episódios dos seus descendentes, que por vários motivos estão ligados por um destino e pela preservação do seu túmulo e dos seus restos mortais.

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VÊ TRAILER DE ‘POET’

Uma das mais interessantes linhas condutoras de ‘Poet’ é a forma como o realizador usa a personagem de Didar como observador do que está a acontecer, vivenciando todas as mudanças e acontecimentos que levam ao referido vazio cultural. É essa forma que, ‘dita’ a visão do espectador, que acaba por ver quase tudo pelos olhos do protagonista. Essa abordagem, embora intrigante, poderia se tornar de certa forma monótona e aborrecida, porque Didar é bastante silencioso no filme. Porém, Omirbaev consegue evitar essa questão de uma maneira engenhosa, através de vários truques e pequenos dispositivos narrativos. O primeiro através de flashbacks históricos, a maioria deles mostrando um Cazaquistão que parece quase distópico para os padrões actuais, ao mesmo tempo que destaca as dificuldades que os artistas e criadores independentes sempre enfrentaram ao longo da história do país. A mudança geral de cenário, e de épocas, também funciona de uma forma excelente na narrativa, graças à extraordinária direcção de fotografia de Boris Troshev. A direcção de fotografia leva-nos ao segundo elemento narrativo, com a câmara ocasionalmente a deixar de apresentar a história através dos olhos do protagonista, voltando-se directamente para ele próprio, e para alguns de seus momentos mais pessoais: mergulhado na banheira ou a comprar as botas nova, substituído os velhos sapatos que não dão com nada, por exemplo.

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VÊ CONVERSA COM O REALIZADOR NO LEFFEST’22

A terceira perspectiva é a dos sonhos de Didar, que beiram por vezes o absurdo, mas que geralmente derivam dos eventos reais do seu dia-a-dia, ao mesmo tempo que expressam os seus pensamentos sobre o impacto das novas tecnologias. A interpretação de Yerdos Kanaev como Didar é aliás extraordinária, sobretudo porque comunica os pensamentos e sentimentos da personagem quase exclusivamente através do olhos e da postura corporal, com a mesma eloquência como se estivesse a dialogar. Por último, destaca-se ainda a forma engenhosa como é utilizado o humor de uma forma subtil, irónica, inexpressiva e até desconcertante, resultando numa série de situações bastante hilariantes: a cena no jornal e a forma como todas essas ‘grandes mentes’ da cultura, reagem quando a bela e ‘boazona’ secretária entra na redacção, o que acontece na loja de eletrodomésticos, no recital de poesia, na pequena cidade e principalmente as divertidas reações dos provincianos organizadores.

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Um dos momentos mais divertidos do filme na redacção do jornal.©LEFFEST22
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Todas estas situações acrescentam ao filme a componente de entretenimento, tirando-lhe uma carga séria e intelectual. Depois, e em particular o último episódio, que num tom agridoce procura compreender o significado real de ser poeta, ao mesmo tempo que através de uma abordagem dramática e bem-humorada, mostra-nos que a poesia pode acontecer das maneiras mais inesperadas da vida e por isso vale a pena continuar. A montagem quase feita a um ritmo lento, acaba por ser neste aspecto atenuada ou melhor acelerada pelos diferentes elementos cinematográficos que Omirbaev incluiu, que conseguem dar uma sensação de velocidade e movimento a um filme que não é propriamente um filme com muita acção.  Muito bom!

JVM

Poet, em análise
poet

Movie title: Akyn

Movie description: Didar é um poeta absorvido pelo seu trabalho diário num pequeno jornal. Nestes tempos de consumo em massa, do triunfo dos conteúdos digitais, da comercialização e das redes sociais, são raros os que ainda se interessam pela poesia. Ao ler a história de um célebre poeta cazaque do séc. XIX, executado pelo poder, Didar fica profundamente abalado e reconhece ao mesmo tempo a dureza e a exigência da sua vocação. Convidado para uma leitura numa cidade de província, Didar fica dilacerado entre a dor e a alegria, entre os seus êxitos e os seus fracassos.

Date published: 15 de November de 2022

Country: Cazaquistão

Duration: 105 minutos

Director(s): Darezhan Omirbayev

Actor(s): Yerdos Kanaev, Gulmira Khasanova, Klara Kabylgazina

Genre: Drama, comédia, 2021,

  • José Vieira Mendes - 85
85

CONCLUSÃO:

O realizador e argumentista cazaque Darezhan Omirbayev, aclamado por Jean-Luc Godard como ‘um dos mais estonteantes cineastas da actualidade’, e em parte concordo, regressou ao LEFFEST’22 com ‘Poet’ um excelente filme, que destaca a importância da arte, cultura e sobretudo face à  casa vez maior influência da redes sociais no mundo contemporâneo. Com este filme o realizador  consegue talvez alcançar  o topo da sua arte — teve uma retrospectiva no festival em 2018 —, consegue apresentando um filme fabuloso, mostrando todos os seus pontos de vista sobre o ‘estado da cultura’ no mundo contemporâneo, através de uma abordagem inteligente, engraçada e bastante artística ao mesmo tempo. 

JVM

Pros

A irónica e subtil reflexão sobre o declínio da cultura face às redes sociais e sobretudo a excelente e lacónica interpretação do protagonista Yerdos Kanaev.

Cons

O início e as mudanças temporais podem à partida parecer confusas e intrigantes para o espectador, mas é isso que torna este filme numa obra subtil e inteligente. 

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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