"Fairytale" | © Leopardo Filmes

LEFFEST ’22 | Fairytale, em análise

Em “Fairytale,” chamado “Skazka” no original russo, Aleksandr Sokurov explora um purgatório cinematográfico, onde os limites da forma são testados pelo matrimónio inglório das novas tecnologias e os traumas do passado. Protagonizado por Churchill, Estaline, Hitler e Mussolini, o arrojado projeto estreou primeiro em Locarno, onde integrou a competição pelo Leopardo de Ouro. Agora, chega a Portugal na 16ª edição do Lisbon & Sintra Film Festival. Também aqui Sokurov compete pela maior honra das festividades. Algo é certo – este terá de ser um dos projetos mais peculiares na programação competitiva.

Há muito que Aleksandr Sokurov se interessa pelos titãs da História, esses homens poderosos que mudaram o mundo, muitas vezes para pior. De 1999 a 2011, o cineasta dedicou a carreira a uma intermitente exploração desses mesmos temas, construindo aquilo a que chamamos a sua tetralogia do poder. “Moloch” considerou Hitler num momento doméstico em 1942, enquanto “Taurus” ponderou um encontro entre Estaline e Lenine em 1923. “O Sol” marcou visita ao Imperador Hirohito nos capítulos finais da Segunda Guerra Mundial, aquando da rendição nipónica e negociações de paz internacional. Por fim “Fausto” catapultou o projeto para a esfera da ficção assumida, trocando figura factual por uma das personagens mais importantes na tradição literária alemã.

Esses não são os únicos trabalhos que Sokurov assinou no período definido. Pelo meio, afirmaram-se sonhos trans-temporais pelo Hermitage e devaneios paternais em cenário lisboeta, entre outros. Contudo, a condição humana presa no enquadramento histórico nunca está longe do ecrã quando este realizador se encontra atrás da câmara. Note-se como, durante anos, sua última longa-metragem havia sido “Francofonia,” uma combinação inspirada de documentário e re-encenação alucinada, onde se pondera o fado do Louvre em tempos de ocupação Nazi. Sete anos depois desse trabalho tão majestoso quanto experimental, Sokurov finalmente regressa com obra na mesma linha de exploração audiovisual.

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© Leopardo Filmes

Tudo começa e acaba num cenário algures entre o desenho e a simulação digital, linhas de ilustração antiga definindo espaços de um mundo que não o nosso. O principal registo faz-se em monocroma, um preto-e-branco marcado pelas indefinições da névoa, quer seja a neblina em jeito de fumo que consome a paisagem ou a pátina de grão celuloso sobre as personagens. E que personagens são elas, algumas vindas dessa tetralogia passada. Hitler voltou e Estaline também, com nova inclusão de Mussolini e Churchill. Há um cameo de Napoleão lá pelo meio, mas ele não permanece muito tempo em cena – algo que transtorna o antigo líder Nazi que estava tão empolgado por trocar palavras com um ídolo.

Também Jesus Cristo marca presença. Aliás, é com ele que “Fairytale” nos introduz a este estranho paradigma fílmico, este cinema do além. Mais crucial é o modo como o tom cómico da obra é perfeitamente estabelecido com os bruscos repreendimentos de Estaline para com o preguiçoso filho de Deus, ele que jaz desnudo e sangrando em tábua rasa. O ditador soviético depressa se chateia com o outro homem e parte à descoberta do seu novo reino, afirmando, pelo meio, que nunca morreu e nunca irá morrer. Pelo caminho, os restantes líderes emergem e juntam-se à conversa de mesquinhezas e pura inconsequência. Numa reviravolta de sublime estranheza, cada homem é multiplicado no espaço, várias versões coexistindo em figurino distinto.

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Se a arte barroca e outra arquitetura desenhada serve para definir o palco desta farsa, seus principais intervenientes nascem de um ventre digital. O deepfake permitiu a Sokurov ressuscitar alguns dos líderes mais infames do século XX, moldando corpos virtuais através do documento analógico, mascarando atores de voz com as caras cristalizadas no arquivo histórico. O efeito é doentio, perfeitamente adequado a uma plenitude de humor negro onde a iconografia imortal se vê escoriada por um texto deliberadamente pejado de banalidades. É que, não obstante a sua majestade, nenhum destes homens tem grande coisa para dizer, perdendo-se em lamentações vagas que os delineiam enquanto gente pequena ao invés do titã gigante que vive na memória coletiva do mundo.

O jogo de Sokurov faz-se destes contrastes, do modo como Hitler jamais menciona o Holocausto mas recorda como não conseguiu dormir com a sobrinha de Wagner. Estaline não é questionado dobre as suas ações enquanto figurão político, mas alinhavado enquanto alvo para o insulto juvenil. Aparentemente, mesmo nessa vida depois da vida, ele cheira mal, como uma ovelha suja em forma de homem. Mussolini, por seu lado, pensa num futuro que não terá, enquanto Churchill muito fala da rainha num jeito feito mais irónico ainda pela recente morte da monarca. Trata-se de um exercício na futilidade assumida, apelando a um contingente de mau gosto que faz rir na mesma medida em que retira poder a quem o poder imortalizou.

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Na tetralogia, ainda algum jogo psicológico tinha lugar, alguma desmistificação conduzida através de meios subtis ou um formalismo apoiado em premissas belas. “Fairytale,” não obstante a fantasia sugerida pelo título anglófono, é deliberadamente feio e inconsequente, despojado da profundidade dessa obra passada. Mas atente-se que isso não é crítica negativa. Louva-se a experimentação contínua de Sokurov que, aos 71 anos, continua à descoberta dos limites da arte. Se mais nada é, o projeto afigura-se enquanto teste para os limites do meio. Testa-se aquilo que é aceitável para o espetador, mas também aquilo que o engenho da sétima arte consegue suportar através de novas possibilidades levantadas pelo progresso técnico. De olhos postos no passado, o cinema deste mestre caminha na direção do futuro, estendo-nos a mão num convite aberto. Segui-lo-emos então, rumo ao amanhã.

Fairytale, em análise
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Movie title: Skazka

Date published: 16 de November de 2022

Director(s): Aleksandr Sokurov

Actor(s): Winston Churchill, Adolf Hitler, Benito Mussolini, Josef Estaline, Alexander Sagabashi, Vakhtang Kuchava, Fabio Mastrangelo, Lothar Deeg, Tim Ettlet, Pscal Slivansky

Genre: Fantasia, 2022, 78 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Com uns escassos 78 minutos, “Fairytale” é alucinação que passa rápido. Num purgatório digital, líderes europeus da Segunda Grande Guerra convivem junto às portas daquilo que talvez seja o paraíso, talvez não. Na incógnita, discutem-se baboseiras sem importância, o figurão dos livros de história despido da sua importância, reduzido a uma piada negra numa paródia soturna. Mesmo em capítulos tardios da sua carreira, Aleksandr Sokurov continua a experimentar com os limites do cinema e a mostrar-nos as possibilidades infinitas da arte.

O MELHOR: A maré do populus ergue-se perante os seus líderes, uma onda abstrata de gritos e desespero, mãos erguidas ora em súplica ou adoração, quiçá ódio. O apocalipse rapidamente se extingue, mais uma miragem perdida na névoa do limbo, mas é uma daquelas imagens que dificilmente o espetador esquece, mesmo depois de sair do cinema.

O PIOR: Isto nada tem que ver com o filme em si, mas a projeção da obra no Cinema Nimas foi um circo de erros. Tudo começa bem com a entrada de Sokurov, recebido com salva de palmas adequada ao seu génio. Depois disso, contudo, houve um atraso colossal e problemas nas legendas que duraram quase até ao fim da fita. É uma vergonha apresentar assim a estreia nacional de tal filme, especialmente com o realizador presente para testemunhar o infortúnio.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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