"Leonora Addio" | © Rai Cinema

LEFFEST ’22 | Leonora Addio, em análise

“Leonora Addio” marca a primeira grande obra de Paolo Taviani depois da morte do irmão. Trata-se de um filme sobre perda que esboça um poema enlutado através de episódios fúnebres e um homicídio inusitado. O filme estreou na Competição Oficial da Berlinale, onde o realizador conquistou o prémio FIPRESCI da crítica internacional. No 16º Lisbon & Sintra Film Festival, a obra integrou a secção Fora de Competição. No programa transversal ainda estiveram presentes outras obras assinadas pelos Taviani, levando audiências a refletir sobre este capítulo final no seu cinema há tanto tempo marcado por um elo fraternal que a mortalidade desfez.

Nascidos em San Miniato, na Toscana, os irmãos Paolo e Vittorio Taviani começaram a carreira juntos. Essa união iria prevalecer pelo resto das suas vidas, mas convém dizer que os seus inícios profissionais foram feitos no mundo do jornalismo ao invés da sétima arte. Por conseguinte, sua entrada nessa nova esfera aconteceu com base em esforços documentais, uma extensão do trabalho escrito e o empenho em noticiar realidades difíceis. Nos primeiros tempos, apoiaram-se na colaboração com Joris Ivens, mas com o crepúsculo dos anos 60, lá os irmãos se tornaram em equipa independente, seguindo o exemplo de seus colegas e influências – Pasolini e Godard, entre muitos outros.

leonora addio critica leffest
© Rai Cinema

Mesmo quando os cineastas fizeram transição para recantos fictícios, a qualidade política do trabalho manteve-se forte e até a técnica do documentário veio moldar a abordagem à narrativa. Em 1977, “Padre Padrone” valeu-lhes a Palme d’Or e em 2012 foi a Berlinale que os coroou campeões com o Urso de Ouro ganho por “César Deve Morrer.” É justo dizer que eram dos cineastas mais aclamados no circuito europeu, quiçá até alguns dos nomes mais importantes na História do Cinema Italiano. Por isso mesmo, quando Vittorio morreu em 2018, muitos fizeram luto ao cinema dos Taviani. Talvez tenha sido um funeral precoce visto que, mesmo sem o irmão, Paolo continua o trabalho e assina “Leonora Addio” quase em jeito de elegia.

Dir-se-ia o filme um descarado requiem para Vittorio, não fosse a forma oblíqua como o Taviani vivo pondera o assunto da perda. Fá-lo com o apelo a figura literária muito influente no trabalho com o irmão, desenhando uma estrutura episódica com base na vida depois da morte de Luigi Pirandello e seu trabalho também. Outrora, o duo havia adaptado contos do autor em filmes como “Kaos” de 1984 e “Tu ridi” de 1986. Desta voz, contudo, a ação começa fora da esfera fictícia, com imagens de arquivo que nos mostram o escritor a aceitar seu Prémio Nobel da Literatura. Sobre a celebração e o júbilo, ouvem-se palavras de Pirandello lidas em narração voz-off.

Lê Também:
72ª Berlinale: Berlim Short? Competição Grande!

“Nunca me senti tão triste ou sozinho” diz o gesto diarístico, quiçá confessionário. Assim se constrói uma peculiar tonalidade que é, ao mesmo tempo, um poço de sentimentalismo e um repúdio do mesmo. Em preto-e-branco estilizado, incidem as seguintes cenas sobre o definhar do grande génio e os ritos que acompanham esse processo. A literatura lida sobre a ação continua como mecanismo, ajudando a esmiuçar uma sensibilidade algures entre o surrealismo e a memória moldada pela saudade sem nome. O quarto onde filhos se despedem do pai é como um teatro feito cinema, seu corpo torna-se em cinza pela magia impura da montagem.

Num corte, acaba a vida e desfaz-se a pessoa, algo tão miraculoso como assombroso, uma singularidade de emoções opostas contidas num só gesto. Desse ponto, “Lenora Addio” desenrola-se através da viagem pela nação italiana, percorrendo as suas paisagens despojadas de cor à medida que os restos mortais de Pirandello são enterradas e reclamadas, dispostas em cortejo pela sua terra natal e mais tarde guardadas por mãos académicas. Taviani assim examina uma Itália de outros tempos, usando a viagem picaresca como engenho da observação à la Rossellini naqueles momentos de transição entre o neorrealismo e a modernidade da vanguarda tardia.

leonora addio critica leffest
© Rai Cinema

É impressionante quanta comédia mórbida o cineasta encontra nestes episódios, quantos truques modestos consegue implementar sobre uma sucessão de cenas sem grande unidade narrativa além do nome de Pirandello acima de tudo. A fotografia em monocroma de ares prateados remete para o passado, mas também deturpa o realismo com traços oníricos, assinalando os pontos nos quais o mundano se torna em algo extraordinário. O absurdo tem tanto lugar na meditação quanto o pesar de um coração desfeito, entendendo-se a perda como fenómeno multifacetado que pode incluir lágrimas derramadas sobre gargalhadas.

Se “Leonora Addio” fosse feito somente por essa hora passada em torno da urna célebre, poderíamos dizer tratar-se de mais um grande título com o nome de Taviani na realização. Contudo, suturado a essa lírica odisseia está uma adaptação direta de Pirandello, um conto muito curto sobre um menino Italiano que, na Brooklyn de outros tempos, terá assassinado uma rapariga de tenra idade. Faz-se vénia ao classicismo perdido e até se incluem imagens recortadas de outros filmes, como que reforçando a qualidade desta enquanto comentário sobre a arte cinematográfica e a dor de perder quem se ama por meio da História Literária. Infelizmente, as duas partes não encaixam e é óbvio quanto o realizador se sente mais confortável a trabalhar na língua materna que no inglês. Perde-se a obra maestra e fica-se com algo imperfeito, mas não por isso desinteressante. Talvez até inspire mais fascínio deste modo.

Broker - Intermediários, em análise
leonora addio critica leffest

Movie title: Beurekeo

Date published: 22 de November de 2022

Director(s): Paolo Taviani

Actor(s): Fabrizio Ferracane, Matteo Pittiruti, Dania Marino, Dora Becker, Nathalie Rapti Gomez, Claudio Bigagli, Roberto Herlitzka, Robert Steiner, Giuseppe Lo Piccolo, Jessica Piccolo Valerani

Genre: Drama, 2022, 90 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

“Leonora Addio” é formado por uma breve longa-metragem agrafada a uma curta sem propósito. Dito isso, o filme tem muito valor enquanto despedida a Vittorio Taviani pela parte do seu adorado irmão. Pirandello faz o papel de figura moribunda, mas o vácuo chorado é aquele deixado pelo realizador e não necessariamente pelo escritor vencedor de um Nobel.

O MELHOR: A odisseia absurdista de Pirandello depois da morte, desde o depósito das cinzas num vaso grego até à procissão com caixão infantil, um baú mal medido e um derradeiro despojamento sobre as águas do Mediterrâneo.

O PIOR: O episódio narrativo passado em Brooklyn é desnecessário, eminentemente fútil quando comparado ao que o antecedeu.

CA

Sending
User Review
0 (0 votes)
Comments Rating 0 (0 reviews)

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Cláudio Alves has 1670 posts and counting. See all posts by Cláudio Alves

Leave a Reply

Sending