LEFFEST ’17 | Cocote, em análise

Cocote” é uma coprodução da República Dominicana, Qatar, Alemanha e Argentina, assim como um dos filmes mais estilisticamente endiabrados desta edição do Lisbon & Sintra Film Festival.

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“Cocote”, o primeiro filme dominicano a ser exibido no Festival de Locarno, conta a história do regresso de Alberto à sua terra natal. Ele é um jardineiro que trabalha para uma família afluente na capital da República Dominicana e que, para grande descontentamento da sua família, se converteu ao evangelismo. Quando o pai de Alberto morre, ele é convocado pelas matriarcas da sua família para ir ao funeral, mas depressa se apercebe que as suas familiares têm outros planos para ele. Especificamente, elas querem que, como novo homem da família, Alberto vingue a morte de seu pai, confrontando e idealmente matando o polícia corrupto que alegadamente perpetrou o homicídio. Assim, o espírito do patriarca caído será vingado e poderá estar em paz, talvez até imbuindo Alberto com a força que as suas novas práticas religiosas lhe parecem ter roubado.

No seu âmago e consoante a forma do seu esqueleto dramático, “Cocote” é uma espécie de estudo de personagem e espiritualidade. O filme examina, ao mesmo tempo, o homem que se tem de debater com as pressões familiares e morais de uma comunidade que já não é a sua, assim como a dinâmica entre diferentes igrejas e religiões, entre Cristianismo evangélico e outras variações ainda tocadas pela superstição e ritos pagãos. Grande parte do filme é, de facto, devotado à exposição, quase documental, de diferentes rituais, orações e práticas religiosas, quase todas em volta da homenagem ao homem que morreu mesmo antes do filme começar.

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Tais sequências são tão pervasivas e repetitivas, que qualquer espetador será desculpado se as suas pálpebras começarem a pesar passado um bocado. Para quem conseguir combater a tentação do sono, tal insistência em repetir o mesmo tipo de imagética num ciclo vicioso e aparentemente incessável, acaba por proporcionar uma experiência quase hipnótica na sua agressiva desorientação. Outra interessante consequência deste interesse na repetição de ritos sagrados é que a barreira porosa entre ficção e documentário começa a tornar-se difícil de discernir, promovendo um entendimento das histórias humanas presentes no filme como uma crua reflexão da realidade despida de quaisquer romantizações cinematográficas.

Tal procura por uma representação crua da realidade não se manifesta de forma tão clara na construção formal do filme em geral. Apesar das suas reverias documentais durante as longas sequências em locais de devoção, “Cocote” é um filme de inebriante excesso estilístico, tão diverso e indisciplinado que é difícil discernir algum tipo de lógica interna. De planos severamente estáticos, o filme passa rapidamente para elaborados movimentos de câmara circulares que imergem inteiras cenas no ritmo enervante do movimento contínuo. De preto-e-branco, o filme passa a cor. De celuloide, o filme salta para gravações feitas com a câmara de telemóveis. De formato 4:3, a imagem passa para 16:9. De diálogos mais ou menos convencionais, o filme passa para insanas conversas com a câmara ora a metros de distância dos seus sujeitos, ou posicionada tão perto das suas caras, que certos elementos expressivos são cortados pela composição.

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Espetadores muito generosos poderão ver, neste caos estilístico, uma representação formalística do tipo de caos interno do protagonista ou então uma reflexão das dinâmicas religiosas presentes na história. No entanto, mentes menos caridosas facilmente encontrarão nestes devaneios estilísticos algo mais indicativo da abundância de ideias de um realizador em início de carreira que ainda não teve oportunidade de anteriormente mostrar todos os seus truques e paixões. De facto, este é o primeiro filme narrativo do jovem cineasta Nelson Carlo de Los Santos Arias que, independentemente de quaisquer ponderações sobre a coerência do seu estilo, prova ser um realizador com monumentais ambições formais.

Não é todos os dias que se pode criticar um filme pela sua abundância de ideias e ambição. Normalmente é precisamente o contrário que acontece, pelo que, mesmo se não tivesse em si mais nada de valor, “Cocote” mereceria um certo mérito por essa mesma ambição febril. Felizmente, o realizador do filme não é somente um cineasta ambicioso, sendo que certos planos de “Cocote” quase que deixam um cinéfilo de boca aberta perante a magnífica complexidade latente à sua construção. Veja-se, por exemplo, um plano que começa na mais profunda das escuridões, onde dois pontos luminosos, bem longínquos, começam a sugerir o movimento de um carro. Pouco a pouco, delineia-se uma ideia de estrada e paisagem na escuridão, até que o carro está próximo da câmara, iluminando a figura de Alberto a correr na direção da objetiva.

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Imagens como essa existem em surpreendente número em “Cocote”, um festim visual e formalístico do mais alto gabarito, mesmo que ocasionalmente confuso, indisciplinado e cansativo. Encerrar o filme com um regresso ao paraíso idílico de uma piscina na capital dominicana, bem longe dos tumultos que afetam as populações mesmos abastadas da ilha, é o final golpe de génio aqui presente. raramente um corte consegue conter em si tamanha violência e crítica social. Há aqui a presença de genuína inspiração artística que, possivelmente, mais alguns filmes e anos de experiência podem vir a polir até que teremos diante dos nossos olhos uma verdadeira e incontestável obra-prima assinada por Nelson Carlo de Los Santos Arias.

 

Cocote, em análise
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Movie title: Cocote

Date published: 25 de November de 2017

Director(s): Nelson Carlo de Los Santos Arias

Actor(s): Vicente Santos, Yuberbi de la Rosa, Enerolisa Núñez, Judith Rodriguez Perez, Pepe Sierra, Ricardo Ariel Toribio

Genre: Drama, 2017, 106 min

  • Claudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO

“Cocote” é uma explosão de estilo e ambição, recheado de truques cinematográficos e claras intenções de crítica social. Pelo meio das suas reverias religiosas e exuberância técnica, o estudo de personagem acaba por se perder, mas nada isso faz com que esta não seja uma obra merecedora de valor e admiração.

O MELHOR: A espetacular ambição formal do realizador de “Cocote”.

O PIOR: O modo como essa mesma ambição formal acaba por corroer a crítica social que o filme tenta construir contra o estado atual da sociedade dominicana, assim como o seu estudo de um homem em conflito com deveres filiais, tradicionalismos tribais e questões do espírito.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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