LEFFEST ’17 | A Liberdade do Diabo, em análise

A Liberdade do Diabo” é um documento de sofrimento inimaginável, um filme que aterroriza sem ser de terror, e uma experiência tão cansativa como demoniacamente esclarecedora. Este é também um dos filmes em competição no Lisbon & Sintra Film Festival.

leffest a liberdade do diabo critica

Documentárias cuja construção depende quase única e exclusivamente de entrevistas tendem a ser alguns dos filmes não-fictícios mais esteticamente desinspirados. Considerando que muitas das mais excitantes experimentações formais do cinema atual se encontram precisamente no cinema documental, tal realidade é particularmente triste. No entanto, existem exceções à regra, algumas das quais constituem píncaros raramente alcançados do cinema enquanto meio de expressão humana. Os projetos de Claude Lanzmann sobre o Holocausto e os filmes de Errol Morris sobre personalidades da política americana são algumas dessas luminosas exceções. A esse grupo seleto de maravilhas cinematográficas podemos agora acrescentar o mais recente documentário de Everardo González sobre o inferno na terra criado pela violência sistemática associada ao narcotráfico que afeta a sociedade mexicana, “A Liberdade do Diabo”.

Logo desde os seus momentos de abertura que o filme se insinua como um evento cinematográfico de impor respeito. Na negrura impenetrável de um ecrã negro, uma voz relata a sua dificuldade em compreender como é que seres humanos são capazes de perpetrar atos tão desumanos como os assassinatos, raptos, torturas e violações que o espetador de “A Liberdade do Diabo” irá ouvir descritos em excruciante detalhe durante a seguinte hora. A penumbra dissolve-se, deixando perscrutar um arvoredo banhado na luz azulada da madrugada. Na banda-sonora, um burburinho atonal dificilmente caracterizado com música começa a fazer-se ouvir, sugerindo algo primordialmente maligno, uma perturbação na ordem do mundo que até a natureza parece ter corrompido. Finalmente, González termina esta sequência de abertura com um tableau arrepiante. No meio das árvores está alguém, um corpo, um cadáver. Voltamos ao conforto da escuridão.

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Essa abertura coloca o espetador numa posição de descomunal desconforto e tensão, mas nada se compara ao impacto das imagens que se seguem. É que, para a concretização deste inestimável documento cinematográfico, González entrevistou vítimas, familiares de vítimas, assassinos e até membros corruptos das autoridades mexicanas cujos relatos, em certos casos, nunca antes tinham sido verbalizados em voz alta. Muitas dessas pessoas estar-se-iam a colocar em enorme perigo caso as suas identidades fossem facilmente discernidas, pelo que González filme os seus entrevistados com as caras cobertas por desconcertantes máscaras de estilo balaclava em cor de pele. O resultado é uma coleção de entrevistas tão mais perturbadoras pela desumanização anónima que as máscaras concedem a composições perfeitamente perfuntórias na sua severidade frontal.

A voz dos intervenientes, no entanto, mantém-se inalterada, o que pode por em risco os sujeitos do filme, mas também acaba por se revelar um elemento chave na apreciação das suas palavras. Em momentos isentos de expressão verbal, onde a paisagem sónica e as máscaras tudo dominam, “A Liberdade do Diabo” parece ser um filme de terror, correndo o perigo de despir os seus sujeitos de qualquer réstia de humanidade e impossibilitando qualquer tipo de diálogo ou dinâmica empática com o espetador. No entanto, assim que os entrevistados falam, a emoção da sua voz e a banalidade do seu timbre viola o pesadelo atmosférico.

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Certas retóricas políticas muito em voga em certos setores da sociedade norte-americana gostam de pintar o México como uma terra de onde nada de bom poderá sair, um território cosmicamente condenado à malvadez humana. A fricção entre desumana atmosfera e testemunhos dolorosamente humanos deste documentário manifesta-se indiretamente contra tais ideias, pintando o clima de violência atual com algo virulento, uma doença a ser tratada, mas cuja cura ainda não foi descoberta. Certamente o modo como a violência trabalha na psique humana parece quase imitar uma infeção que de uma mazela singular alastra e contamina todo um ser. Veja-se, por exemplo, a entrevista a um jovem assassino que atou pela primeira vez quando tinha somente 14 anos. Desde aí, continuar no caminho do crime e da desumana violência parece ser o único caminho que este homem consegue ver pela sua frente, tanto por razões externas como internas. Afinal, nenhum destes assassinos julga que algum dia merecerão expiação pelos seus pecados.

Tal como acontece com os filmes de Joshua Oppenheimer sobre os massacres perpetrados contra comunistas na Indonésia, “A Liberdade do Diabo” torna-se quase insuportavelmente aterrador quando o espetador é confrontado com a casualidade com que assassinos falam da sua matança, até de crianças. Inicialmente, o mesmo jovem que se estreou como ceifador de vidas aos 14 anos parece ter memórias mais vivas do peso da arma do que do sofrimento que tal monstruosidade veio a causar. Pouco a pouco, relatos destes, juntamente com os testemunhos de raparigas cujas mães desapareceram há anos, mulheres que descobriram os cadáveres dos filhos, homens que foram raptados e violados, pessoas que tentaram encontrar os fundos para pagar resgates e que, no final, desejam que tivessem morrido ao invés de terem de aguentar a perda daqueles que amavam, tecem uma tapeçaria de trauma a que o filme dá forma audiovisual.

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Por detrás dessa tapeçaria também encontramos toda uma construção social doente e podre com a infeção da violência. Trata-se de uma estrutura de poder, onde é impossível qualquer pessoa confiar nas autoridades, onde exército e polícia ora estão infiltrados por membros de gangues e cartéis ou então mostram-se apáticos e desinteressados nas mágoas das pessoas. É aterrador confrontar a realidade de jovens que, reminiscentes dos membros do estado islâmico que celebram as suas chacinas no Twitter, falam de como matar lhes deu poder e fez sentir importantes, mas é igualmente importante e difícil ponderar sobre como é que se desfaz o ciclo vicioso em que uma sociedade de tal modo corrompida. O filme, pela sua parte, não ousa oferecer quaisquer repostas fáceis a estas questões.

No final, acima de tudo o mais “A Liberdade do Diabo” assume-se como um teste de empatia cinematográfica levada aos mais demónicos extremos. Afinal, depois de ouvir um homem descrever como uma morte pode dar lucro de somente 10 dólares ou como crianças raramente resistem no momento da execução, pois não percebem bem o que lhes vai acontecer quando são ordenadas a pôr-se de joelhos em frente a homens armados, é fácil sentir o coração tornar-se tão insensível como pedra. Certamente, os filhos e filhas de pessoas desaparecidas não parecem ter em si o poder para esquecer e muito menos perdoar o mal que lhes foi feito.

No entanto, uma mãe que perdeu ambos os filhos e chegou a ver os homens que os mataram, parece ser capaz de o fazer. O filme termina mesmo com ela a tirar a máscara, como que desafiando o espetador a compreender o seu incompreensível perdão. Ao longo do filme, o espetador é exposto a histórias de sofrimento inimaginável e é assim forçado a ler humanidade nas faces rasuradas de homens, mulheres e crianças. A audiência acaba por ficar emocional e mentalmente esgotada, pelo que esta última confrontação, este derradeiro desafio cognitivo, é como um murro no estômago que nos faz sair da sala de cinema atordoados e a sufocar na dor alheia. “A Liberdade do Diabo” não oferece catarse, apenas dor, perguntas difíceis e o fardo cáustico do conhecimento.

 

A Liberdade do Diabo, em análise
A Liberdade do Diabo

Movie title: La Libertad del Diablo

Date published: 2017-11-25

Director(s): Everardo González

Genre: Documentário, 2017, 74 min

  • Claudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO

Ver “A Liberdade do Diabo” é como acordar para dentro de um pesadelo, onde o genial mecanismo de mascarar as faces dos entrevistados se torna na mais poderosa ilustração pensável de um mundo onde os valores normalmente associados ao conceito de “humanidade” estão ausentes.

O MELHOR:
As máscaras, que propõem anonimato ao mesmo tempo que desafiam o espetador a sair da passividade da sua posição, forçando-o a prestar atenção às palavras e a conceder individualidade humana a cada uma destas pessoas sem cara. A imagem que o poster usa, de uma dessas máscaras a ser progressivamente enegrecida pela mancha de lágrimas é particularmente assombrosa.

O PIOR: A realidade que o filme explora e o modo como muitas pessoas inebriadas de preconceitos anti mexicanos poderão encontrar aqui uma justificação para o seu ódio, mesmo que o filme tente evitar tais perversões ideológicas.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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