LEFFEST Os Irmãos Sisters critica

LEFFEST ’18 | Os Irmãos Sisters, em análise

Os Irmãos Sisters” é um peculiar western que valeu ao francês Jacques Audiard o Prémio de Melhor Realização do Festival de Veneza deste ano. O filme está incluído na secção oficial – Fora de Competição do LEFFEST ’18.

O western é um género cinematográfico que recusa cair na irrelevância. Mesmo durante períodos prolongados onde estas aventuras do Oeste Americano caem nas profundezas da impopularidade, tal é somente o sinal de mais uma iminente reinvenção. O que a maioria das muitas outras permutações do western têm em comum é a procura constante por um tom épico e gosto pela iconografia clássica do género, mesmo que o seu intuito seja desconstruir esses mesmos ícones e tonalidades. Em contraste, “Os Irmãos Sisters” parece ignorar este legado e ser o resultado de um western filmado por um realizador que detesta violência e tem um total desinteresse nas imagens imortalizadas pelo género. Parece um western feito por alguém que nunca viu westerns e não tem nenhuma vontade de retificar a situação.

O realizador em questão é Jacques Audiard e é difícil imaginar um cineasta menos expectável para a cadeira de realizador de uma grande aventura literária do Velho Oeste como esta. Audiard é o rei do realismo social francês e “Os Irmãos Sisters” representa o seu primeiro filme acabado depois de ganhar a Palme d’Or em 2015 por “Dheepan”. É também o seu primeiro filme em inglês e sua primeira desventura pelo cinema de época desde os anos 90, no início da sua carreira. Se é imaginável, os produtores do filme representam uma coleção de nomes e filmografias ainda mais inesperada, com os irmãos Dardenne e Cristian Mungiu a marcarem presença.

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Um western despido de nostalgia cinematográfica.

Uma coisa é certa, desde os primeiros instantes que “Os Irmãos Sisters” afirma a sua idiossincrasia. Esta adaptação do romance homónimo de Patrick DeWitt abre com uma renhida batalha de armas de fogo na paisagem americana. Tal situação parece típica, mas o modo como é filmada não tem nada de corriqueiro. Audiard regista quase toda a luta num plano geral, mergulhado na penumbra da noite, de modo a que espectador pouco mais vê que um cenário rochoso perdido na escuridão e ocasionais flashes dos tiros na distância. A carnificina é impessoal e alienada, até ao momento em que o filme corta para os irmãos titulares a executarem impiedosamente os últimos alvos que foram pagos para matar.

Aí estamos perto da ação, para ver o horror da matança, para entender que nada disto é entretenimento ou uma peça da mitologia do Oeste. Os irmãos Sisters são criminosos contratados, assassinos profissionais e o seu ofício é hediondo. Contudo, eles são também pessoas complexas e personagens coloridas com as quais gostamos de passar o tempo, mesmo quando temos em mente a amoralidade dos seus atos. Tais paradoxos são o sangue que corre nas veias deste filme, desde esse prólogo noturno até aos momentos finais, onde Audiard nos volta a surpreender, pela milésima vez. Começamos com pólvora e cavalos em chamas, mas terminamos com carinho maternal e o prazer do sol na cara e uma brisa no ar.

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Eli, o irmão mais velho, é interpretado com bonacheirona afabilidade por John C. Reilly. O ator é tão capaz de encontrar humor no deleite que a sua personagem tem pelas inovações higiénicas do século XIX, como de desenterrar profundezas de melancolia no desejo que Eli tem de abandonar a vida criminosa e seus ciclos infinitos de violência. Charlie, o irmão mais novo, é interpretado por Joaquin Phoenix como um caco humano tão grotesco como risível, dominado pelos seus desejos básicos, pela ganância, pela agressão, sexo e álcool. Ao contrário do irmão, ele não vê uma saída do mundo de crime em que eles estão afundados, sendo que a sua ambição é subir ao topo desse mesmo cosmos de domínio e violência.

A dinâmica entre os dois atores é impecável e serve de âncora às cambalhotas tonais mais divertidamente incoerentes do filme. Em certas passagens, Audiard parece ceder completo controlo aos atores, limitando-se a observar fricção e camaradagem entre os irmãos em busca de um químico que o seu chefe quer torturar para obter uma fórmula que revela a presença de ouro no leito dos rios.  Na verdade, os primeiros dois atos do filme são dominados por duplas de atores, de um lado os irmãos e do outro Hermann Kermit Warm, o químico genial, e John Morris, um capanga colega dos irmãos que decide ajudar o químico depois de ser conquistado pelo seu idealismo utópico.

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A violência é sempre hedionda, mesmo no grande ecrã.

Como a segunda parelha da história, Audiard tem Riz Ahmed e Jake Gyllenhaal, cuja química já mais do que tinha sido provada em “Nightcrawler”. Pela sua parte, Gyllenhaal está em completa sintonia com a bizarra visão que o cineasta francês tem do Oeste, brincando com as idiossincrasias da sua personagem cujo discurso floreado é fonte de muito humor. Ahmed, pelo contrário, existe num outro plano de existência das outras personagens, representando em si um raio de luz divina, uma esperança que quase transcende os outros humanos em seu redor quer seja pela sua inocência como pela pureza das suas intenções. Em certos instantes, a câmara parece quase congelar enquanto mira a expressão aberta de Ahmed, como que hipnotizada pelos seus olhos reluzentes.

Estas não são personagens feitas para o western com seus fatalismos e niilismos do costume. Isto são palhaços atormentados pelos seus crimes, aventureiros dececionados com o mundo e profetas proto socialistas a andar cegos por um mundo traiçoeiro e inóspito. Um mundo belo, tátil e estranho, onde cidades florescem no meio do nada como parques de atrações delapidados, onde São Francisco à Babilónia banhada pelo Pacífico e onde a violência é como uma infeção que afeta tudo e todos, corroendo a moral e envenenando os corpos de quem a sofre e perpetra. Nada disto é visto com uma perspetiva trágica, mas sim com a gentileza de um poeta melancólico que encontra humor no absurdo da vida, mas não tem ilusões nostálgicas sobre o passado.

Por todas essas razões, é de admirar como Audiard consegue dar a volta a esta odisseia e negar a sua tragédia antes do último baixar da cortina. O cineasta francês parece ter genuíno afeto pelas suas personagens e isso é algo que o espectador sente em cada fotograma do filme. Mesmo este cosmos de barbarismo americano em que elas vivem é reproduzido com detalhe digno de um épico italiano dos anos 60 e com um certo amor pelos mais estranhos pormenores de tecnologia e design pessoal. Quem desejar ver um western mais tradicional só vai encontrar deceções neste antiépico, mas há muito a ser apreciado neste mais original dos westerns contemporâneos. Audiard continua a afirmar-se como um mestre do cinema, pronto a arriscar e a dar á audiência uma celebração idiossincrática de todo um passado há muito moldado por lendas cinematográficas que pouco ou nada têm que ver com esta peculiar joia.

Os Irmãos Sisters, em análise
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Movie title: The Sisters Brothers

Date published: 16 de November de 2018

Director(s): Jacques Audiard

Actor(s): John C. Reilly, Joaquin Phoenix, Riz Ahmed, Jake Gyllenhaal, Rebecca Root, Allison Tolman, Rutger Hauer, Carol Kane

Genre: Aventura, Comédia, Crime, 2018, 121 min

  • Cláudio Alves - 85
  • José Vieira Mendes - 90
88

CONCLUSÃO

“Os Irmãos Sisters” é um western maravilhosamente estranho, que sacrifica coerência tonal em prol de uma maleabilidade narrativa que causa tanta admiração como choque. Um elenco afinado e maravilhosos elementos formais fazem desta obra mais uma joia na coroa cinematográfica de Jacques Audiard, cujos olhos estão sempre postos no futuro, mesmo quando está a assinar uma aventura oitocentista.

O MELHOR: A coragem de Audiard em fazer um western tão excêntrico como este.

O PIOR: Uma cena em que Phoeniz fala diretamente para a câmara num estúdio negro é o notório caso de um rasgo de experimentação que não funciona.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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