LEFFEST ’17 | Jogo da Alta Roda, em análise

Jessica Chastain e Idris Elba eletrizam o ecrã em “Jogo da Alta Roda”, o primeiro filme realizado por Aaron Sorkin. É uma obra que, apesar de bastante longa, se move com a energia e velocidade dos seus mais bombásticos diálogos. Este é também um dos títulos exibidos na secção não competitiva do Lisbon & Sintra Film Festival.

leffest jogo da alta roda critica

Aos 12 anos, a vida desportiva de Molly Bloom parecia ter os dias contados, quando o diagnóstico de escoliose levou a uma série de complexas cirurgias à sua coluna vertebral. Isso não impediu a jovem de seguir o caminho traçado pelo seu ambicioso pai e irmãos igualmente talentosos, sendo que Bloom se veio a tornar numa esquiadora de calibre olímpico. Infelizmente, um desastroso acidente numa prova de Freestyle acabou por colocar um incomensurável ponto final aos seus sonhos desportivos. Molly Bloom foi então viver sozinha para Los Angeles, onde começou a trabalhar para um homem que organizava jogos de póquer milionários e extremamente exclusivos para algumas das pessoas mais poderosas do mundo como empresários, herdeiros, estrelas de Hollywood e figuras políticas. Bloom acabou por destronar o seu antigo empregador e tornou-se ela na senhora toda-poderosa do póquer de Los Angeles antes da má vontade de um ator com gostos destrutivos levar à sua queda em desgraça.

Decidida a não perder o seu poder e influência, Bloom partiu para a Costa Leste dos EUA e, em Nova Iorque, voltou a dominar o mundo dos jogos de póquer com preços de entrada astronómicos e jogadores com poderes e riqueza inimagináveis para o comum dos mortais. Depois de uns encontros violentos com a máfia italiana e algumas aproximações ao patamar da ilegalidade, Molly Bloom desistiu do póquer das estrelas, foi viver com a mãe e deu entrada numa clínica de desintoxicação para tratar o seu vício em drogas ganho como consequência das exigências sobre-humanas do seu negócio. Dois anos depois, enquanto preparava uma autobiografia, ela foi presa pelo FBI e levada a tribunal em conjunto com uma série de membros da máfia russa que, sem o seu conhecimento, Bloom tinha incluído nos seus jogos de milhões.

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Com tantas reviravoltas, triunfos e subsequentes espirais autodestrutivas, a história de Molly Bloom dificilmente se manteria afastada do grande ecrã durante muito tempo, mesmo que parte da sua intriga envolva os poderios da cidade onde os sonhos são fabricados em celuloide. No final, esse privilégio recaiu sobre Aaron Sorkin, talvez o mais famoso argumentista americano da atualidade, que se estreia em “Jogo da Alta Roda” na cadeira de realizador. De facto, por muito que este seja o filme de Molly Bloom, é ainda mais significativamente um filme de Aaron Sorkin, estando todos os seus tiques estilísticos, preocupações e temas de estimação bem presentes no produto final. Se formos mais longe, até podemos dizer que, nas suas escolhas enquanto realizador, Sorkin manifesta o legado e influência dos realizadores que outrora filmaram os seus guiões.

De David Fincher, por exemplo, Sorkin tirou a paleta cromática do filme, assim como a qualidade polida e vagamente fria de toda a sua concretização material. A Danny Boyle, pelo contrário, Sorkin foi buscar o estilo de montagem frenético, desta vez não calibrado tanto pelas imagens e paisagem sónica, mas sim pelos ritmos enlouquecidos do diálogo. Boyle ainda será o grande inspirador do modo como Sorkin usa gráficos e ocasionais efeitos especiais sobrepostos sobre a imagem para ilustrar certos pensamentos e cálculos analíticos da sua protagonista. Talvez mais significativo ainda que os estilos formais desses outros cineastas seja o legado que Bennett Miller e Mike Nichols deixaram em Sorkin, que é o modo de trabalhar com atores.

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Certamente, para quem olha para os clássicos americanos dos anos 30 e 40 com resignada melancolia, pois já não se fazem filmes com aquele tipo de diálogos rápidos disparados por luminosos astros de Hollywood, “Jogo da Alta Roda” será uma espetacular fonte de prazer. Quando Jessica Chastain e Idris Elba estão em cena como Molly e o seu advogado Charlie Jaffey, é como se Rosalind Russell e Cary Grant tivessem ressuscitado. A química entre Chastain e Elba é de outro mundo, e a força com que cada um parece capturar a atenção do espetador é algo que tem de ser experienciado para ser completamente entendido. Por outras palavras, através da câmara de Sorkin, os dois atores assumem-se como inquestionáveis estrelas, tão prontos para entreterem o público com o seu carisma inato como para construírem personagens através de cuidadosas escolhas de caracterização.

Chastain, em particular, está elétrica no filme, delineando a evolução gradual de Molly com monumental segurança e fazendo-a sempre clara, mesmo quando a estrutura narrativa insiste em entrecortar várias fases da vida desta monarca do póquer. A verdade é que Chastain é ainda melhor que o argumento de Sorkin, compensando ou circunvagando muitos dos maiores problemas aí presentes com astuciosa ferocidade. Por exemplo, é patentemente óbvio que Sorkin adora Molly Bloom, ou pelo menos a versão que ele construiu dela, mas isso nem sempre é benéfico para o filme. Para começar, Sorkin faz de Molly uma espécie de santa do póquer, fazendo referências à ganância de Bloom ou aos seus problemas com drogas, mas nunca explorando essas facetas menos felizes da sua protagonista.

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Pior ainda é o modo como Sorkin completamente excisa algumas partes da vida de Bloom do seu guião, como os dois anos que Bloom passou com a mãe e a sua reabilitação depois de decidir curar-se da dependência por drogas. Pela sua parte, Chastain consegue sugerir a negrura e dor que sombreia a decência inata de Molly, com a inexpressão de um olhar fixo ou a rigidez de algumas das suas reações. Infelizmente, o cineasta não mostra suficiente confiança na atriz, abolindo qualquer tipo de subtileza. Ele ama tanto a sua personagem principal que tenta que a audiência a entenda tão bem como ele, forçosamente explicando a sua psicologia. Só que nenhum humano é tão facilmente explicável e Sorkin comete aqui o erro de dissecar tanto a sua personagem que acaba por expor a sua condição enquanto uma criação dramática, mesmo que a sua base esteja bem assente na realidade.

A cena em que tal explicação psicológica acontece é ainda marcada pela presença da personificação de todos os problemas mais conspícuos de “Jogo da Alta Roda”, o pai de Molly Bloom. Tal como fez em “Steve Jobs”, Sorkin orientou grande parte do seu drama em volta da dinâmica tóxica entre um pai e filha com anos de ressentimentos a lhes envenenarem a relação. Também aqui essa batida dramática parece algo que Sorkin impôs a uma vida alheia, distorcendo-a para encaixar no seu estudo familiar que, por muito genuíno e doloroso que seja, não deixa de ser algo perfuntório no repertório do escritor. Para além disso, tal foco e tentativa de explicar Molly quase única e exclusivamente em relação ao pai, salienta quão Sorkin relega a mãe da sua protagonista à posição de uma figurante silenciosa durante a maior parte do filme e de como ele continua a ter dificuldade em construir personagens femininas.

Não há dúvida que “Jogo da Alta Roda” é um filme cheio de potencial enquanto objeto de entretenimento e, se mais nada tivesse para oferecer, a prestação de Chastain já seria razão suficiente para fazer desta obra visionamento indispensável. No entanto, uma série de fragilidades textuais contaminam a experiência e revelam alguns dos maiores problemas na oeuvre de Sorkin com feia claridade. Outros erros técnicos, como a constante presença de falhas de raccord, chamam ainda atenção para a realidade deste filme enquanto a primeira obra de um escritor a experimentar a realização pela primeira vez. Enfim, não é qualquer filme que nos dá oportunidade de ver Jessica Chastain e Michael Cera, no papel anonimizado de Tobey Maguire, a trocarem palavras como facadas e há que mostra gratidão pela existência de tais prazeres.

 

Jogo da Alta Roda, em análise
Jogo da Alta Roda

Movie title: Molly's Game

Date published: 2017-11-26

Director(s): Aaron Sorkin

Actor(s): Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Brian d'Arcy James, Chris O'Dowd, Jeremy Strong, Graham Greene, Bill Camp

Genre: Biografia, Drama, 2017, 140 min

  • Claudio Alves - 63
  • Rui Ribeiro - 95
  • José Vieira Mendes - 85
  • Daniel Rodrigues - 65
  • Marta Kong Nunes - 79
77

CONCLUSÃO

Como um filme, “Jogo da Alta Roda” é uma obra que tem tantos bons elementos como terríveis falhas, quer seja a nível textual ou formalístico. Como entretenimento cinematográfico, contudo, esta é uma joia preciosíssima.

O MELHOR: Apesar de este filme não ser tão ideologicamente complexo ou revelador como “Miss Sloane” do ano passado, Jessica Chastain consegue superar o seu trabalho nesse drama político, num papel muito parecido, com uma facilidade estrondosa. Já muitos a consideram uma grande atriz, mas já está na hora de reconhecermos que temos aqui uma verdadeira estrela de cinema.

O PIOR: O modo como o filme constrói e apresenta as suas personagens femininas, incluindo o desenvolvimento do perfil psicológico da protagonista.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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